Repita comigo: não

Não tem muito tempo eu havia saído com uma amiga dessas que a gente sabe que é irmã de mãe diferente, sabe? Não que a pista de dança não estivesse excelente, mas o calor nos fez sair um pouco para “respirar” no fumódromo – que na verdade é um quintal.

Esse jardim dos fundos é um labirinto de pessoas muito diferentes e em cada canto eu conseguia ver uma história pronta para se tornar algum texto meu.

O problema é que nem sempre a gente escolhe sobre o que vai escrever. Às vezes é um assunto difícil demais, que a gente guarda lá nos confins do peito, à sete chaves, três cadeados e um leitor biométrico – que é pra ninguém saber o quanto isso (ainda) te assombra. E lógico, que naquela noite gostosa de verão, era bem nesse cantinho doloroso da memória que alguém ia mexer.

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A minha amiga acendeu o cigarro habitual dela, quando apareceu uma outra menina pedindo o isqueiro emprestado. Entreguei o meu e ela tentava nervosamente acender o cigarro. Os dedos compridos e magros dela tremiam de um jeito que me deu agonia. Segurei a mão dela, puxei o isqueiro, acendi, com calma, o cigarro e perguntei:

– Quer me contar o que houve?

Não sei dizer se fazia muito tempo que ninguém perguntava isso a ela, mas a moça encheu os olhos de lágrimas, me abraçou em um ato de gratidão e me contou, entre soluços, que o namorado dela havia se tornado um monstro – e não do tipo Franz Kafka, que um dia simplesmente acorda diferente, mas do tipo sociopata, que a tratava de um jeito que nem o pior inimigo dela merecia. E eu concordo, ninguém merece ser tratado de tal forma. Eu relutei muito, mas me senti na obrigação de contar algo que com toda a certeza do mundo ela não queria escutar – mas precisava.

Eu tentei explicar que, por mais problemático que o rapaz pudesse ser, era ela quem deixava que ele a tratasse desse jeito cruel – foi ela quem deixou o “monstro” tomar conta da vida dela. A moça não gostou nada de ouvir isso, mas acontece que eu já senti na pele o que ela estava sentindo. De alguma forma, aquela menina era um espelho em que eu via o meu próprio reflexo.

A gente não gosta de falar sobre isso porque, de certa forma, nos deixa expostos. Por outro lado, acredito que a gente sempre precise tentar tirar o melhor, mesmo das piores situações. Então, como um painel eletrônico com fios exposto, prestes a entrar em curto-circuito, eu abro o cantinho do peito em que escondi, por trás de um sorriso, que: eu já tive relacionamentos abusivos.

Sim, no plural. Vamos esclarecer uma coisa, porque eu sei bem que a palavra “abuso” pesa uma tonelada em ouvidos alheios. Parte disso porque sempre que ouvimos falar nessa palavra terrível na mídia, é referente à abuso sexual. E não foi o meu caso, justamente porque abuso não tem sempre essa conotação. O abuso pode ser também psicológico – e em proporções muito diferentes, também tiram muito da gente, nos deixam traumas que carregamos por muito tempo.

Se nesse ponto você está sentindo que esse texto é também sobre você, respire um pouco, eu sei que não é fácil lembrar. E saiba que a culpa é nossa sim, mas não é tão simples quanto os outros dizem ser. A pessoa abusiva não se mostra assim de início e quando você percebe, já está envolvido demais e sair disso é equivalente a tentar achar o caminho em uma serra coberta por neblina.

Não vou entrar em tantos detalhes, mas olhando para a minha própria história (coisa que normalmente escritores fazem com o nariz torcido), eu deixei que me tirassem o que talvez seja mais valioso que barras de ouro que valem mais que dinheiro: a minha autoestima. Deixei que dissessem que eu era estranha e que desse jeito nunca ninguém ia gostar de mim. Deixei que passassem por cima do meu orgulho e me afirmassem que eu não era mulher o suficiente porque sou um tanto nerd e outro tanto “diferente”. Eu, fui eu quem deixou isso acontecer.

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Foram dez anos da minha vida, que tem pouco mais do que o dobro disso. Foi uma década inteira de incontáveis abusos psicológicos que eu me deixei aguentar. Quando a moça disse que nem o pior inimigo merece passar por isso, ela estava coberta de razão. E muito pior que qualquer vilão cinematográfico: é a gente que deixa que nos tratem assim.

