2016 e ainda precisamos falar sobre igualdade de gênero

Não tem muito tempo, eu precisei fazer o Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) – que é uma prova longa e trabalhosa pela qual o MEC (Ministério da Educação) classifica as universidades e faculdades do país em A, B, C ou D. Honestamente, ninguém gosta de passar boa parte de um domingo respondendo perguntas de todos os tipos. Eu prefiro começar sempre pelas redações, que nesse caso eram quatro.

O enunciado pedia para discorrer sobre ninguém menos que Malala Yousafzai e a sua conquista de vários prêmios, inclusive o tão cobiçado Prêmio Nobel da Paz. E por que uma garota de 18 anos ganhou tanto destaque na prova do Enade? Porque ela, uma jovem paquistanesa, lutou pela igualdade de gênero e direito à educação em um país completamente machista e intolerante. Sorri ao ler o tema do texto e comecei um rascunho fervoroso naquele domingo de chuva.

Mas poucos minutos depois soltei a caneta e um sentimento de tristeza tomou conta de mim imediatamente. 2014, quando ela muito merecidamente conquistou o Nobel, e a igualdade de gênero ainda era vista como algo extraordinário, quando deveria, na verdade, ser algo absolutamente normal. Dois anos depois da premiação e o mundo continua desigual – tanto socialmente, quanto para a figura da mulher.

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Infelizmente, nós não precisamos ir até o Paquistão vivenciar momentos de verdadeiro terror pelos quais as mulheres passam todos os dias. Acontece aqui mesmo e aí também – não importa onde, acontece em todos os lugares, a qualquer momento, diariamente. Se você não é mulher e está lendo esse texto, pode parecer algo meio exagerado, dramatizado. Mas acredite (e tenha um pouco de empatia, ao menos) a situação é bem mais assustadora que qualquer filme de terror por aí. Se os muitos relatos cotidianos expostos para quem quiser ver/ler não forem suficientes, basta confiar em números. E esses números, são tristes, dão raiva.

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Ano passado, a Gazeta do Povo publicou o Mapa da Violência: http://goo.gl/qeuhU3

Não tem o que negar, ser mulher é viver constantemente momentos de medo e assédio, seja esse físico ou verbal. As pessoas pensam que uma “cantada” é algo tranquilo, normal e que se desgastar com isso é frescura. E esse é só o começo do problema.

A campanha “Chega de Fiu Fiu” (http://thinkolga.com/chega-de-fiu-fiu/) explica direitinho o que é assédio e toma iniciativas reais para lutar contra esse tipo de violência. Sim, chamar alguém de  “gostosa” na rua, alguém que não está entre quatro paredes com você, é uma violência e um desrespeito absurdo.

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Não foi uma ou duas vezes que me peguei escrevendo os famosos “textões” no Facebook sobre isso. Mas é que você não faz ideia o que é passar medo na rua pelo simples fato de ser mulher. E é um medo muito maior e mais intenso do que de um assalto – é ter medo pelo bem mais valioso que a temos nessa vida: nosso corpo.

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Só em 2016 eu passei por três situações horríveis – não me entenda mal, enfrentei muito mais do que essa soma de assédios nesse ano, mas uma entre essas três histórias, de alguma forma, incomodou mais:  

Eu trabalho no Centro, em uma rua bastante movimentada e frequentemente eu desço no meu horário de almoço para esticar um pouco as pernas. Num desses passeios, um senhor que vestia roupas sociais olhou para mim com uma expressão nojenta e disse, em alto em bom som, que queria mamar nos meus seios. Doeu ler isso, né? Imagine escrever ou pior do que isso, imagine ter vivenciado essa cena. Eu não me segurei, fiz um escândalo ali mesmo na rua e, para a minha grande surpresa, várias pessoas que estavam em volta me apoiaram, deixando aquele homem desrespeitoso com uma vergonha sem tamanho. Quem foi que deu o direito de ele falar uma coisa dessas para mim? Como é que isso pode ser considerado uma frescura minha?

Esse, até hoje, foi um dos piores casos de assédio que eu tive o azar de viver – mas entenda, todas as mulheres que você conhece passam por isso todos os dias – e infelizmente, muitas passam por coisa até pior.

Mas nem todos os dias são ruins e nem todas as pessoas são desrespeitosas. Cada vez mais, eu sinto que conhecidos meus, de alguma forma, lutam contra isso, se indignam e apoiam a causa – a nossa causa. É importante lembrar disso, essa é uma causa de todas nós – de todos.

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Em algum momento, uma moça corajosa chamada Babi Souza, criou a página “Vamos Juntas?”, que tem a proposta de mulheres se ajudarem na luta contra o machismo e a violência. Esse tipo de projeto nos dá força, nos empodera e nos dá a chance de sermos ouvidas. Vamos juntas fazer um escândalo e mudar, aos poucos, a sociedade em que vivemos. <3

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