Praça de alimentação

É sempre a mesma coisa: chega 11 horas, 11 e meia e eu começo a pensar na hora do almoço. Tem aquele vegetariano que é aqui perto, mas meio caro. Tem também o indiano que é bom, mas não gosto muito daquela região e o restaurante tem umas vibes estranhas. O shopping tem bastante Pokémon pra caçar enquanto eu como, mas o barulho das cadeiras arranhando no chão me incomodam, sem contar os grupos enormes de galera da firma, galera do colégio, galera do cursinho. Evito galeras, mas lá tem bastante opção: mexicano, pizza, massas, hambúrguer, camarão. Mas tudo engorda. Ou é caro. Ou é ruim. Isso que na maioria dos casos eu descarto o delivery, que abre outro leque de opções.

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Às vezes eu acordo convicta do que eu quero comer no almoço, mas é raro. E às vezes acontece também de eu ir certeira, mas na primeira mordida eu olho pro lado e o almoço da mesa ao lado parece mais gostoso. Nessas horas dá saudades de quando eu almoçava a comida da minha vó em casa. Enjoava comer sempre a mesma coisa, às vezes tinha coisa que eu não gostava, mas no geral eu comia sem me preocupar com as opções. Era ou o que tinha ou o que tinha, fim de papo.

Mas por incrível que pareça, não é sobre comida que eu quero falar hoje. Falei sobre esses meus hábitos alimentares porque o amor, antigamente, era como os meus dias almoçando a comida da vó em casa: o caminho já estava meio traçado para nossos pais, nossos avós. Pode perguntar para eles, a maioria se conheceu na vizinhança, na igreja, no baile. No livro “Romance Moderno”, do Aziz Ansari, existe até uma pesquisa que mostra que as pessoas moravam muito perto de quem elas iriam se casar no futuro. As opções eram poucas, os critérios eram mais objetivos: uma pessoa trabalhadora e honesta era o suficiente.

Já o mundo amoroso de hoje em dia é aquela praça de alimentação que tem tanta opção que você acaba perdendo mais tempo escolhendo o que vai comer do que comendo de fato. Você vai ouvir histórias de pessoas que casaram com alguém de outra cidade, outro país, que começaram um relacionamento à distância, as opções são infinitas! E isso pode ser muito bom, claro, a chance de você encontrar alguém mais compatível com você é maior do que há 50 anos, mas o caminho até você encontrar essa pessoa provavelmente será mais longo e cansativo.

Além disso, quem garante que essa pessoa é o amor da sua vida? Mesmo quando você encontrar alguém legal, vai saber que logo ali no bar da esquina pode ter alguém mais bonito, no Tinder pode ter alguém mais interessante, na faculdade pode ter alguém que fode melhor. Como construir relacionamentos se o mundo virou um enorme cardápio de pessoas que podem parecer mais apetitosas que você?

E é claro que eu não vim trazer a solução, porque se eu tivesse a resposta pra essa questão eu estaria rica, muito rica, e não aqui. O que eu posso fazer é falar pra vocês o que eu faço na hora de almoçar: pondero por um tempo, decido que tá na hora de escolher e escolho – pronto. Se for muito bom (não precisa ser a-melhor-comida-do-mundo, entenda como quiser) eu fico satisfeita, sem tentar comparar com a comida do cara da mesa ao lado.

Na busca pelo melhor do mundo, você pode acabar com o prato vazio.

This charming heartbreaker

Em algum momento você com certeza já pensou que “fulano de tal me entenderia” – e sim, provavelmente você tem essa referência de alguma comunidade do Orkut, nem adianta disfarçar. E tudo bem, até biscoito da sorte chinês pode ter boas referências, com um pouco de imaginação e bom senso. Veja bem, quem me entenderia nesse momento, seria o Morrissey – sim, o rei da dor de amor.

Smiths tem tanto significado pra mim que só posso começar de fato, pelo começo: não, eu não conheci a banda ao assistir o filme “500 dias Com Ela” – carrego as bonitas letras melancólicas, em um ritmo bom de dançar, desde os meu 14 anos. Eu fazia um curso de inglês há muitos anos, e nessa idade estava próxima de enfim terminar as aulas. Em 2002 a rotina de ter amigos próximos na minha sala havia mudado bruscamente – de uma sala com 12 amigos em 2001, passei para uma turma em que era apenas eu e um menino, o Pedro.