Como eu disse antes, é preciso se afastar um pouco desse maremoto de dramas e enxergar o melhor que isso me trouxe, que foi, antes de tudo, aprender a me amar exatamente como eu sou – processo pelo qual ainda estou passando.

Outra coisa boa que consigo tirar disso é poder contar para quem se encontra em um relacionamento abusivo que a culpa é nossa, sim, mas a escolha de virar as costas e ir embora, também. Então seja forte, mande um “foda-se” bem mandado para a pessoa abusiva da sua vida e não perca mais o seu tempo, porque olhando para trás, sinto falta do que eu não fiz e não de quem não “me deixou” fazer.

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Essa bagagem é frágil e destrutiva ao mesmo tempo. E a qualquer buraco ou declive na trajetória, essa mala pode se abrir e aí é uma chuva de traumas que nunca deixaram de te assombrar. Mas saiba que nem todo mundo é assim e, quem sabe, um dia você não encontre alguém que além de te amar por esse jeito que é só seu, até ajude a carregar as malas.

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Mais amor, menos posse

Participo de vários grupos do Facebook, alguns deles voltados ao mundo feminino. São lugares para a mulher se sentir livre para desabafar sem medo. Em um passeio por um deles, me deparei com um post de uma garota dizendo que quando ela começou a namorar, simplesmente pediu a senha do Facebook do cara e deletou TO-DAS as mulheres. Um tempo depois, arrependida mas não satisfeita, ela decidiu readicionar algumas. Ou seja, ela simplesmente toma conta do perfil do namorado e faz o que bem entender.

Vamos brincar de jogo dos sete erros?

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1 – Senha compartilhada

Amigas, essa história de que “nós somos um só” se aplica em muita coisa dentro de um relacionamento, mas nunca deve interferir na privacidade de uma pessoa. Ter uma vida conjunta não significa que você deve perder a sua individualidade, ok? Ter a senha do seu namorado ou namorada não é nada saudável.

2 – Falta de confiança

Para mim, a confiança deve estar presente em um relacionamento tanto quanto o amor. Afinal, por que perder tempo com uma pessoa se você não confia nela? Seu sonho é descobrir alguma coisa e fazer um barraco digno de novela? Acredito que não.

3 – Falta de respeito

Sim! Acessar a rede social de outra pessoa, mesmo que com a permissão dela, é falta de respeito. Aquele lugar é dela! Ou quando algum amigo te convida para ir na casa dele você fica abrindo as gavetas?

4 – Possessão

Namorar não significa se apoderar de uma pessoa. Ela não é sua e você não pode tentar mudá-la e achar que ela só deve agir do jeito que você bem entender. Se algo te incomoda, chega e fala. Diálogo é tudo.

5 – Quem procura, acha

Esse ditado se encaixa perfeitamente no mundo das redes sociais. A sua namorada ou namorado tem amigos do mesmo sexo em que ele se sente atraído sim, isso não acontece com você também? Pois então. Você entra lá no perfil do seu parceiro e decide ler uma conversa. Pode não ter absolutamente nada de errado ali, mas você já faz isso com o intuito de descobrir alguma coisa, então você vai encontrar. Um “hahahaha” mais longo ou alguns emojis são o suficiente para você achar que está sendo traído. Mas pense, você não conversa com as pessoas da mesma forma? Vamos trabalhar essa empatia, ok?

6 – Cobrança

A gente não pode exigir do parceiro mais do que ele pode nos oferecer. Se ele te incomoda tanto, o amor pode estar acabando. Acontece, vida que segue. Essa garota da história tinha certeza absoluta de que o namorado dela tinha problemas porque ele não era ciumento e não ligava para o que acontecia no Facebook dela. Tenho certeza que as brigas dos dois envolviam o fato de ela querer que ele agisse da mesma forma que ela.

7 – Achar que é normal

Ok, sentir ciúmes é normal, mas de maneira “saudável”. Algumas pessoas até dizem que ciúme não deveria ser normal, pois é um sentimento de posse e sentir que somos donos do parceiro não é legal. Se você percebe que não consegue controlar essa possessão e que isso está te prejudicando de alguma forma, procure ajuda, não é feio.

Estou desconfiando, o que eu faço?

Bom, se você tem motivos concretos para achar que está sendo traído pelo parceiro, converse com ele. Entendo perfeitamente que vasculhar a conta alheia pode fazer você descobrir alguma coisa. Eu mesma fiz isso quando desconfiei de um ex e olha, achei muitas provas. Mas eu não precisava ter feito isso pois estava estampado na cara dele, eu só não queria admitir. Traições nunca são bem feitas e se elas realmente estiverem acontecendo, você vai saber.

Não desperdice um namoro bacana por insegurança. Seja por decepções no passado ou por falta de autoestima, esse problema precisa ser resolvido com você mesmo e não, não é fácil. É um processo longo e que exige ajuda de outras pessoas, principalmente do seu namorado. Como eu disse anteriormente, diálogo é tudo, não tenha medo de se abrir, pois se a pessoa te ama de verdade, ela vai estar do seu lado para te entender e te ajudar.

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The Fall, a série policial mais maravilhosa da Netflix

Confesso que não sou muito fã de séries policiais, mas decidi dar uma chance para The Fall depois de ler um texto do Lugar de Mulher falando sobre a protagonista maravilhosa da série e sobre as questões de gênero que são colocadas na trama. Basicamente, The Fall gira em torno de Stella Gibson (interpretada pela Gillian Anderson), uma oficial de polícia que é enviada à Belfast para investigar um assassinato e lá ela descobre que o crime foi cometido por um serial killer, que já havia feito outras vítimas.

Do outro lado, vemos o cotidiano do serial killer Paul Spector, interpretado pelo Jamie Dornan (gente, se quiserem ver o corpo desse homem vejam The Fall, não percam tempo com 50 tons de cinza!), um psicoterapeuta que é um pai e marido de família acima de qualquer suspeita. Porém, na ~~calada da noite, ele persegue e ataca mulheres com o mesmo perfil: brancas, de cabelo escuro, solteiras e bem sucedidas na profissão. A grande pira do Paul Spector é dominar mulheres independentes.

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Além da trama policial ser muito bem construída, o grande triunfo da série é a Stella Gibson, uma personagem tão foda que é impossível não se apaixonar por ela. Logo em um dos primeiros episódios ela se interessa por um homem e chega, sem rodeios, convidando-o para o quarto de hotel. Tem o fato de ela liderar uma operação inteira na polícia, dar um murro no cara que tenta agarrá-la a força e falar coisas assim:

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A Stella é uma personagem densa, bem construída e que, mesmo com algumas falhas, é incrível, corajosa e autêntica, e que é acompanhada de coadjuvantes igualmente fodas. O serial killer também é um antagonista muito bem desenvolvido na trama, com características de monstro que contrasta com o lado “pai perfeito” dele – afinal, é importante lembrar que boa parte dos psicopatas e homens que cometem crimes de gênero não são monstros o tempo todo – para quem vê de fora eles podem parecer pessoas boas.

A série só tem duas temporadas e cada uma tem só seis episódios. Os episódios têm cerca de uma hora, mas como são poucos você não precisa mais do que duas semanas para ficar em dia com The Fall 🙂 o ritmo da série é um pouco lento, então não espere a ação típica do gênero, e mesmo assim ela é extremamente envolvente por conta da complexidade dos personagens e dos diálogos interessantes. The Fall já foi renovada para a terceira temporada, mas ainda não há data confirmada para a estreia.

O body-shaming que ninguém pediu

Tem alguns anos eu estava em uma balada no coração da Trajano Reis – um bairro curitibano conhecido por sua característica boêmia. Uma pista de dança minúscula dessas que embaça os óculos em 15 minutos de dança.

Logo eu já estava no fumódromo para tomar um “ar” com um amigo e comentava que eu sentia saudades da minha época vegetariana. Um desconhecido muito rudemente se meteu na conversa, segurou o meu braço com as pontas dos dedos  com cara de nojo e disse:

– Nossa, mas tem certeza que era vegetariana? Não tá meio gordinha pra isso, não?

Eu não preciso dizer que ele acabou com a minha noite e – acho seguro afirmar que eu carrego comigo esse comentário até hoje. Um sinal disso foi que depois dessa noite, passei a usar cada vez menos blusas e vestidos de alça. Parece bobagem, não? Algo tão supérfluo que um estranho babaca me disse certa noite. Acontece que aquele cretino não sabe nada sobre a minha vida, ele não tem ideia do tamanho do problema que eu tenho com isso. Ele não sabe os distúrbios alimentares e complicações que comentários desse tipo podem provocar – em mim e em qualquer menina.

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Acontece que eu fui uma criança magrela, parecia uma personagem de algum mangá, pernas longas, um tronco pequeno e fina de estrutura física. Mas isso mudou um pouco de figura, e mesmo assim nunca tinha me considerado “gordinha”. No entanto, pessoas como esse cara do bar, que sempre deram um jeito de vir com comentários desse tipo, me fizeram acreditar que sim.

Outro dia eu estava com alguns amigos no mesmo bairro, mas era uma festa em plena luz do dia, do jeito que eu gosto. Passou uma moça por nós e ela era linda, de deixar meninas e meninos até meio sem fôlego. Um rapaz que estava próximo comentou:

– Nossa, ela até que é bonita pra uma gorda.

Esse tipo de colocação, assim sem ninguém ter pedido opinião, acontece o tempo todo. Na escola, entre os amigos e até mesmo em casa – em 2014 alguns psicólogos ingleses discutiram os limites dos caprichos estéticos , muitas vezes disfarçados de cuidados com a saúde dos filhos.

Semana passada vi, ao vivo, aquela cena do filme Pequena Miss Sunshine em que o pai implicante da garotinha a reprime na hora de tomar sorvete. A sequência de fatos foi quase a mesma, com a diferença de que o pai dizia que a menina jamais arrumaria um namorado se ficasse gorda.

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Como se já não bastasse toda a insegurança que temos naturalmente, ainda precisamos nos incomodar com uma coleção de opiniões que não foram solicitadas. Tem uma outra questão, muito pertinente que é o fato do termo “gordo (a)” ser constantemente utilizado com o objetivo de desvalorizar o outro. No sentido de que a palavra é apenas uma característica, como ser alto ou baixo. Mas as pessoas insistem ao ver isso com olhos de julgamento, como se fosse algo errado.

Normalmente esse bullying com pessoas acima do peso é feito por gente magra. Você é magro? Consegue comer um pacote de bolacha recheada inteiro e não engordar? Parabéns, faça uma placa e coloque no seu jardim.  Se você se sente bem com o seu corpo, de verdade, não existe a necessidade de fazer alguém se sentir menos bonito (a) pelo seu peso.

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Tatuagem e arrependimento

Há alguns meses me flagrei em um conflito existencial da era moderna. Tenho algumas tatuagens, oito, mais precisamente. Três delas são bem grandes e sempre gostei de todas, mesmo sabendo que umas não são de um estilo que ainda me agrada.

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Até aí, tudo bem, nunca me incomodaram. Até que um dia li uma notícia de que estavam desenvolvendo um creme removedor de tatuagem (!!!) que tira toda a tinta da pele em apenas algumas passadas, sem dor e sem gastar muito dinheiro. Fiquei encantada (mesmo sabendo que isso só chegaria ao mercado em um mundo paralelo, convenhamos) e pensei muito sobre a hipótese: “nossa, quero tirar essa, essa, essa e essa”.

Parei, refleti sobre o que eu tinha pensado e me perguntei: “Guria, como assim você queria tirar todas as suas tatuagens? Não é algo que você gosta muito?”. Em uma conversa de loucos comigo mesma, respondi: “Bom, não, não todas, só essa aqui grandona que me lembra tal coisa, essa aqui que me lembra outra, essa aqui que cobriu a tatuagem que eu fiz com um cara maneta (essa história merece um outro post) e que ela ainda aparece embaixo e que, claro, me lembra coisas ruins e… só”.

Esqueci essa “conversa” por um tempo. Lembrei do assunto algumas semanas depois e cheguei à conclusão de que não, eu não deveria remover nenhuma tatuagem. Primeiro, porque eu ainda gosto da arte da mesma forma que eu gostava quando fiz a primeira, com 17 (ou 18) anos, e ainda pretendo fazer mais.

Segundo, porque fazer uma tatuagem grande foi o maior ato de coragem que eu já tive, pois sempre fui muito medrosa. Não pensei muito e não analisei as consequências.

E por terceiro, mas não mais importante, uma tatuagem é o registro de um momento da sua vida. Funciona como se fosse uma memória olfativa, quando você sente o cheiro de algum perfume, por exemplo, e um filme passa pela sua cabeça. A diferença é que como ela está sempre lá, já faz parte do nosso corpo e a gente aprendeu a conviver com isso.

Elas também são como cicatrizes, uma lembrança de algo que te machucou, mas não te matou. Essas “agressões emocionais” foram superadas, são coisas ruins que, falando da maneira mais clichê possível, resultaram em uma lição de vida.

Agora, olho para a minha gigante tatuagem que me faz lembrar da pior época da minha vida e penso: superei, aprendi. Talvez eu não fosse quem eu sou hoje se isso não tivesse me acontecido. Essa marca vai ficar para sempre no meu braço não para me lembrar de coisas ruins, mas sim, que eu passei por cima disso tudo SAMBANDO. Afinal, a gente erra, sofre e aprende desde que nascemos, é um looping que segue até o fim da vida, não tem como evitar.

E você, tem problema com alguma tatuagem?

Obs. 1: nenhuma tatuagem envolve nomes e rostos de pessoas.

Obs. 2: o post é anulado automaticamente se o assunto é tatuagem mal feita.

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Geração Tinder

[ATENÇÃO: o texto a seguir é um conto. Portanto, não é uma história pessoal ou real.]

Logo depois do trabalho, ela decidiu deixar o namorado em casa e encontrar uma amiga de longa data. O namoro não estava lá aquelas coisas – ele deixava a toalha molhada na cama todo santo dia, a elogiava pouco e o sexo estava tão morno quanto o café velho da firma. Nada estava exatamente ruim, mas ela estava com saudades daquela montanha russa do começo do namoro. Frios na barriga, longas cartas e sexo escondido na escada do prédio. Decidiu, então, que valia mais a pena visitar a amiga com uma garrafa de vinho – já dizia a música do Interpol “friends don’t waste wine when there’s words to sell”.

Chegando lá, abriu a garrafa e se jogou no sofá com uma taça cheia. No fundo, invejava a vida agitada da amiga solteira, que levava em média um cara novo por semana para a cama e era figurinha carimbada nas baladas da cidade. “Hein, posso dar uma olhadinha no seu Tinder?”, perguntou, tímida. “Sabe como é, eu não posso baixar o aplicativo, mas tenho curiosidade de dar uma olhada”. Sem pensar duas vezes, a amiga entregou o celular.

Animada, começou a olhar as fotos dos rapazes. Um deles posava ao lado de um carro importado, outro tinha como foto de perfil uma selfie em Paris, rolando o dedo para o lado, percebeu que o cara também já tinha ido para Nova Iorque, Londres e Buenos Aires. Depois de apertar o X para um militar, um careca sem graça e um homem que teve a brilhante ideia de colocar como foto de perfil uma piadinha infame, ela chegou em um musculoso tatuado. Coração, claro. Também deu like no moço que gosta de ler e tomar cerveja, no hipster barbudo e em um homem com cara de executivo rico. A cada match ela fazia uma dancinha comemorativa pela amiga.

“Deve ser maravilhoso ser solteira com o Tinder. Olha quanto cara legal que você encontra em 15 minutos, sentada no sofá! E deu match com vários”, comentou. No fundo, usar o Tinder só deixou ela com vontade de largar o namorado, não por falta de amor, mas por tédio: sentia que, apenas com uma pessoa, ela não estava vivendo plenamente. O famoso fear of missing out. Pra que estar com só um homem se ela poderia viver com vários? E se o namorado de agora estiver impedindo-a de conhecer alguém melhor?

“Olha, não é bem assim…”, explicou a amiga. “Depois de um tempo cansa, sabe? Todos eles parecem perfeitos no aplicativo, mas a maioria mente, e os que não mentem já me trataram muito mal depois de uma noite de sexo. É igual Facebook: todo mundo parece ser uma versão melhor de si mesmo. No fim das contas, esses caras que parecem ser maravilhosos são os mesmos caras comuns que a gente encontra nos bares, por aí. Nada demais, sabe? São só pessoas, assim como eu, você e seu namorado”.

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Percebeu, então, o quão tola ela e tantas pessoas estavam sendo. Com o desejo de correr por aí, se envolvendo com várias pessoas, mas não permanecendo com nenhuma. Sem criar laços, sem assumir as responsabilidades de uma relação por medo do tédio ou de estar perdendo alguém melhor. A mesma geração que troca um celular que está funcionando só porque outro mais moderno foi lançado no mercado é a que não consegue sossegar com uma única pessoa por medo de estar perdendo outra melhor.

