A genialidade de Xavier Dolan

Faz um bom tempo que eu estava com vontade de escrever sobre o Xavier Dolan. Se eu tivesse escrito há alguns meses, provavelmente seriam poucas as pessoas que teriam visto um trabalho dele. Hoje, no entanto, grande parte deve ter visto ao menos um clipe que ele dirigiu: Hello, da Adele. O canadense tem só 26 anos e, antes de toda a polêmica com o celular de flip, já era um nome forte em Cannes. Além disso, recentemente ele posou para uma campanha da Louis Vuitton.

editorial_14.12_048

Dolan é nascido em Montreal e, por isso, seus filmes são todos em francês. O grande diferencial das obras é a sensibilidade que ele tem de colocar detalhes tão pessoais e envolventes, de forma que a gente se identifique e se apaixone por todos os personagens criados por ele. Vou falar um pouquinho filmes que assisti dele mas, ao invés de usar a ordem de lançamento, prefiro utilizar a ordem em que eu assisti para dividir com vocês de que forma eu conheci o trabalho dele.

Amores imaginários

aa0f2-amores5

A primeira coisa que me chamou atenção em Amores Imaginários é a fotografia: cada cena do filme poderia ser um quadro, é tudo tão bonito e simétrico que visualmente o filme já vale a pena. A história mostra um triângulo amoroso formado pela moça da foto acima, o melhor amigo gay (interpretado pelo Xavier Dolan) e um loiro que faz os dois morrerem de amores. Vale a pena ver para relembrar exatamente qual é aquele sentimento devastador da paixão, que nos torna meio ridículos. E assim como todos os filmes do Dolan, a trilha sonora é excelente e vai do clássico ao pop.

Mommy

mommy

Dá um nózinho na garganta só de lembrar de Mommy. Além da trilha sonora impecável (a vibe me lembra um pouco a trilha sonora de Boyhood) e da fotografia original (o filme é quase todo 1:1, parece tipo um filme do Instagram), Mommy é extremamente visceral e intenso do começo ao fim. A relação entre mãe e filho é explorada com Diane e Steve, um garoto problema que é expulso do reformatório e volta a morar com a mãe. A relação entre os dois transita entre o incestuoso e o violento, levantando questões sobre os conceitos de normalidade.

Eu matei minha mãe 

j-ai-tue-ma-mere-15-07-2009-4-g

O primeiro grande sucesso do Xavier Dolan foi o último que assisti dele. E sim, o título é assustador, mas não é literal. Eu matei minha mãe é estrelado pelo próprio Dolan e tem traços autobiográficos, já que mostra a problemática relação entre o filho homossexual e sua mãe. É impossível não mergulhar na história dos dois e não lembrar dos nossos próprios conflitos com nossas mães – afinal, por melhores que elas sejam, existem sempre brigas e conflitos terríveis. Chorei horrores lembrando da minha mãe e de toda a nossa história, que ora tinha muito carinho, ora era uma verdadeira guerra.

Ansiedade: o monstro invisível

Falando racionalmente, as coisas estão bem. Emprego ok, casa ok, família ok, amor ok, amizade ok. Vendo o noticiário, a gente sabe como tem gente passando por dramas muito maiores que os nossos e que devemos agradecer por todos os nossos privilégios e alegrias. Sim, pensando de forma racional é claro que eu e boa parte das pessoas que estão lendo esse texto tem uma vida boa, no geral. Só de você estar lendo isso no seu computador, no celular ou no seu tablet significa que você já está melhor do que muita gente aqui no Brasil.

Mesmo assim, tem aqueles dias… Que algo parece nos puxar pra bem longe da felicidade. Aquele pensamento de “com essa idade eu deveria ser mais bem-sucedida”, “tá todo mundo viajando e eu mal conseguindo ir pra Matinhos” ou “tá todo mundo se dando bem pra caralho na vida e eu aqui me sentindo como uma extraterrestre nesse mundo de adultos de sucesso”. Sim, a famosa ansiedade. Ela aparece quando menos esperamos e consegue minar toda a nossa alegria.