Eu gosto da mudança, mas só gosto mesmo depois que me acostumei – no começo acho péssimo, torço o nariz e às vezes até perco o sono. O Pedro era uma mudança de fazer perder o sono e muitas vezes a razão, ele era impossível de lidar. Os dias iam passando, as estações mudando (todas em um mesmo dia, moro em Curitiba) e o passatempo preferido de Pedro era me irritar – e precisava ser muito talentoso, minha paciência é absurdamente grande. Apesar disso, ele tinha um senso de humor inabalável e ao invés de concretizar a irritação, eu acabava rindo – ria tanto que doía a barriga.

Mudamos para a sala 137 e ali tinha um piano, o que eu nunca cheguei a entender, afinal era uma escola de inglês e não de música. Mas gosto de pianos, meu instrumento preferido de tocar. Lembro de de ter entrado na sala e Pedro tocava suavemente notas que formavam uma melodia gostosa de se ouvir.

– Boa música, Pedro.

– Oi. Fico feliz que tenha gostado.

Naquele mesmo dia, na hora de ir embora, Pedro esbarrou em mim e derrubou um CD no chão que por sorte não quebrou. Era Hatful of Hollow e quando tentei devolver:

– Conhece The Smiths?

– Com certeza já ouvi falar, mas nunca ouvi de verdade.

– Eu te empresto, acho que vai gostar.

– Puxa, obrigada!

– Acho que é o mínimo depois de infernizar sua vida.

Rimos um pouco porque eu concordei categoricamente e depois de elogiar a minha sinceridade (qualidade ou defeito que carrego impreterivelmente até hoje), ele se ofereceu para me acompanhar até em casa. Ele no skate e eu na bicicleta, conversamos sobre tudo – a trajetória de volta que normalmente levaria 15 minutos, levou 2 horas. Fui pensando pelo caminho a respeito da mudança repentina e em como as folhas amarelas dos ipês deixavam as ruas bonitas.

Em casa ouvi o álbum e me surpreendi – com a banda e com o Pedro. Com Smiths porque gostei já logo na primeira música, William, It Was Really Nothing, e depois disso me apaixonei pela banda. E com o Pedro porque… bem, como alguém tão impossível poderia gostar daquelas letras melancolicamente românticas? Eu não estava esperando por isso. Aliás, ainda não sabia (e até hoje não sei) lidar muito bem com essa história de gostar de meninos – até o ano anterior eles eram seres inimigos de outro planeta.

No dia seguinte eu entendi a mudança de comportamento, entendi tudo, menos o amor. Cheguei na sala e ele não estava lá, também não estava na lanchonete e tampouco no pátio. Fiquei sem entender e quando a professora entrou em sala não resisti e perguntei. A resposta veio como uma flecha no peito:

– Você não soube querida? O Pedro se mudou para a Islândia com a família dele. Há mais de um ano eles planejavam isso.

Instantaneamente desenvolvi uma série de analogias que envolviam um coração quebrando na mesma intensidade do frio islandês. Naquele mesmo semestre, já nas provas finais do curso, a explicação veio. No meio de uma das provas, derrubei a caneta que foi parar embaixo da carteira, e quando me abaixei para pegar, bem ali, logo na minha mesa de todo dia, tinha um bilhete grudado com fita adesiva na parte debaixo da mesa. “Para Tati”, dizia o papel, com uma letra que já me era muito familiar. Depois da prova abri o inesperado bilhete que dizia:

“Você deve estar me odiando, penso eu. Tudo bem Tati, não sou a minha pessoa favorita. Mas você é. Não sou bom em despedidas e achei que o CD fosse o melhor jeito. Se não foi, me desculpe. Acho que nunca mais vamos nos ver, nunca mais vou ouvir a sua risada ou me encantar com esse jeito que é só seu. Fui um babaca do começo ao fim, e fui de propósito. Assim você me esquece mais fácil. Mas você jogou sujo e foi a menina mais interessante e inesquecível de todas. Obrigado por isso. Obrigado de verdade, foi bom. Te amo. Beijos, Pedro”

Li o bilhete enquanto ouvia This Charming Man e não fui capaz de conter as muitas lágrimas que estavam por vir. Pedro foi o meu primeiro amor impossível e até hoje, o preferido. Tem tanta poesia no que ele fez que seria errado colocar no papel, não traduziria . Nunca mais vi ou ouvi falar dele, mas muitos outros amores impossíveis vieram. Todos eles levaram um pedaço do coração – gosto de pensar que pra Islândia, por que não?  Achei que catorze anos mais tarde estaria livre da espécie. Errada, não teria como eu estar mais errada.

