Repita comigo: não

Não tem muito tempo eu havia saído com uma amiga dessas que a gente sabe que é irmã de mãe diferente, sabe? Não que a pista de dança não estivesse excelente, mas o calor nos fez sair um pouco para “respirar” no fumódromo – que na verdade é um quintal.

Esse jardim dos fundos é um labirinto de pessoas muito diferentes e em cada canto eu conseguia ver uma história pronta para se tornar algum texto meu.

O problema é que nem sempre a gente escolhe sobre o que vai escrever. Às vezes é um assunto difícil demais, que a gente guarda lá nos confins do peito, à sete chaves, três cadeados e um leitor biométrico – que é pra ninguém saber o quanto isso (ainda) te assombra. E lógico, que naquela noite gostosa de verão, era bem nesse cantinho doloroso da memória que alguém ia mexer.

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A minha amiga acendeu o cigarro habitual dela, quando apareceu uma outra menina pedindo o isqueiro emprestado. Entreguei o meu e ela tentava nervosamente acender o cigarro. Os dedos compridos e magros dela tremiam de um jeito que me deu agonia. Segurei a mão dela, puxei o isqueiro, acendi, com calma, o cigarro e perguntei:

– Quer me contar o que houve?

Não sei dizer se fazia muito tempo que ninguém perguntava isso a ela, mas a moça encheu os olhos de lágrimas, me abraçou em um ato de gratidão e me contou, entre soluços, que o namorado dela havia se tornado um monstro – e não do tipo Franz Kafka, que um dia simplesmente acorda diferente, mas do tipo sociopata, que a tratava de um jeito que nem o pior inimigo dela merecia. E eu concordo, ninguém merece ser tratado de tal forma. Eu relutei muito, mas me senti na obrigação de contar algo que com toda a certeza do mundo ela não queria escutar – mas precisava.

Eu tentei explicar que, por mais problemático que o rapaz pudesse ser, era ela quem deixava que ele a tratasse desse jeito cruel – foi ela quem deixou o “monstro” tomar conta da vida dela. A moça não gostou nada de ouvir isso, mas acontece que eu já senti na pele o que ela estava sentindo. De alguma forma, aquela menina era um espelho em que eu via o meu próprio reflexo.

A gente não gosta de falar sobre isso porque, de certa forma, nos deixa expostos. Por outro lado, acredito que a gente sempre precise tentar tirar o melhor, mesmo das piores situações. Então, como um painel eletrônico com fios exposto, prestes a entrar em curto-circuito, eu abro o cantinho do peito em que escondi, por trás de um sorriso, que: eu já tive relacionamentos abusivos.

Sim, no plural. Vamos esclarecer uma coisa, porque eu sei bem que a palavra “abuso” pesa uma tonelada em ouvidos alheios. Parte disso porque sempre que ouvimos falar nessa palavra terrível na mídia, é referente à abuso sexual. E não foi o meu caso, justamente porque abuso não tem sempre essa conotação. O abuso pode ser também psicológico – e em proporções muito diferentes, também tiram muito da gente, nos deixam traumas que carregamos por muito tempo.

Se nesse ponto você está sentindo que esse texto é também sobre você, respire um pouco, eu sei que não é fácil lembrar. E saiba que a culpa é nossa sim, mas não é tão simples quanto os outros dizem ser. A pessoa abusiva não se mostra assim de início e quando você percebe, já está envolvido demais e sair disso é equivalente a tentar achar o caminho em uma serra coberta por neblina.

Não vou entrar em tantos detalhes, mas olhando para a minha própria história (coisa que normalmente escritores fazem com o nariz torcido), eu deixei que me tirassem o que talvez seja mais valioso que barras de ouro que valem mais que dinheiro: a minha autoestima. Deixei que dissessem que eu era estranha e que desse jeito nunca ninguém ia gostar de mim. Deixei que passassem por cima do meu orgulho e me afirmassem que eu não era mulher o suficiente porque sou um tanto nerd e outro tanto “diferente”. Eu, fui eu quem deixou isso acontecer.

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Foram dez anos da minha vida, que tem pouco mais do que o dobro disso. Foi uma década inteira de incontáveis abusos psicológicos que eu me deixei aguentar. Quando a moça disse que nem o pior inimigo merece passar por isso, ela estava coberta de razão. E muito pior que qualquer vilão cinematográfico: é a gente que deixa que nos tratem assim.

Como eu disse antes, é preciso se afastar um pouco desse maremoto de dramas e enxergar o melhor que isso me trouxe, que foi, antes de tudo, aprender a me amar exatamente como eu sou – processo pelo qual ainda estou passando.

Outra coisa boa que consigo tirar disso é poder contar para quem se encontra em um relacionamento abusivo que a culpa é nossa, sim, mas a escolha de virar as costas e ir embora, também. Então seja forte, mande um “foda-se” bem mandado para a pessoa abusiva da sua vida e não perca mais o seu tempo, porque olhando para trás, sinto falta do que eu não fiz e não de quem não “me deixou” fazer.

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Essa bagagem é frágil e destrutiva ao mesmo tempo. E a qualquer buraco ou declive na trajetória, essa mala pode se abrir e aí é uma chuva de traumas que nunca deixaram de te assombrar. Mas saiba que nem todo mundo é assim e, quem sabe, um dia você não encontre alguém que além de te amar por esse jeito que é só seu, até ajude a carregar as malas.

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