Por ter sido uma criança que sofreu com síndrome do pânico, essa sensação me é familiar. Aperto no peito, dificuldade para respirar, taquicardia e um sentimento constante de insegurança e medo. Às vezes é um motivo explicável, como “preocupação com as contas pra pagar”, mas tem dias que não é nem uma ansiedade que se possa explicar, é só um medo generalizado do presente e do futuro, e das coisas ruins que podem acontecer.

enhanced-buzz-15030-1380903679-15

Resultado? A ansiedade faz com que eu entre em pânico achando que eu estou fazendo muito pouco pela minha vida e que o meu futuro vai ser horrível, mas ao mesmo tempo me deixa nervosa a ponto de não conseguir fazer nada a respeito disso. Querer tudo e não fazer nada é o lema dessa minha fase. Como sair dessa inércia?

O mundo mágico das redes sociais

Vamos fazer um teste: tente se lembrar das suas blogueiras/vlogueiras favoritas, ou de pessoas que mesmo sem blog ou canal no YouTube fazem sucesso na internet (os tais “influenciadores digitais”). Agora, entre no Instagram deles e tente perceber a linha editorial do perfil. Provavelmente você vai encontrar um monte de paisagens bonitas de cidades diferentes, roupas caras, cenários paradisíacos e um rosto impecável, sem uma espinha ou fio de cabelo fora do lugar, certo?

Lembro de quando eu era mais nova e os blogs eram pessoais, feitos por adolescentes e jovens que usavam a ferramenta como lazer, não como trabalho. A blogueira ultra famosa que hoje em dia fatura mais de 30 mil por mês com publicidade era só uma menina como qualquer outra, que tinha criatividade para combinar roupas baratas e escrevia bem. Elas falavam de problemas de dinheiro, contavam novidades boas e ruins, e por isso se tornou mais interessante acompanhar esses blogs do que as velhas revistas femininas que continuavam reforçando os velhos estereótipos.

A grande mudança aconteceu quando as empresas começaram a perceber a influência dessas meninas e mulheres no público jovem e passou a se aproveitar disso para anunciar bolsas, sapatos, roupas, esmaltes e mais uma porção de coisas. Isso fez com que as blogueiras mudassem a relação que elas têm com o blog e com o público: o que antes era algo pessoal, feito de forma amadora, se tornou uma ferramenta de trabalho. E é aquela coisa: você não vai falar dentro do ambiente de trabalho que tá triste, que a vida é uma merda e que aquele vestido que te pagaram pra usar naquela foto do Instagram é de um tecido péssimo, né?

Foi aí que tudo desandou. Por um lado é muito interessante ver um monte de pessoas jovens ganhando dinheiro trabalhando com internet, por outro é frustrante ver como essa relação blogueiras-empresas mudou a blogosfera e as redes sociais. Tudo se tornou vendável, e a competição por likes e por fama criou pessoas muito mais preocupadas com estética do que com conteúdo – pode perceber, a maioria dos blogs tem 5 linhas de texto para muitas e muitas fotos de produtos, viagens e um lifestyle inatingível para nós, meras mortais.

Por isso, a gente estava precisando mesmo do chacoalhão que a blogueira australiana deu no mundo todo. Likes não significam nada, nada, além de dinheiro caso você trabalhe com isso. Para quem não trabalha, não significa amor, nem admiração, nem porra nenhuma. Você não é melhor ou pior do que alguém por ser mais ou menos popular na internet, sério. O que ela falou não é nada novo, mas precisamos lembrar disso, de que a perfeição das redes sociais é só uma colagem, como um álbum de fotos: as partes boas são destacadas e as ruins escondidas.

Por isso, não tenha medo de postar uma foto borrada de um momento feliz, de compartilhar um vídeo em que aparece a gordurinha da sua barriga ou qualquer coisa que não renda likes. De perfeição e artificialidade a gente já viu demais, obrigada.

dancing