A lista da mulher que se cuida:

– Manicure;
– Pedicure;
– Unha de porcelana;
– Esfoliação;
– Hidratação;
– Depilação (sobrancelha, buço, axila, pernas, virilha e ânus);
– Clareamento anal;
– Clareamento dentário;
– Maquiagem;
– Maquiagem definitiva;
– Tintura no cabelo;
– Chapinha / Babyliss;
– Megahair;
– Alongamento de cílios;
– Permanente de cílios;
– Tintura de cílios;
– Micropigmentação;
– Bronzeamento artificial;
– Botox;
– Cremes para rugas, manchas, marcas de expressões, poros abertos;
– Bichectomia;
– Preenchimento labial;
– Preenchimento nas olheiras;
– Criolipólise;
– Dermaroller;
– Striat;
– Drenagem linfática;
– Acessórios (brincos, anéis, colares, cintos; pulseiras);
– Salto alto;
– Shakes;
– Limpeza de pele;
– Peeling;
– Plástica capilar;
– Cronograma capilar;
– Cronograma facial;
– Banho de creme;
– Plástica “íntima”;
– Silicone;
– Abdominoplastia.

Mas fiquem tranquilas que todo mundo AMA as mulheres, esse gênero tão belo ❤

The Handmaid’s Tale e a pavorosa República de Gilead

(publicado originamente no Puro Pop)

The Handmaid’s tale é uma série baseada no livro de mesmo nome da autora Margaret Atwood, de 1985, e foi produzida pela plataforma de streaming Hulu

Conhecida também como O Conto da Aia, a série é pesada e se torna ainda mais assustadora se pensarmos que nada é irreal.

Não faz ideia do que eu estou falando? Então respire fundo e sinta o soco no estômago.

Do que se trata

Imagine que você mora na maior potência do mundo, em um país conhecido por ser “livre”, onde todos já desejaram estar.  Então, de uma hora para a outra, esta nação se torna o contrário de tudo isso.

Pois é.

Em The Handmaid’s Tale, as maiores vítimas são as mulheres. Elas foram obrigadas  a mudar suas vidas para serem apenas uma posse. Isso acontece depois que os Estados Unidos se transforma em um governo totalitário e teocrático cristão chamado República de Gilead.

No novo regime extremista, o país é dividido por castas, ou seja, cada cidadão tem a sua função baseada em uma hierarquia social. Uma vez em uma classe, você nunca mais sai dela. OU SEJA, a pessoa perde toda a sua liberdade e, se é mulher, ferrou mais ainda.

Do Fred

A história de The Handmaid’s Tale acontece sob a perspectiva de Offred (Elizabeth Moss), que antes era conhecida como June. Ela se torna uma aia, mulher fértil que “tem a função” de gerar uma criança para uma esposa infértil e o seu marido.

Além de se tornar propriedade dessa família, ela é estuprada mensalmente pelo seu “comandante” durante o período fértil em um ritual chamado de “cerimônia”. O mais bizarro  é que a esposa está sempre presente no ritual de estupro. A sua função no processo é segurar a aia no meio de suas pernas para simular uma ligação entre os três.

A cerimônia é repetida mensalmente até que ela engravide. Então, ela permanece na família até o bebê nascer e parar de amamentar, para depois seguir seu rumo para a outra casa, outra família, fazer a mesma coisa. Basicamente, esta é a única função de uma aia.

Cada aia possui um nome semelhante que é composto por “of”, “de” em inglês, com o nome do comandante da casa. No caso da protagonista, Offred, seria “of Fred”, ou “de Fred”. Perturbador.

Bizarrices

Em meio a todos os fatos perturbadores presentes em The Handmaid’s Tale, o mais espantoso é perceber que as leis são baseadas na Bíblia e que nada é 100% inventado. O cristianismo é usado com tanto fervor que os diálogos, por exemplo, são repletos de frases religiosas.  “Bendito seja o fruto”, “que o Senhor possa abrir”, “louvado seja”, entre outras, são frases ouvidas o tempo todo.