“Eu tenho um namorado perfeitamente ok, né?”, perguntou à amiga. “Mas é claro que tem! É o tempo… Com qualquer outra pessoa você ficaria entediada depois de tanto tempo juntos e não é trocando de namorado que você vai mudar isso, mas sim mudando de atitude. Vai lá, faz um programa diferente com ele, saiam da rotina, larguem mão de fazerem sempre tudo igual”.

E ela foi. Decidiu que não queria fazer parte da geração Tinder, mas sim do grupo de pessoas que ainda persistia em relações duradouras, que entende o valor dos laços afetivos. Deixou de invejar a grama dos vizinhos para cuidar da própria. E nunca foi tão feliz.

“Boys tears”: Conheça a marca Valfré

Viciei em conhecer coisas novas depois de passar bons anos sem ligar a televisão, assistindo sempre as mesmas séries, lendo sempre os mesmos portais de notícias e dormindo muito. Em uma dessas minhas buscas, há um pouco mais de um ano, eu estava navegando entre perfis do Instagram de alguma lojas gringas de roupas e maquiagens e, ao fuçar a conta da LimeCrime, me deparei com uma marca que conquistou o meu coração bem rápido: a Valfré.

Criada em 2012 pela mexicana e residente dos Estados Unidos Ilse Valfre, a marca de acessórios e roupas é “desenvolvida para o mundo feminino que captura a essência do que é ser uma garota”, segundo descrição no próprio site oficial.

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Ilse Valfré

As peças não são simplesmente femininas, mas sim com um conceito representativo e, olha, só sendo mulher para se identificar. Veja alguns exemplos usados nas roupas e capinhas para iPhone:

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A arte da Valfré pode ser encontrada em camisetas, jaquetas, bolsas e acessórios, e até como quadros de decoração. Infelizmente, a marca não pode ser encontrada no Brasil, mas enviei um email perguntando se eles entregam aqui e a resposta foi positiva!

Se quiser conhecer mais, pega aqui o InstagramFacebook, site oficial e blog!

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Arrogância e a (não) inteligência

Certo dia eu estava a caminho de um show com alguns amigos quando resolvemos parar na loja de conveniências de um posto de gasolina para comprar uma bebida. Dentro da loja havia uma daquelas prateleiras de metal com livros de bolso – sempre vale a pena dar uma olhada, já consegui minha cópia de As Virgens Suicidas e Ao Sul de Lugar Nenhum em uma dessas.

Comecei a rodar a prateleira e reconheci um best seller muito bom que havia lido há algum tempo. Nunca tive preconceito com gênero literário (um pouquinho com autoajuda, talvez), e comentei que gostava muito daquele livro. Foi o suficiente para ouvir “não gosto desse gênero, me sinto mais burra lendo isso” de uma menina – que não havia nem lido a porra do livro. Na hora fiquei um pouco sem graça, me sentindo boba por ainda me interessar por literatura infanto-juvenil, e mudei de assunto rapidamente para não parecer menos inteligente na frente dos meus amigos.

Mais tarde, em casa, me lembrei do ocorrido e me arrependi de não ter dito nada, de ter abaixado a cabeça como uma pessoa inferior por ter um gosto meio… Juvenil. E veja bem, uma coisa não exclui a outra, é possível passear por diferentes gêneros literários sem se tornar menos inteligente por isso. Do mesmo jeito que minha conta do Spotify comporta de Aretha Franklin a Taylor Swift. Foi aí que eu percebi que o problema não era comigo, mas com a pessoa que tentou me insultar de forma sutil pelo meu gosto. De que forma gostar de um livro me torna, automaticamente, mais burra?

“Será que a inteligência está inevitavelmente ligada à arrogância?”, pensei. Em boa parte dos casos, sim. Mas nem sempre. Lembrei-me de um amigo muito querido – ele já leu de tudo, tem um conhecimento absurdo sobre diversos assuntos, uma sensibilidade extraordinária para escrever e, mesmo assim, eu me sinto em casa conversando com ele. Não meço palavras, não tenho medo de dizer “não conheço” ou “nunca ouvi falar” porque, ao invés de ele me recriminar por isso, ele vai me explicar sobre o que se trata. E, sempre que nos encontramos, eu saio do bar mais inteligente do que entrei.

Ser legal com outros não tem nada a ver com a sua capacidade intelectual ou conhecimento de mundo. Aliás, a humildade em admitir que não sabe de tudo só te ajuda a aprender mais e mais. Evidentemente, a arrogância nada tem a ver com a inteligência de uma pessoa. Aprendam isso, por favor.

