Entre desencontros, um encontro

Eu não tenho certeza de quando foi que eu ouvi o termo “timing” pela primeira vez. Mas eu lembro que um certo dia, quando eu tinha 16 anos, a minha vó me contou como meus pais se conheceram.

Não sei se é genético ou que, mas assim como eu nunca apenas conheço pessoas, a história de como eles se conheceram é um tanto extraordinária e outro tanto bonita. A minha mãe é baiana e meu pai curitibano. Na época da faculdade ela se mudou para São Paulo e um dia veio à Curitiba para algum congresso sobre fisioterapia e por algum motivo ela os amigos estavam em um Inter II, perdidos pela cidade.

Meu pai namorava uma moça chamada Vitória e ele nunca pegava o Inter II, mas por um atraso qualquer e exatamente naquele dia encontrou um grupo de estudantes perdidos na cidade dele. Ele, que gosta de se considerar uma espécie de mapa humano da cidade, decidiu ajudar. Os estudantes seguiram o caminho sugerido por ele, mas a minha mãe não. Eles conversaram por horas e se tornaram amigos. Isso do ponto de vista dele, porque a minha mãe sentiu aquele frio na barriga que normalmente significa encrenca.

– Amor, menina.

Tá bem vó, amor.  Da forma como fosse, eles continuaram a trocar longas cartas por muito tempo. E claro que a minha mãe foi se apegando cada vez mais (isso deve ser genético também). Até que um dia chegou a fatídica carta em que meu pai dizia que estava noivo.

– COMO ASSIM VÓ?

– Calma menina, tudo tem seu tempo.

A minha mãe ficou arrasada, como é de se esperar que alguém fique com uma notícia dessas. A verdade é que temos o péssimo hábito de considerar que pessoas são nossas, quando na verdade elas escolhem estar por perto e um dia deixam essa escolha de lado – ou não. Isso tudo pode mudar sem o menor aviso, sem a menor chance de reverter isso.

Depois de 365 dias da tal notícia, a minha mãe havia seguido com a vida dela, porque é isso que fazemos com o tempo. Ela estava em Salvador, na casa da minha avó, para passar férias de verão. O telefone toca e a minha vó diz que é o meu pai e minha mãe se recusa a atender. Minha vó disse que era para ela parar de ser boba e que atendesse logo.

A verdade é que se ela não tivesse atendido o telefone eu nem estaria aqui, esse texto não existiria e você não me conheceria. Mas não, meu pai havia terminado o noivado porque nunca conseguiu esquecer a minha mãe.

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– Vó, pode ser que seja porque eu ainda não tenha idade pra entender, mas que enrolação!

– Enrolação nada! Acontece que pessoas tem tempos diferentes. E às vezes os tempos não entram em sincronia nunca. Mas tem outras que, mesmo parecendo pouco provável, o tempo passa a caminhar junto.

Tempos diferentes, mesmo em relógios em que as horas são compostas por 60 minutos, que por sua vez são compostos por 60 segundos cada e ainda assim os tais ponteiros que, por muitas vezes, não se encontram direito. Esse é o jeito da minha avó de explicar o que timing errado significa.

Onze anos depois dessa conversa eu aprendi, ao longo de vários ponteiros desencontrados, que as pessoas têm um jeito muito específico de te olhar quando sabem que é uma despedida. E se tem algo que eu não sei lidar bem é com despedidas.

Entre muito encontros e desencontros, sempre vai ter aquela pessoa em especial que não te olhou daquele jeito que te causa um frio apavorante na nuca. Sempre tem aquela pessoa com quem o timing ainda é errado, mas que te olha de um jeito que não diz “tchau”, mas diz “até logo”.

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E não existe nenhum tipo de desespero entre esse desencontro e o encontro, só algumas muitas borboletas esporádicas no estômago e uma troca de sorrisos que vale por uma conversa inteira.

2 thoughts on “Entre desencontros, um encontro

  1. Senti isso ao ver apenas fotos suas.
    Curioso, cheguei até aqui.
    Amigos em comum (nem tanto)
    Sugestão de amizade no facebook..
    Imagino quando puder vê-la ao vivo…
    Um dia…uma conversa? café?cerveja?
    Beijos&Beijos

    #gostei do texto, um romance não visto mais atualmente#

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