Os castigos punem de maneira extrema e com MUITA violência os que não respeitam os ensinamentos bíblicos. A homossexualidade, por exemplo, é “traição de gênero” e a punição pode ser a morte por enforcamento ou mutilação.

No caso das aias, elas não têm permissão para ler, escrever e nem olhar os homens nos olhos. Caso estas ou outras leis não sejam cumpridas, a sentença também pode ser a morte, mutilação ou torturas muito piores.

Na verdade, todos estão sujeitos a estas punições, não só as mulheres. Em The Handmaid’s Tale, assim como qualquer outra trama que envolve política, assistimos uma batalha pelo poder. Como não poderia deixar de ser, vemos uma guerra cheia de hipocrisia e injustiça.

Esperança

É difícil dizer que uma série com tanto absurdo e crueldade é incrível, mas The Handmaid’s Tale de fato é!

Os primeiros episódios são difíceis de assistir. Mesmo. Mas conforme conhecemos os personagens e suas vidas no passado, e acompanhamos o início de uma revolta, tudo flui um pouco mais leve. No final, sentimos um pouco de esperança de que a República de Gilead seja extinta. Será?

Handmaid’s Tale já foi renovada para a segunda temporada em 2018!

Paterson. No ideas but in things.

:: 3 minutos para esta leitura e, quem sabe, Paterson te leve ao cinema:

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Sem amor,

qual a razão para qualquer coisa?

 

Não sou uma pessoa muito do cinema, ainda que ame filmes. Digo isso por não ter o hábito de ir ao cinema e, diferente do que possa parecer, não é por não apreciar a arte. O que me afasta são as pessoas falando no local, aquele barulho de pipoca, de embalagens que se abrem, de latinhas de refrigerante, sem falar na luz dos celulares que insistem em iluminar a sala. Todavia, alguns filmes me obrigam a ir, seja pela ansiedade, seja pela experiência e expectativa.

Paterson é um desses casos. Certamente ele já entrou na lista de filmes para ver, rever, ver, rever…  O fato de estarmos próximos a Allen Ginsberg e Kerouac é apenas um detalhe, apaixonante por sinal. Com o bônus dos poetas Ron Padgett e William Carlos Williams. 

Em Paterson, a cidade é mais que um local, é um personagem. O homem é a cidade, é o ônibus. A cidade é o homem. Metáfora. Poesia. Sua narrativa segue o fluxo de um poema e isso é incrível. Um filme sensível e cheio de signos a serem descobertos. Repleto de referências  que te aquecem o coração a cada encontro.  Como aquele livro que aparece despretensiosamente na cena, lembrando a nós a obsessão humana pelo entretenimento, dos vícios, do narcisismo, do tempo e da solidão da nossa vida pós-moderna.  

Somos abraçados pela poesia, em diferentes  formas, por meio da celebração da riqueza existente na monotonia e banalidade do nosso dia a dia. Temos aqui, aquilo que é “simples” indo de encontro  a “complexidade da vida”. Somos confrontados a ver aquilo que por muito ignoramos, demonstrando que temos coisas que apenas não nos são perceptíveis por ficarmos apenas na superfície. Recebemos o convite a parar, observar e afundar. É preciso ir além do que se vê.

Vivemos o efêmero, na vida e na arte.  Nessa história, Jarmusch coloca o contraponto de um universo perene e imutável ao caos de ideias, permeado pelo universo onírico e mergulhado na efemeridade. O que mais gostei –  além de toda a poesia, sensibilidade e simplicidade? Não temos o ideal de vida aqui representado. Como em Woody Allen, existe a busca pelo real, aquilo que é a vida, nem sempre feliz, nem sempre perfeita. Todos tem problemas, vivem amores, não existe o certo ou o errado. 

Paterson escreve poemas na pausa do trabalho. Escritos e guardados em um pequeno caderno, para assim serem esquecidos. O poeta-motorista escreve e lê os poemas em voz, como se as palavras fossem, uma a uma colocadas para fora, num processo lento e necessário. Um murmúrio silencioso. Porque escrever dói. Como bem descreveu Caio, é como colocar um dedo na garganta, é o momento decisivo. É tirar sangue com as unhas, é a necessidade de sangrar a-bun-dan-te-men-te. É perceber aquilo que por muito tentamos esquecer e ignorar, é ordenar o caos. Escrevemos para nos mantermos vivos. Como diria Woolf “Escrever é que é o verdadeiro prazer; ser lido é um prazer superficial”, nosso personagem parece entender isso. É um ato de luta, de coragem e, claro, de auto entrega.

Paterson me joga na cara a quantidade de artistas que mantinham uma vida paralela na arte, mostrando que não somos únicos. De dia se trabalha para pagar as contas, nas horas livres, se faz arte para continuar vivendo. Ao fim do mês as contas estarão mais uma vez a chegar e é preciso trabalhar. Fazemos arte para dar algum sentido a tudo, enfrentando nossos demônios e imergindo nesse processo doloroso. Fazemos arte para que existir tenha algum sentido. A poética é repetição, assim como a vida. Aquilo que te desestabiliza, talvez te inspire.

Desejo por fim, que todo artista encontre uma “Laura” em sua vida. E, lembre-se:

 – Você está jogando contra quem?
 – Eu mesmo.

 

P.s.: 
Ficou em dúvida?! Temos aqui o Marvin, o buldogue fofo do filme, para te convencer. Vencedor do Palm Dog em 2016, premiação alternativa em Cannes para melhor performance canina:

Bem vindos ao nosso novo mundo

Ser mãe pra mim é a realização de um sonho. Desde que me conheço por gente sonhava isso e só depois de ter o meu filho consegui entender o porquê (se é que precisa explicar esse tipo de coisa). O principal motivo, é que queria sentir e dar esse amor incondicional que a maternidade proporciona na relação mãe e filho. Mas, na mesma intensidade (não proporção) que esse amor invade nossa vida, outras coisas não tão boas surgem junto.

Quando estamos com as crianças as coisas parecem fluir em outro tempo, outro ritmo. No começo são as madrugadas intermináveis, trocas de fralda, mamá esse ciclo sem fim. Haha Depois vem a introdução alimentar, o desfralde, a escola, as primeiras palavras (não necessariamente nessa ordem) tudo isso vai surgindo, a gente não se dá conta que o mundo do “lado de lá” continua e quando percebemos, tudo está diferente.

Algumas pessoas não estão mais no mesmo lugar, outras coisas perdem a graça e isso assusta um pouco.

Quando finalmente surge um tempo livre, paro para pensar no que quero fazer, quem gostaria de ver e essa decisão se resume, geralmente, no quão dispostos os outros estão para estar comigo. Aqui bate a realidade.  E isso falo de amigos, desde os mais próximos até os nem tanto assim, e também dos familiares.

Mas não estou aqui culpando ninguém e muito menos reclamando da minha vida. Apenas quero expor um sentimento que tenho certeza não é só meu, e eximir uma culpa que não sei porque nós, pais, achamos que é nossa.

Pois isso mamães, amigos e amigas de mamães (e dos papais também viu gente) entendam que há sim um período em que a nossa família ficará mais reservada, no entanto a mãe e o pai continuam sendo aqueles bons de papo, que gostam de uma festa, reunião com amigos, jogar conversa fora, etc. Eles só estão um pouco diferentes, é verdade, mas numa versão melhorada. Temos um novo mundo para apresentar para vocês, e queremos fazer isso.

 

 

O papel do desconstruídão no blacklash

Ele é incrível! Parceiro. Luta pelas minorias. Entende as pautas feministas e sabe decor vários pedaços da “cartilha” feminista.

Faz questão de falar para as amigas o quão diferente ele é, o quanto se irrita com os papos machistas do seu grupo masculino de amigos e como fica enfurecido e envergonhado com a forma que seus “conhecidos” tratam e se referem às mulheres.

Apóia a libertação sexual feminina, o fim do tabu acerca da nudez, o aborto e claro, o poliamor. Ah sim, acha o máximo mulher que “dá” no primeiro encontro e que ganha mais que ele. Até arrisca a piadoca marota do: “é bom que aí ela pode me sustentar, rsrsrs”.

Mas não se engane pois cedo ou tarde ele vai te explicar coisas que você já sabe, ignorar tuas ideias quando na frente de vários homens pensantes e descontruídões como ele, lembrar que existem exceções e que “mulher também”, citando prontamente casos isolados quando uma mulher reclamar de alguma dificuldade institucionalizada, sem se importar em tirar o foco da pauta (não chame de protagonismo pois ele odeeeia esse termo!) e obviamente ele vai dizer aos quatro ventos qual feminismo presta e qual “já é exagero”.

O pior é que esse tipo de cara ganha elogios o tempo todo, tem várias meninas aos pés (e usa isso da melhor forma possível.. pra ele mesmo). Usa o amor livre como desculpa para ignorar ou tratar com indiferença uma mina com a qual ele teve algum tipo de relação íntima e se você procurar bem até está em algum grupo de “caiu na net” do qual ele não sai por alguma desculpinha bem bosta.

Apenas tenha cuidado pois quando ele for abusivo ou machista contigo, ninguém vai acreditar afinal: ele é incrível!

Eu no Tinder

:: Você levará 3 minutos para saber como essa experiência terminou::

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Rompi um noivado ano passado. Rompi um noivado cerca de 15 dias antes do casamento. Rompi um noivado e foi a melhor coisa que eu fiz da vida. Não foi fácil. Rompi um noivado e isso implica em estar solteira desde então. SOLTEIRA. Rompi um noivado e tive que ouvir: “Por quê ele te deixou?”. Rompi um noivado e tenho que lidar com a sociedade me dizendo que sou um  fracasso, pois não tenho um par, principalmente por já ser quase uma balzaquiana. 

 

Solteira. Isso ecoa como um mantra. Confesso que a mim esse status não é comum. Sou uma pessoa de relacionamentos duradouros. Não me lembro das vezes em que fiquei sozinha por muito tempo e, talvez por isso, eu esteja tão incomodada. Se me toca, me entrego. Não existe regra, pode levar um ano ou trinta minutos de conversa. É raro, mas acontece.

 

Eis que, logo eu que sempre tive o maior preconceito com esses aplicativos, estava lá selecionando fotos e quebrando a cabeça na “descrição”.  Afinal, como uma pessoa que não bebe, não gosta de sair e vive para o trabalho, vai tropeçar com o amor-da-vida (até que acabe)?

 

App instalado. Durou 3 dias, me senti ridícula, deletei. Voltei. Deletei. Voltei. Segui por mais uns 15 dias. Aquele processo de escolher o livro pela capa, deslizando o dedinho, muito para a esquerda e pouco para a direita.

 

Meu saldo:

 

– Vários match e nenhuma disposição em iniciar a conversa.

Confesso, tenho preguiça.

 

– Várias conversas que não passaram do “oi, tudo bem?”.

Desculpa, mas eu não tenho a mínima disposição para chat uol.

 

– Tantas outras conversas que se esvaíram em um dia.

Como é que se mantém elas?

 

– Um rapaz louco que não conseguia compreender um “Não estou afim”

Ao final, apenas um bloqueio para solucionar a insistência.

 

– Uma mensagem que no lugar do “oi” veio com “sexo hoje?!”.

Minha resposta: “sim, desde que não seja com você”. Não sei lidar, sorry! Ainda que várias pessoas tenham me dito que o Tinder era um app para sexo casual, queria provar o contrário.

 

– Sai com uma menina no dia do seu aniversário.

Ela era nova na cidade e achei que poderia ser interessante. Nada encantador e que morreu em dias de não conversas.

 

– Sai com um rapaz que eu já conhecia.

O encontro não foi nada além de uma conversa exaustiva, afinal, eu falo-pra-caralho e não senti aquele “toque”. Acho que ele já não aguentava aquele blá blá blá todo e fui embora, como sempre, me desculpando pela fala em excesso.

 

– Tive uma conversa empolgante sobre dicas literárias com um historiador bonitinho.

Não passou de um encontro fantástico e algumas mensagens durante a semana. Ele era daquelas pessoas que você quer por perto, sabe como? Que te inspiram.

 

– Várias meninas procurando outras meninas para “ménage”.

Isso é um porre.

 

– Várias mensagens do tipo “como suas tatuagens são legais, quantas são?”

 zzZZzzZZZZzz

 

– Encontrar  ex-namorada no app.

Medo.

 

– Perceber que “porra-eu-to-velha”

18 -20 anos dominam no jogo.

 

– Oi, você lembra de mim? Já tomamos um café há uns 6 anos atrás.

Surpresas da vida.

 

– Encontrei uma menina do app na fila do banheiro de uma cafeteria que me abordou dizendo “- oi, você não é a menina dos 4 instagram?”.

Óbvio que eu não lembrava da menina e, óbvio, que a pergunta me fez questionar o porquê eu ter 4 contas de IG.

 

– Percebi que as mulheres dão um show no app (e na vida). 
Era engraçado, porque eu deixava habilitada a função “homens e mulheres” e em 5 min eu já tirava os caras da seleção.

 

 

Enfim, app deletado e vida que segue.

 

Relacionamentos são investimento. De tempo, principalmente. O Bauman já explicou tudo, mas a gente sempre quer testar, comprovar se é assim mesmo. E, vamos dizer, o processo de inserir uma nova pessoa na nossa vida dá um puta trabalho. Eu não tenho e nunca tive disposição em impressionar, em conquistar. Não sei flertar, não sei. Gosto quando tudo, simplesmente, acontece. Então: serendipity.

 

No lugar no Tinder, cheio de foto de gente bonita e discursos ensaiados, me entreguei, mais uma vez, aos meus livros. Resgatei projetos da gaveta, voltei a estudar e sigo em paz. No lugar da conchinha na hora de ir para cama, optei pelos meus cachorros dormindo comigo, ignorando todos os pelos e falta de conforto ao dormir.

 

A verdade é que nesse meio tempo, conheci algumas pessoas incríveis. Pessoas pelas quais eu me apaixonaria, ou me apaixonei e ignorei, preferindo estar SOLTEIRA. Prefiro o Tinder real, do encontro e sem as “entrevistas-ensaiadas”.

 

Parei de procurar o amor, ele que me encontre.

Feminismo e empoderamento

Hoje em dia é comum ver feministas falarem de empoderamento no sentindo estético: “se empoderar é usar uma roupa e se sentir bela”, “passo uma maquiagem e saio me sentindo o máximo na rua”, “vou colocar prótese nos seios mas é para mim mesma, não para a sociedade: quero me sentir bonita e empoderada” e por aí vai e isso me entristece muito.

Entristece pois condiciona a felicidade e o empoderamento à aparência, entristece pois tem meninas que não tem dinheiro ou tempo para se emperequitarem, entristece pois o papel da maquiagem, do salto e das plásticas na alienação feminina passam a serem proibidos de se questionar, entristece pois o individualismo passa a ser mais importante do que o coletivo.

Muitas vezes esquecemos de pensar que para que um tipo de beleza se torne padrão é necessário que outro tipo seja considerado como feio, como incorreto: não há como padronizar gordas como belas sem que as magras passem a ser vistas como indesejáveis: se todos os tipos físicos forem aceitos, a necessidade de adquirir artifícios para se adequar passa a ser nula e a indústria da beleza passa a não ter por que existir.

Já pensaram que se você condiciona a tua felicidade e satisfação a estar se sentindo bonita toda vez que você estiver por algum motivo “feia” (aquele inchaço da TPM, as espinhas depois de comer algo fora, aqueles quilos a mais depois da semana Natal/Ano Novo, quando a base acaba e você tá sem grana, quando o cabelo não tá num bom dia, quando não deu tempo de passar na manicure, e a lista aqui pode ser infinita) não importa quem você seja, tua trajetória, o quão querida, inteligente, competente ou generosa você é pois você estará se sentindo um lixo? Você vai evitar sair de casa esses dias, evitar conhecer pessoas novas e no fundo no fundo, você inclusive acha que não merece ser feliz como punição por ser esse monstro horrível.

