Você assiste pornografia?

Provavelmente sim, não é mesmo? Confesso que já assisti, mas a maioria acaba me deixando muito desconfortável, e não me sinto estimulada com eles de forma alguma. Por isso, fiquei curiosa quando li sobre Hot Girls Wanted, um documentário do Netflix que mostra o cotidiano das mulheres de 18 a 21 anos que decidem entrar para a indústria da pornografia amadora e são contratadas por um agente em Miami.

O perfil das meninas é muito parecido: saíram do colégio, não podem ou não querem fazer universidade e desejam um trabalho que lhes dê liberdade, dinheiro e oportunidades de viajar e conhecer pessoas e lugares novos. Além de tudo, com sexo. Parece um bom negócio, não é mesmo? A maioria também sonha em se tornar tão famosa e rica quanto a Sasha Grey. E no começo, realmente parece um lugar amigável, onde elas são tratadas com respeito pelos atores e agenciadores enquanto fazem um trabalho que paga muito bem. Até desconfiei quando o agenciador falou que elas ficam apenas 3 ou 4 meses e depois desistem de serem estrelas pornô.

hot_girls_wanted_f1-2

Com o passar do tempo, no entanto, a verdadeira realidade dessas moças começa a aparecer. A primeira cena que realmente me chocou foi quando Ava Taylor – uma das mais sensatas durante o filme, ao meu ver – foi gravar com um homem muito mais velho. Antes de começarem, as orientações do diretor deixavam claro o que é a cultura do estupro: “você não diz sim, mas ele te toca mesmo assim, e você não pode estar totalmente envolvida em nenhum momento”, ele orienta, mostrando que o sexo encenado precisa parecer não-consensual. Ou seja, estupro. O enredo do filme, inclusive, era sobre uma garota transando pela primeira vez.

Logo após a cena, a atriz explica que todas as filmagens são assim: uma menina inocente e burra que encontra com um cara aleatório com quem ela jamais transaria na vida real, e sempre focado no prazer do homem. A mulher, nos filmes, é apenas um objeto para que o homem atinja seu objetivo. Ali, não é uma mulher, mas um conjunto de peitos, bunda e buceta. Aliás, o termo mais buscado nos sites de pornografia é “teen”.

Em outro momento, ainda mais chocante, eles explicam o termo “facial abuse”, que basicamente significa sexo oral forçado, muitas vezes tão violento que chega a fazer a mulher vomitar. A última parte, inclusive, é mostrado nos vídeos como uma forma de fetiche. As atrizes se sentem absolutamente humilhadas, mas ficam com medo de não aceitar e deixarem de conseguir trabalho. E, ao mesmo tempo, adolescentes crescem vendo esses vídeos e associam o estupro, a dor e o sofrimento da mulher ao prazer masculino.

Ao final, a maioria desiste, uma decide trabalhar apenas na webcam por conta própria e duas continuaram no ramo. O documentário é brilhante em humanizar essas mulheres e mostrar o abuso delas na indústria que lucra imensamente. Só os agenciadores, por exemplo, ganham 10% de tudo que elas fazem. E, longe de mim ser conservadora, mas a sexualidade tem que ser exercida sempre de forma saudável e consensual, o que com certeza não acontece em grande parte dos vídeos pornográficos disponíveis por aí. Hot Girls Wanted tem no Netflix e sugiro muito que todos, em especial os que assistem pornografia, assistam. É um tapa na cara.

7 thoughts on “Você assiste pornografia?