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Do amor

Religiosamente, todos os dias eles saiam passear com os dois cachorros. Sempre de moletom. Ela, muito branca com os cabelos muito escuros, guiando um dos cachorros pela coleira. Assim como ela, os cachorros também tinham o cabelo bem preto. Ao lado dela, um rapaz gordinho, de barba e cabelo ajeitado, guiava o outro cachorro. Fizesse sol ou chuva, o casal estava lá, cada um com um cachorro, passeando sempre nas mesmas ruas e nos mesmos horários.

De longe, eu admirava. Achava bonito a rotina, o casal, o casalzinho de animais. No fundo, gostava de enxergar meu futuro ali: eu, meu amor e nossos cachorros (ou gatos, já que a discussão entre os dois animais ainda não chegou ao fim), morando juntos e passeando por aí. Mesmo sem eles saberem da minha existência, vê-los quase todos os dias deixava o meu dia um pouco mais feliz, acreditando um pouco mais no amor. Casais felizes nos dão a esperança de que nós também podemos ter isso em nossas vidas.

Com o tempo, no entanto, fui vendo os dois cada vez menos. Até esqueci deles. E hoje, voltando do trabalho, olhei para baixo e reconheci o cachorro preto. Um único cachorro, guiado por um rapaz gordinho, de barba e cabelo ralo, necessitado de um corte de um penteado. Sozinho, com um semblante triste. Parecia uma versão completamente derrotada daquele mesmo homem feliz que passeava ao lado de uma mulher. Tentei me convencer de que ela poderia ter apesar viajado, mas por que o outro cachorro não estava passeando também?

Tem dias que é difícil não ter medo do fim. O amor, mesmo o mais bonito, pode acabar a qualquer momento.

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Certo tipo de garota

Em algum momento da minha vida escolar, eu devo ter perdido a aula no colégio em que se ensinou a ser uma “moça para casar”. Se você, assim como eu, já ouviu bem mais vezes de que se é possível contar nos dedos das mãos, que “isso não é coisa de uma menina de valor fazer”, sabe muito bem o que está embutido nesse pacote.

Por algum motivo, que não é muito claro para mim, meninas que falam palavrão feito um marinheiro; expõem suas opiniões político-sociais sem grandes filtros; se vestem como bem entendem (e, desculpa dizer assim, mas sem a menor intenção de agradar macho); são tatuadas; falam sobre sexualidade sem pudor ou  preocupações sobre o que alguém possa achar sobre isso; gostam de lego; de videogames; de rock (vertentes também); comidas da mais baixa gastronomia possível; filmes de terror; gostam de sair para dançar o máximo que der; ou até mesmo uma combinação de alguns desses fatores, não são consideradas meninas sérias, do tipo que namora, casa, tem filhos.

Mas quem foi que determinou isso? Em que momento ficou decidido que fazer uma dessas coisas (ou todas) torna alguém menos mulher? Não tem muito tempo, algum amigo disse que eu era um guri de saias. Olha, da última vez que conferi tudo ali embaixo, eu ainda era bem mulher, com ou sem saia, de calça, de terno, de vestido, de biquíni, com uma camiseta do Star Wars, do que for: continuo sendo menina. E gostaria de ser tratada como tal. Não sou sua “brother”, não sou menos mulher do que ninguém, sou eu, oras.

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Não é porque eu gosto de me acabar de dançar na balada todo final de semana, que eu não sou pra casar. Sou boa moça, sim. Nós todas somos, com ou sem palavrão, com um tempero a mais que, sem dúvidas, é encantador. Na hora de comer pizza, a gente não vai se preocupar com o “corpo de verão”, a gente vai se importar mais em ser feliz, naquele momento. Na hora em a nossa banda preferida estiver destruindo os palcos de algum festival, não vamos deixar de curtir ao máximo porque os nossos cabelos vão ficar bagunçados. E nem por isso somos pouco vaidosas. A diferença é que nos arrumamos para nós mesmas – fazemos tudo para sermos o mais felizes possível. O que tem de errado nisso?

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A pergunta que fica, na verdade, é que fórmula é essa que diz que uma menina é “para casar” ou não? Somos sim para casar, se for isso mesmo que a gente decidir. Também não tem nada que nos obrigue, porque se ainda não ficou bem claro, não fazemos nada para agradar a ninguém, sem antes agradarmos a nós mesmas.

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