Tão bom o artista, tão ruim a pessoa

O que antes pra mim era um orgulho, se tornou uma vergonha: eu gosto dos filmes do Woody Allen. Gosto pra caramba, mesmo daqueles que a crítica fala que é mais do mesmo. Eu gosto do “mesmo” do Woody Allen, gosto dos diálogos, gosto da trilha sonora e dos dramas amorosos dos personagens. Até a escolha dos atores me encanta! Ele é um diretor incrível que influenciou muito o gênero de romance/comédia e assistir aos filmes dele foi, por muito tempo, um programa que eu gostava de fazer ao lado da minha mãe.

“Mas o que tem de vergonha nisso, Mariana?”, você deve estar se perguntando. Não é como se eu tivesse gritado na cara de um cinéfilo que eu amo as comédias do Adam Sandler, mas me envergonho como se fosse. Não pelos filmes, mas pelo Woody Allen. Quanto eu soube sobre a vida pessoal dele, mais eu me enojei. Pra quem não sabe, ele basicamente traiu a Mia Farrow com a filha adotiva dela. A filha de apenas 21 anos. Hoje eles são casados, e recentemente ele deu uma entrevista dizendo que ela “foi uma órfã vivendo nas ruas, morando em latas de lixo e passando fome aos 6 anos de idade até ser levada a um orfanato. Eu forneci a ela oportunidades incríveis e ela retribuiu todas elas”, como se tivesse sido ele, não a Mia, que salvou a Soon-Yi.

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Além disso, ele já foi acusado de assédio por uma das filhas da Mia Farrow e, olha, sinceramente, é um caso que é muito difícil desconfiar da vítima. Moral da história: eu tenho vergonha de gostar dos filmes do Woody Allen por ele ser uma pessoa escrota, que tem uma moral muito questionável. Como separar vida e obra?

O mesmo acontece com o Kanye West, cuja última polêmica foi com a música Famous, que basicamente diz que ele fez a Taylor Swift ficar famosas por causa da falta de respeito dele no VMA de 2010. Bom seria se fosse a única prova de que ele é um babaca, mas são tantas as pisadas de bola do Kanye que eu precisaria de um texto exclusivo pra falar sobre o assunto. É machismo, slut shaming e mais uma série de atitudes desprezíveis.

O problema é que, nesses dois casos, acho impossível negar a genialidade dos dois – e de outros artistas com o mesmo problema, como o Polanski. Como apreciar o bom trabalho sem acabar “aplaudindo” uma pessoa sem caráter? Já considero um avanço a gente problematizar a questão, mas é o suficiente? Devemos jogar o trabalho dos caras no lixo por causa da vida pessoal deles? Qual o papel da mídia e do público nesses casos?

(Não, esse texto não tem nenhuma solução. Sou apenas eu, incomodada com essa questão, mas sem saber direito o que fazer com isso. Por favor, continuem o debate nos comentários!).

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4 thoughts on “Tão bom o artista, tão ruim a pessoa

  1. Pois é Mia, esse é um dilema. Eu curto DEMAIS Led Zeppelin. Eles moldaram a maneira de fazer música, influenciaram vários artistas e bandas que nasceram depois deles, mas isso não exclui o fato de o Jimmy Page ter tido um affair com uma groupie de 13 anos. E pra isso, ele sequestrou a menina e levou pro hotel dele. Tipo… Tenso. Mas eu acho que não podemos nos isolar do mundo. Não dá pra negar que eles são escrotos, mas não dá também pra simplesmente não ouvir mais Led Zeppelin e negar que eles foram importantes. É complicado hahaha

    1. Pois é, tirando as letras das músicas, né? Livin Lovin Maid me deixa extremamente desconfortável… É uma questão muito delicada! Acho que o segredo é ter uma visão crítica da obra e dos artistas, sem endeusar.

  2. Também vivo esse conflito. Ele é um dos meus diretores favoritos, coisa de top 5, amo o estilo dele. PORÉM, fica complicado defender, sabe? Eu já li tanto tanto tanto sobre isso, li todos os artigos, matérias e entrevistas… e fiquei sem uma conclusão. A verdade é que pessoas são cinzentas, e não preto no branco. Gosto do artista, abomino a pessoa. Simples assim 🙁

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