  1. “Sempre focado no prazer do homem”, mas claro, é um produto voltado para o público masculino, é como reclamar que essas revistas teens tipo Capricho só mostra coisa fru fru de menininha. O lance da menina “burra” é científico, já foi provado que elas são mais atraentes aos olhos dos homens. O lance de dominação é um fetiche, assim como existem mulheres q gostam de dominar, reclamar assim fica parecendo aquelas mães que ficam achando que seus filhos vão tacar fogo na cidade pq jogam GTA. Em todo ramo existe situação de abuso, de um escritório na Vila Madalena até à Nasa, mas em algo tão íntimo como sexo, a intensidade de tudo isso é multiplicada. Mas foi uma situação que a própria pessoa se colocou. Foi obrigada financeiramente? É realmente lamentável que alguém tenha que se obrigar, para consertar sua vida financeira, seja se entregando à prostituição, aos crimes, ou ao cheque especial. A demanda dos filmes pornográficos vai mudar tanto quanto a demanda de revistas e sites sobre mulheres que emagreceram com sucos milagrosos ou sobre a última futilidade que algum famoso fez, ou um ensaio sobre a “beleza real”, com mulheres acima do peso e sem retoque digital. Assim como a demanda por carros roubados também não vai mudar. Mas será que se todas as pessoas tivessem uma renda digna a indústria porno iria acabar por falta de atrizes? Vendo tudo que já vimos sobre a cobiça humana acho que sabemos a resposta.
    Abraço

    1. Vamos por parte, “Bom senso” (pode se identificar, viu, a gente não morde).
      1. Pornografia é feita para homens sim, nisso você tem razão. Mas já parou para pensar por que ela não é feita para mulheres consumirem também? Mulheres gostam de putaria tanto quanto homem, não sejam ingênuos em achar que a nossa sexualidade não existe. Infelizmente é feita para os homens, mas não deveria.
      2. Dominação é uma coisa diferente de violência. A falta de consentimento que eu apontei no texto, por exemplo, é a encenação de uma violência, não de um fetiche. Fetiche é ok, violência não.
      3. A indústria pornográfica não se alimenta só de pobres coitadas e coitados que não teriam outra opção de trabalho além dessa, disso eu sei bem, mas a questão é que, assim como em toda profissão, não deveria existir abuso de autoridade.
      Bom, o final do texto eu não vou responder porque o seu raciocínio ficou pouco claro no texto. Obrigada pelo comentário!

    2. Argumentos absolutamente ignorantes e sem nenhum embasamento ou conhecimento de causa + muito macho pra falar bosta sobre o texto, mas nem tão ~macho~ assim pra se identificar.
      Amigo, você resume boa parte dos problemas atuais da sociedade.

  2. Mia, assisti ontem esse documentário chocada. Tenho pensado muito na qualidade da audiência na internet e no que tem feito sucesso, no que rende likes e é mais acessado. E me horrorizo cada dia mais, pra dizer pouco. Gostei muito dos dados que o documentário traz, como o fato ultrajante de 40% do que é visto em pornografia estar relacionado a violência. Contra fatos não há argumentos.
    Adorei o blog, sucesso meninas!!! Bjos

  3. Desde meus 14 anos que fiquei desconfiado que algo não estava certo na pornografia. Por que são tantos homens para uma ou duas mulheres? Por que sempre tão estereotipadas (magras, brancas, jovens, com cara infantilizada e corpo fora do comum, onde até a vagina parece de brinquedo)? Por que sempre tratadas como lixo/boneca inflável?

    Ainda não vi esse documentário, mas já li alguns textos para sanar minhas dúvidas e sempre me deparo com dados assustadores. Desde a recorrência de pedofilia usando meninas de 14 a 17 “legalmente”, até o histórico de abuso sexual na infância sofrido por 2/3 das atrizes em atividade, o tempo de trabalho reduzido a 5 anos, cirurgias bizarras para ficar mais “adequada”, vício em drogas, o destino a prostituição e tantas questões tão pesadas que deprimem qualquer ser humano com o mínimo de empatia.

    Acho que o problema não mora na pornografia em si, mas na forma desumana e machista como a indústria pornográfica funciona.

    Instruir e denunciar os absurdos ocorridos nesse meio é algo tão básico e necessário, que me assusto ao ver alguém atacando tal texto e ainda se autodenominando “bom senso”.

    1. Exatamente, Tadeo! Não acho que a pornografia tenha que acabar – até porque sexualidade não deve ser um tabu e tudo o mais, mas a forma como a indústria funciona é muito, muito errada, e acho que a conscientização do público é muito importante nesse processo de mudança. Obrigada pelo comentário 🙂

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *