Do amor

Religiosamente, todos os dias eles saiam passear com os dois cachorros. Sempre de moletom. Ela, muito branca com os cabelos muito escuros, guiando um dos cachorros pela coleira. Assim como ela, os cachorros também tinham o cabelo bem preto. Ao lado dela, um rapaz gordinho, de barba e cabelo ajeitado, guiava o outro cachorro. Fizesse sol ou chuva, o casal estava lá, cada um com um cachorro, passeando sempre nas mesmas ruas e nos mesmos horários.

De longe, eu admirava. Achava bonito a rotina, o casal, o casalzinho de animais. No fundo, gostava de enxergar meu futuro ali: eu, meu amor e nossos cachorros (ou gatos, já que a discussão entre os dois animais ainda não chegou ao fim), morando juntos e passeando por aí. Mesmo sem eles saberem da minha existência, vê-los quase todos os dias deixava o meu dia um pouco mais feliz, acreditando um pouco mais no amor. Casais felizes nos dão a esperança de que nós também podemos ter isso em nossas vidas.

Com o tempo, no entanto, fui vendo os dois cada vez menos. Até esqueci deles. E hoje, voltando do trabalho, olhei para baixo e reconheci o cachorro preto. Um único cachorro, guiado por um rapaz gordinho, de barba e cabelo ralo, necessitado de um corte de um penteado. Sozinho, com um semblante triste. Parecia uma versão completamente derrotada daquele mesmo homem feliz que passeava ao lado de uma mulher. Tentei me convencer de que ela poderia ter apesar viajado, mas por que o outro cachorro não estava passeando também?

Tem dias que é difícil não ter medo do fim. O amor, mesmo o mais bonito, pode acabar a qualquer momento.

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