Sabe bem o que está fazendo?

Quando eu tinha 13 anos, o maior objetivo de todas as meninas da minha idade era ter um namorado. Nos considerávamos adolescentes, crescemos assistindo filmes de princesa e achávamos que o nosso status aumentaria com a existência de um namorado. Na época eu me sentia feia, gorda e simplesmente odiável. Já tinha sofrido muito bullying e acreditava piamente que o fato de um menino gostar de mim me validaria. Acho que todas as meninas devem ter memórias parecidas com as minhas, não?

Se fosse um menino bonito e popular, ganharia pontos a mais. Se fosse mais velho, então, nem se fale: era normal que as meninas de 13 gostassem dos meninos de 15 ou 16, afinal os rapazes da nossa idade tinham aqueles bigodinhos estranhos e ainda estavam cheios de acne. Além disso, nas novelas a mocinha sempre ficava com um cara mais velho, não? Deborah Secco com o Zé Mayer era um dos casais que fizeram sucesso na minha época.

os-atores-jose-mayer-e-deborah-secco-em-lacos-de-familia-original
Buscando a imagem do casal, lembrei que tinha violência doméstica também. Que bons exemplos, não?

Por isso, eu fiquei nas nuvens quando um menino mais velho, de 16 anos, veio conversar comigo num show. Nessa época eu ia bastante no 92 graus com a minha irmã e a minha prima (que são mais velhas que eu) e achei o máximo quando um piá de uma banda deu mole pra mim. Eu era absurdamente ingênua nessa época e acreditava que o menino poderia namorar comigo e, enfim, eu seria alguém.

Por sorte, o menino se afastou quando soube a minha idade. Por sorte, eu tinha uma irmã e uma prima ao meu lado que eram mais velhas e saberiam cuidar de mim mas do que eu. Por sorte, eu pude viver minhas paixonites sem maiores riscos durante a minha adolescência. Por sorte, não por juízo. Mesmo com uma boa educação, as pessoas de 13 anos não são lá muito espertas.

Por isso, hoje doeu na minha alma ler os comentários nos portais que noticiaram que o ex-BBB Laercio foi preso por estupro de vulnerável. A menina dava atenção pra ele? Dava, sim. Ela sabia o que estava fazendo? Até sabia. Ela tinha maturidade para entender as intenções dele e as extensões daqueles atos? De forma alguma. Se um menino de 16 anos teve a decência de não se relacionar com uma menina de 13, por que um cara de 50 anos não teve? E, pior, por que a sociedade acha isso normal e aceitável?

Só quem já esteve na pele de uma criança burra e insegura que faria de tudo pra ter um namoradinho e se relacionar com um cara mais velho sabe que qualquer pessoa de 13 anos é, sim, vulnerável. Se existe um adulto e uma criança, quem se responsabiliza é sempre um adulto. Sempre. Porque foi ela, mas poderia ter sido eu, uma amiga, alguém da sua família. E a culpa não seria nossa.

Tão bom o artista, tão ruim a pessoa

O que antes pra mim era um orgulho, se tornou uma vergonha: eu gosto dos filmes do Woody Allen. Gosto pra caramba, mesmo daqueles que a crítica fala que é mais do mesmo. Eu gosto do “mesmo” do Woody Allen, gosto dos diálogos, gosto da trilha sonora e dos dramas amorosos dos personagens. Até a escolha dos atores me encanta! Ele é um diretor incrível que influenciou muito o gênero de romance/comédia e assistir aos filmes dele foi, por muito tempo, um programa que eu gostava de fazer ao lado da minha mãe.

“Mas o que tem de vergonha nisso, Mariana?”, você deve estar se perguntando. Não é como se eu tivesse gritado na cara de um cinéfilo que eu amo as comédias do Adam Sandler, mas me envergonho como se fosse. Não pelos filmes, mas pelo Woody Allen. Quanto eu soube sobre a vida pessoal dele, mais eu me enojei. Pra quem não sabe, ele basicamente traiu a Mia Farrow com a filha adotiva dela. A filha de apenas 21 anos. Hoje eles são casados, e recentemente ele deu uma entrevista dizendo que ela “foi uma órfã vivendo nas ruas, morando em latas de lixo e passando fome aos 6 anos de idade até ser levada a um orfanato. Eu forneci a ela oportunidades incríveis e ela retribuiu todas elas”, como se tivesse sido ele, não a Mia, que salvou a Soon-Yi.

large

Além disso, ele já foi acusado de assédio por uma das filhas da Mia Farrow e, olha, sinceramente, é um caso que é muito difícil desconfiar da vítima. Moral da história: eu tenho vergonha de gostar dos filmes do Woody Allen por ele ser uma pessoa escrota, que tem uma moral muito questionável. Como separar vida e obra?