Sempre que há um papo sobre “se amar como você é”, ele gira em torno de maneiras de se vestir, maquiar ou portar para “evidenciar suas qualidades e esconder os defeitos. E aquela menina que realmente é fora de um padrão e que não há maquiagem que a torne bonita, como fica no teu conceito de empoderamento? Sei que vão perguntar: “ui, credo, agora não posso nem me maquiar nem me sentir bonita?”. Pode, claro que pode. Ninguém aqui é criança que precisa bater o pé simplesmente porque foi questionada.

Também sempre me questionam, já que é muito difícil sair da caixinha do pensamento comum: “ué, e o que seria empoderamento pra você?”. Bem, pra mim uma mulher empoderada é aquela que sempre busca conhecimento sobre o que defende: aquela que procura livros sobre o assunto, que respeita o que a coleguinha que pensa diferente diz, que abre a mente e não fica nos clichês dos textos e frases prontas de militância frívola de redes sociais. Empoderada é a mulher que depois de muito tempo de desconstrução sabe que não é menos porque não passou um rímel (ou porque passou), é a mulher que sabe reconhecer um relacionamento abusivo e que se oferece para ajudar aquela amiga que está numa situação difícil. Empoderada é a mulher que sabe responder quando um cara fala bosta para ela ou pra outra mulher, empoderada é a mulher que não fica presa numa argumentação pobre e que não tem medo de discordar de pontos de vistas de suas “musas” militantes.

Antes que venham com o clichê do elitismo: há muito material tão acessível e fácil de ler quanto um textão de facebook por aí. Peça indicações de livros e textos pra mulherada que tá na luta faz tempo. Você mesma agradece.

Antes do meu filho, eu era a mãe perfeita

Às vezes eu paro para pensar: como é difícil ser a mãe que eu era antes de ter filho. Para começar, meu filho não ia precisar de chupeta. O ambiente em casa é tranquilo, logo ele seria um bebê tranquilo, mas não contava com a cólica. Quando ele chorou a primeira vez desesperado de dor, não tive dúvidas, ainda na maternidade pedi para que meu marido passasse numa farmácia e comprasse uma chupeta. Foram três modelos diferentes, até achar a que ele gostou. Uffa! Hoje ele está com 2 anos e 1 mês, continua com a chupeta (me condenem) e tenho planos de tirar depois do desfralde (siiim, ele ainda usa fraldas).

O segundo baque foi quando percebi que não tinha toda paciência do mundo para a exausta rotina de uma mãe-bebê recém-nascidos.  Gente, é surreal a carga de emoções e obrigações que surgem ao mesmo tempo. Me senti a pior mãe do mundo quando, depois de amamentar, fazer arrotar, trocar fralda, colocar para dormir, lavar louça, varrer o chão, passar pano, lavar roupa, entre outros afazeres da casa, eu sentava para comer, ver meu celular ou qualquer outra coisa e ele acordava. Sentia um gelo na barriga do tipo, não pode ser, não acredito que já acordou e eu nem fiz xixi, não tirei o pijama e do trajeto de onde eu estava até ele eu ia pensando “que saco, poxa só queria um minuto em paz”. Mas aí, era só chegar e ver aqueles olhinhos implorando um colinho, um chamego e ao mesmo que tudo passava, a culpa invadia a alma. Como é que pude pensar isso de um bebê? Isso acontece até hoje por inúmeros motivos.

Eu sempre gostei de cozinhar, nada gourmet, coisa simples mesmo. Mas isso, até a introdução alimentar. Como é difícil dar papinhas variadas (porque não pode repetir os legumes). Perdi o gosto pela cozinha em dois meses, haha. Me esforço ao máximo, mesmo, para que o Vitor tenha a melhor alimentação possível, mas tem dias que chega da escola e come pão, que ele adora, que o lanche da tarde é um bolo de chocolate, que ele não tá afim de comer e o almoço é um mamá. E mais uma vez, a danada da culpa invade a alma.

