A Quadrilha de Carlos é para dois

O amor funciona um pouco como uma dança, tem seu ritmo próprio e é feito a dois – ou deveria ser. Por outro lado, tem sempre os Billy Idols dessa vida, que dançam melhor mesmo sozinhos. A verdade é que entrar na dança de alguém amolece um pouco as pernas da gente e parece que sem nenhum aviso, um ventilador passou a funcionar na velocidade III dentro da nossa barriga.

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É incrível como aquela dança parece irresistível e ao mesmo tempo insustentável. No começo é de se estranhar aquilo tudo, que diabo de passo é esse? Mas depois você decora e ensina também seus próprios movimentos e se você tiver sorte, vira uma verdadeira coreografia muito bem ensaiada. Como é feita a dois, depende do par não deixar a pista cair em monotonia, embalada por uma música que já não faz o menor sentido – mas isso é outra história.

Se tem um cara que entenderia a coreografia solitária de Billy Idol, talvez seria Carlos Drummond de Andrade porque enquanto todo mundo dizia de peito aberto que dançar junto era muito mais negócio, ele sabia muito bem que a balada não era de tudo simples. Não que Drummond achasse a vida a dois errada, pelo contrário, tem muito amor nas entrelinhas de seus poemas. Mas ele compreendia que se fosse fácil, não existiria dor de amor, ou especificamente, de cotovelo.

.A Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história. | Carlos Drummond de Andrade

Se Drummond, que com certeza não escreve verso sem saber do que fala, não for o suficiente pra te convencer, Chico Buarque de Hollanda se inspirou no mesmo poema, que desce como um soco na boca do estômago, em um trecho da sua “A Flor da Idade”. Se ainda assim tudo parecer um mar de flores, tem mais um punhado de músicos, escritores, roteiristas, artistas e sei lá mais o que prontos para mandar um aviso amigo de quem já entrou na dança incontáveis vezes.

Não que isso seja um prelúdio dramático para você começar ter fobia de pistas de dança com música lenta e luz baixa – não, quem fez isso foi o Billy Idol e cá entre nós, ele não poderia ter sido mais covarde nessa colocação. Tem sim que ter muita coragem para entrar nessa dança e deixar claro que é uma dança a dois, mas que é preciso ter seu espaço para rodar, senão vem o problema da tal monotonia e aí já sabe.

Então talvez seja justo entender que tanto o roqueiro quanto o poeta tenham razão, mas não cada um do seu lado do salão, em verdadeiros solos de dança e sim juntos. Não é que você precise entrar sozinho na dança do outro – você, com todos os movimentos que são só seus, tem que achar alguém que queria aprendê-los e que te ensine também como é que se mexe nessa dança.

Acontece que é um pouco raro achar o bailarino(a) que vai te querer parte de uma coreografia a dois, que não vai ser nem dele(a), nem sua – e sim um duo. Na maioria das vezes, a dança morre sem nem ter tido a chance do primeiro passo, porque eu gosto de fulano, que gosta de sicrana, que por sua vez não gosta de ninguém. E assim o jogo segue, numa verdadeira ciranda um pouco incômoda, um tanto deliciosa. Até a hora que você acerta o ritmo, o par, a música e o resto, é amor.

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E aí, quer dançar?

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