O body-shaming que ninguém pediu

Tem alguns anos eu estava em uma balada no coração da Trajano Reis – um bairro curitibano conhecido por sua característica boêmia. Uma pista de dança minúscula dessas que embaça os óculos em 15 minutos de dança.

Logo eu já estava no fumódromo para tomar um “ar” com um amigo e comentava que eu sentia saudades da minha época vegetariana. Um desconhecido muito rudemente se meteu na conversa, segurou o meu braço com as pontas dos dedos  com cara de nojo e disse:

– Nossa, mas tem certeza que era vegetariana? Não tá meio gordinha pra isso, não?

Eu não preciso dizer que ele acabou com a minha noite e – acho seguro afirmar que eu carrego comigo esse comentário até hoje. Um sinal disso foi que depois dessa noite, passei a usar cada vez menos blusas e vestidos de alça. Parece bobagem, não? Algo tão supérfluo que um estranho babaca me disse certa noite. Acontece que aquele cretino não sabe nada sobre a minha vida, ele não tem ideia do tamanho do problema que eu tenho com isso. Ele não sabe os distúrbios alimentares e complicações que comentários desse tipo podem provocar – em mim e em qualquer menina.

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Acontece que eu fui uma criança magrela, parecia uma personagem de algum mangá, pernas longas, um tronco pequeno e fina de estrutura física. Mas isso mudou um pouco de figura, e mesmo assim nunca tinha me considerado “gordinha”. No entanto, pessoas como esse cara do bar, que sempre deram um jeito de vir com comentários desse tipo, me fizeram acreditar que sim.

Outro dia eu estava com alguns amigos no mesmo bairro, mas era uma festa em plena luz do dia, do jeito que eu gosto. Passou uma moça por nós e ela era linda, de deixar meninas e meninos até meio sem fôlego. Um rapaz que estava próximo comentou:

– Nossa, ela até que é bonita pra uma gorda.

Esse tipo de colocação, assim sem ninguém ter pedido opinião, acontece o tempo todo. Na escola, entre os amigos e até mesmo em casa – em 2014 alguns psicólogos ingleses discutiram os limites dos caprichos estéticos , muitas vezes disfarçados de cuidados com a saúde dos filhos.

Semana passada vi, ao vivo, aquela cena do filme Pequena Miss Sunshine em que o pai implicante da garotinha a reprime na hora de tomar sorvete. A sequência de fatos foi quase a mesma, com a diferença de que o pai dizia que a menina jamais arrumaria um namorado se ficasse gorda.

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Como se já não bastasse toda a insegurança que temos naturalmente, ainda precisamos nos incomodar com uma coleção de opiniões que não foram solicitadas. Tem uma outra questão, muito pertinente que é o fato do termo “gordo (a)” ser constantemente utilizado com o objetivo de desvalorizar o outro. No sentido de que a palavra é apenas uma característica, como ser alto ou baixo. Mas as pessoas insistem ao ver isso com olhos de julgamento, como se fosse algo errado.

Normalmente esse bullying com pessoas acima do peso é feito por gente magra. Você é magro? Consegue comer um pacote de bolacha recheada inteiro e não engordar? Parabéns, faça uma placa e coloque no seu jardim.  Se você se sente bem com o seu corpo, de verdade, não existe a necessidade de fazer alguém se sentir menos bonito (a) pelo seu peso.

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