Mas aí a campeã de todas é a TV. Imagina que antes de engravidar meu filho iria assistir televisão antes dos dois anos. Nossa, eu pesquisava brincadeiras e atividades para passar o tempo com ele. Podem dar gargalhada. Com seis meses, quando voltei a trabalhar, e precisava trabalhar um tempo em casa, ele assistia TV porque eu precisava que ele se distraísse. E assim estamos até hoje. Ele assiste quando pede, assiste quando preciso fazer algo, assiste quando estou cansada, assiste porque assiste e pronto. E não, não sou a pior mãe do mundo por causa disso, apesar de me sentir assim às vezes.

Poderia passar horas escrevendo sobre coisas que jamais faria antes de ter filhos, mas com o tempo e conversando com outras mães, a gente começa a lembrar que é humana. Precisamos nos permitir mais, acreditar mais nas nossas escolhas e decisões como mães e mulheres. É insano querer acompanhar tudo que chega para a gente referente a maternidade.  Cada uma tem o seu jeito, sua rotina, suas crenças e hábitos. Você, e SÓ você, sabe o que é melhor para você e seu filho, e isso é o que basta.

Ainda tenho muito a melhorar, mas hoje já me permito deixar a casa bagunçada e ir brincar com ele, deixá-lo em alguma vovó e sair com o pai, deitar no tapete da sala e ver desenho junto (isso dura uns 3 minutos haha) sem me culpar pelo o que eu deveria estar fazendo ou não.

Na foto estou feliz da vida vendo o Vitor comer seu primeiro brigadeiro. Ele estava com 1 ano e 9 meses, mas e daí? Olha a carinha de delícia dele!

Foto: Marina Ferraresi Freiberger

Gato escaldado tem medo de água fria

Terça-feira, 18h20. Enquanto eu esperava minha irmã em frente ao estacionamento onde deixo o carro, um Fox prata foi se aproximando de onde eu estava e diminuindo a velocidade. Parou com o vidro do passageiro aberto e falou algo para mim. Nesse momento eu já tinha virado meu rosto para o lado oposto ao do carro, olhando só de “rabo de olho”*.

Assim que ele falou comigo, foi parando o carro a poucos metros de onde eu estava e, curiosa, olhei. Nisso vi que ele estava com o celular em um suporte desses usados para facilitar a visualização do aparelho. E nesse momento tudo ficou claro: o homem dentro do Fox era um motorista de Uber/Cabify checando se eu era a passageira dele. Por um pequeno momento me senti culpada, afinal, o moço estava apenas procurando a pessoa que fez o pedido. Mas nós mulheres temos que suportar tanta coisa na rua vinda de homens machistas que é totalmente compreensível desenvolvermos estratégias para evitar ao máximo que sejamos abordadas com cantadas, na “melhor” das hipóteses, e desconfiarmos de tudo e de todos.

E isso só confirma o que tem se falado nos últimos tempos: é complicado demais ser mulher em um mundo machista. Somos impedidas de viver sem preocupações, porque nunca se sabe se durante nosso trajeto vamos ouvir cantadas vindas de alguém passando de carro na rua ou se o cara que está andando atrás de nós é um estuprador ou apenas alguém indo para o mesmo lado que nós.

Na dúvida, melhor colocar todos no mesmo balaio: só quem já perdeu o número de quantos assédios já sofreu na vida sabe como é difícil tentar dar votos de confiança a um desconhecido.

 



*Se tem algo que fui obrigada a praticar, isso foi prever o que pode vir a seguir nessas situações, e desviar meu olhar pra outro lugar é uma das coisas que faço quando suspeito que alguém dentro de um carro ou na rua vai me assediar verbalmente. Não que surta muito resultado, mas é uma forma de me sentir menos “invadida”.