O mesmo acontece com o Kanye West, cuja última polêmica foi com a música Famous, que basicamente diz que ele fez a Taylor Swift ficar famosas por causa da falta de respeito dele no VMA de 2010. Bom seria se fosse a única prova de que ele é um babaca, mas são tantas as pisadas de bola do Kanye que eu precisaria de um texto exclusivo pra falar sobre o assunto. É machismo, slut shaming e mais uma série de atitudes desprezíveis.

O problema é que, nesses dois casos, acho impossível negar a genialidade dos dois – e de outros artistas com o mesmo problema, como o Polanski. Como apreciar o bom trabalho sem acabar “aplaudindo” uma pessoa sem caráter? Já considero um avanço a gente problematizar a questão, mas é o suficiente? Devemos jogar o trabalho dos caras no lixo por causa da vida pessoal deles? Qual o papel da mídia e do público nesses casos?

(Não, esse texto não tem nenhuma solução. Sou apenas eu, incomodada com essa questão, mas sem saber direito o que fazer com isso. Por favor, continuem o debate nos comentários!).

3e112454097cf9c1e3dd848191952e60

Entre desencontros, um encontro

Eu não tenho certeza de quando foi que eu ouvi o termo “timing” pela primeira vez. Mas eu lembro que um certo dia, quando eu tinha 16 anos, a minha vó me contou como meus pais se conheceram.

Não sei se é genético ou que, mas assim como eu nunca apenas conheço pessoas, a história de como eles se conheceram é um tanto extraordinária e outro tanto bonita. A minha mãe é baiana e meu pai curitibano. Na época da faculdade ela se mudou para São Paulo e um dia veio à Curitiba para algum congresso sobre fisioterapia e por algum motivo ela os amigos estavam em um Inter II, perdidos pela cidade.

Meu pai namorava uma moça chamada Vitória e ele nunca pegava o Inter II, mas por um atraso qualquer e exatamente naquele dia encontrou um grupo de estudantes perdidos na cidade dele. Ele, que gosta de se considerar uma espécie de mapa humano da cidade, decidiu ajudar. Os estudantes seguiram o caminho sugerido por ele, mas a minha mãe não. Eles conversaram por horas e se tornaram amigos. Isso do ponto de vista dele, porque a minha mãe sentiu aquele frio na barriga que normalmente significa encrenca.

– Amor, menina.

Tá bem vó, amor.  Da forma como fosse, eles continuaram a trocar longas cartas por muito tempo. E claro que a minha mãe foi se apegando cada vez mais (isso deve ser genético também). Até que um dia chegou a fatídica carta em que meu pai dizia que estava noivo.

– COMO ASSIM VÓ?

– Calma menina, tudo tem seu tempo.

A minha mãe ficou arrasada, como é de se esperar que alguém fique com uma notícia dessas. A verdade é que temos o péssimo hábito de considerar que pessoas são nossas, quando na verdade elas escolhem estar por perto e um dia deixam essa escolha de lado – ou não. Isso tudo pode mudar sem o menor aviso, sem a menor chance de reverter isso.

Depois de 365 dias da tal notícia, a minha mãe havia seguido com a vida dela, porque é isso que fazemos com o tempo. Ela estava em Salvador, na casa da minha avó, para passar férias de verão. O telefone toca e a minha vó diz que é o meu pai e minha mãe se recusa a atender. Minha vó disse que era para ela parar de ser boba e que atendesse logo.

A verdade é que se ela não tivesse atendido o telefone eu nem estaria aqui, esse texto não existiria e você não me conheceria. Mas não, meu pai havia terminado o noivado porque nunca conseguiu esquecer a minha mãe.

theGraduate3 (1)

– Vó, pode ser que seja porque eu ainda não tenha idade pra entender, mas que enrolação!

– Enrolação nada! Acontece que pessoas tem tempos diferentes. E às vezes os tempos não entram em sincronia nunca. Mas tem outras que, mesmo parecendo pouco provável, o tempo passa a caminhar junto.

Tempos diferentes, mesmo em relógios em que as horas são compostas por 60 minutos, que por sua vez são compostos por 60 segundos cada e ainda assim os tais ponteiros que, por muitas vezes, não se encontram direito. Esse é o jeito da minha avó de explicar o que timing errado significa.

Onze anos depois dessa conversa eu aprendi, ao longo de vários ponteiros desencontrados, que as pessoas têm um jeito muito específico de te olhar quando sabem que é uma despedida. E se tem algo que eu não sei lidar bem é com despedidas.

Entre muito encontros e desencontros, sempre vai ter aquela pessoa em especial que não te olhou daquele jeito que te causa um frio apavorante na nuca. Sempre tem aquela pessoa com quem o timing ainda é errado, mas que te olha de um jeito que não diz “tchau”, mas diz “até logo”.

lost-in-translation-2003_opt (1)

E não existe nenhum tipo de desespero entre esse desencontro e o encontro, só algumas muitas borboletas esporádicas no estômago e uma troca de sorrisos que vale por uma conversa inteira.