Aconteceu ontem

Uma filosofia que sempre ajuda quando passamos por uma situação difícil é o mantra “vai passar”. E passa, né? Pé na bunda, desemprego, brigas, dívidas e aquela sensação de “o que eu estou fazendo da minha vida?”. Passa porque, assim como os ferimentos físicos, os ferimentos emocionais cicatrizam, vão curando aos poucos até que, de repente, não está mais lá. É só buscar ajuda, tratar o ferimento e se empenhar em mudar a situação. O máximo que sobra é uma cicatriz, que vai se apagando com o passar dos anos. Vai passar.

Nos últimos anos, no entanto, eu descobri que existe uma dor que, diferente de todas as outras, não cicatriza. Ela ameniza, mas é mais parecida com uma doença autoimune: é só surgir um momento de fragilidade que reaparece, forte como nunca, como se estivesse lá o tempo todo, só esperando o momento certo de atacar.

Há quase três anos eu estou de luto pela minha mãe e quando eu digo isso não é porque todos esses dias eu estava de preto, chorando e sofrendo. Nesse período eu troquei de emprego, saí de casa, mudei amizades e cresci. Tive dias bons, dias ótimos, mas em alguns dias parece que aconteceu ontem. A dor surge na mesma intensidade do dia em que eu tive que me despedir dela no cemitério.

E é difícil, muito difícil, explicar para alguém porque eu estava chorando loucamente como se eu tivesse acabado de perder a minha mãe sendo que poxa, já faz quase três anos. O mundo espera que as pessoas que perderam pessoas agissem como se fosse qualquer outro tipo de dor, quando não é. Ela não acaba, não tem data de validade.

A maior parte dos dias a dor está lá, enfiada no fundo do armário e parece que a vida que eu vivia com a minha mãe era uma vida passada, que outra pessoa viveu. Em outros, parece que nada que eu tenho agora faz sentido se ela não está aqui. A tristeza toma conta de mim e eu me pergunto como já se passaram todos esses dias e como eu consegui dormir e acordar em todos eles num mundo em que ela não existe mais.

E, diferente de um ferimento físico, o luto não é perceptível. As pessoas ficam ao redor logo que acontece, mas passam uma, duas semanas e todos voltam a viver a vida normalmente, sendo que existe uma pessoa faltando, uma peça essencial que sumiu e não vai voltar. Eu tenho que ter uma força sobre-humana para lidar, dia após dia, com esse fato. Mas às vezes parece que aconteceu ontem.

13241350_1003677053015554_6893095749054477505_n

Para quem, assim como eu, passou por isso, saibam que podem entrar em contato comigo em qualquer momento, juntos somos mais fortes. Aproveito também para compartilhar um site que tem me ajudado muito a entender que eu não estou sozinha.