Geração Tinder

[ATENÇÃO: o texto a seguir é um conto. Portanto, não é uma história pessoal ou real.]

Logo depois do trabalho, ela decidiu deixar o namorado em casa e encontrar uma amiga de longa data. O namoro não estava lá aquelas coisas – ele deixava a toalha molhada na cama todo santo dia, a elogiava pouco e o sexo estava tão morno quanto o café velho da firma. Nada estava exatamente ruim, mas ela estava com saudades daquela montanha russa do começo do namoro. Frios na barriga, longas cartas e sexo escondido na escada do prédio. Decidiu, então, que valia mais a pena visitar a amiga com uma garrafa de vinho – já dizia a música do Interpol “friends don’t waste wine when there’s words to sell”.

Chegando lá, abriu a garrafa e se jogou no sofá com uma taça cheia. No fundo, invejava a vida agitada da amiga solteira, que levava em média um cara novo por semana para a cama e era figurinha carimbada nas baladas da cidade. “Hein, posso dar uma olhadinha no seu Tinder?”, perguntou, tímida. “Sabe como é, eu não posso baixar o aplicativo, mas tenho curiosidade de dar uma olhada”. Sem pensar duas vezes, a amiga entregou o celular.

Animada, começou a olhar as fotos dos rapazes. Um deles posava ao lado de um carro importado, outro tinha como foto de perfil uma selfie em Paris, rolando o dedo para o lado, percebeu que o cara também já tinha ido para Nova Iorque, Londres e Buenos Aires. Depois de apertar o X para um militar, um careca sem graça e um homem que teve a brilhante ideia de colocar como foto de perfil uma piadinha infame, ela chegou em um musculoso tatuado. Coração, claro. Também deu like no moço que gosta de ler e tomar cerveja, no hipster barbudo e em um homem com cara de executivo rico. A cada match ela fazia uma dancinha comemorativa pela amiga.

“Deve ser maravilhoso ser solteira com o Tinder. Olha quanto cara legal que você encontra em 15 minutos, sentada no sofá! E deu match com vários”, comentou. No fundo, usar o Tinder só deixou ela com vontade de largar o namorado, não por falta de amor, mas por tédio: sentia que, apenas com uma pessoa, ela não estava vivendo plenamente. O famoso fear of missing out. Pra que estar com só um homem se ela poderia viver com vários? E se o namorado de agora estiver impedindo-a de conhecer alguém melhor?

“Olha, não é bem assim…”, explicou a amiga. “Depois de um tempo cansa, sabe? Todos eles parecem perfeitos no aplicativo, mas a maioria mente, e os que não mentem já me trataram muito mal depois de uma noite de sexo. É igual Facebook: todo mundo parece ser uma versão melhor de si mesmo. No fim das contas, esses caras que parecem ser maravilhosos são os mesmos caras comuns que a gente encontra nos bares, por aí. Nada demais, sabe? São só pessoas, assim como eu, você e seu namorado”.

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Percebeu, então, o quão tola ela e tantas pessoas estavam sendo. Com o desejo de correr por aí, se envolvendo com várias pessoas, mas não permanecendo com nenhuma. Sem criar laços, sem assumir as responsabilidades de uma relação por medo do tédio ou de estar perdendo alguém melhor. A mesma geração que troca um celular que está funcionando só porque outro mais moderno foi lançado no mercado é a que não consegue sossegar com uma única pessoa por medo de estar perdendo outra melhor.

“Eu tenho um namorado perfeitamente ok, né?”, perguntou à amiga. “Mas é claro que tem! É o tempo… Com qualquer outra pessoa você ficaria entediada depois de tanto tempo juntos e não é trocando de namorado que você vai mudar isso, mas sim mudando de atitude. Vai lá, faz um programa diferente com ele, saiam da rotina, larguem mão de fazerem sempre tudo igual”.

E ela foi. Decidiu que não queria fazer parte da geração Tinder, mas sim do grupo de pessoas que ainda persistia em relações duradouras, que entende o valor dos laços afetivos. Deixou de invejar a grama dos vizinhos para cuidar da própria. E nunca foi tão feliz.

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