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Catorze anos depois e eu aqui, vivendo mais um amor que na verdade, é bem possível, igualmente singular. Acho que a pior parte é o fato de ser absurdamente possível e mesmo assim não acontecer. Daí a coisa toda se torna uma amizade, mesmo com os dois sabendo que poderia ser muito mais do que isso, mas o trauma fala mais alto e aí, meu bem, fica sem grandes chances de acontecer. Sem grandes chances de ter uma chance. Chance, essa palavra que em português significa uma possibilidade dada e que em francês significa sorte, o acaso. Quem sabe com um pouco de sorte e uma possibilidade.

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O acaso, ele que sempre se faz presente para me mostrar tudo aquilo que faz parte de mim de uma forma tão delicada, às vezes não se contém e me traz também esses amores impossíveis. Tudo bem, nunca gostei muito do possível.

Nunca pude agradecer ao Pedro, nem pelo presente, muito menos pelas palavras bonitas e honestas ou ainda pelo quase-amor. Agradeço pela poesia que amores assim carregam e fazem perder o sono e a razão. Quando escuto Smiths – e o faço sempre – lembro não apenas do Pedro, mas da possibilidade de amores impossíveis.

Cada like é um abraço virtual

Eu sou a rainha de começar as coisas e não terminar. Já tive incontáveis blogs, projetos e ideias que começaram e, não muito tempo depois, morreram. E, desde que comecei a fazer terapia, tenho tentado entender o que faz com que eu desista de tudo. Existem vários fatores, mas quero focar aqui em apenas um deles: falta de apoio.

Grande parte dos projetos que eu participei não envolvia dinheiro. Envolvia, sim, a intenção de ganhar dinheiro um dia, mas nunca foi a prioridade. O que me move é muita paixão e vontade de compartilhar experiências com outras pessoas, criar pontes, me expressar.

O problema é que a comunicação não existe se envolve apenas o emissor, sem receptor. O silêncio só era quebrado em dois casos: quando o projeto acabava (aí a pessoa, que nunca curtiu nada ou elogiou, vem dizer que acompanhava o trabalho) ou quando é para falar mal (não é a toa que, em um dos meus últimos projetos, o vídeo que teve mais views foi justo o que só teve comentários negativos).

É por isso que os comentários de portal parecem um inferno: as pessoas só se manifestam quando é para falar mal, na hora de elogiar elas se calam. Acontece que engajamento é engajamento, seja positivo ou negativo. É ele que faz o conteúdo crescer! Por isso que cada vez mais ideias absurdas ganham repercussão enquanto projetos maravilhosos permanecem no anonimato.

Vamos aumentar a corrente de coisas boas na internet? Curta e comente em conteúdos que você consumiu e gostou, elogie, só assim que esse ciclo de ódio que permeia a internet pode se tornar cada vez menor!

Para cada like, nasce um unicórnio.

Carpe diem meu cu

Atire a primeira pedra quem nunca viu por aí uma notícia de “um casal que largou tudo para viajar pelo mundo” ou de uma “publicitária que deixou o emprego para fazer um mochilão pela Europa”. Nas notícias e blogs que divulgam esse novo estilo de vida sempre há fotos de pessoas bronzeadas com os cabelos ao vento, pulando em frente ao mar, dentro de barcos, sorrindo ao lado dos nativos. São quase releituras de “comer, rezar, amar”, só que com GoPro.

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E realmente, deve ser incrível mesmo acordar todos os dias com uma paisagem paradisíaca, sem alarme programado no celular, sem chefe pra dar satisfação. Sorte das pessoas que ousaram fazer isso e agora são felizes, só tem um porém: tem muita gente usando esse novo estilo de vida pra vender. Sim, eles ganham dinheiro falando como a vida é melhor se você for mais simples! Incoerente, né?

Não são um nem dois, são vários influenciadores digitais por aí que ganham uma porrada de dinheiro pra dizer para os pobres assalariados que a vida deles é uma merda e eles só serão realizados quando largarem apartamento, carro e emprego para viverem uma aventura. Tudo muito bonito até que o dinheiro acaba. E aí, ou você tem pais ricos ou a coisa complica.

E antes que me atirem pedras, eu não estou condenando pessoas que vivem assim, mas sim questionando até que ponto o discurso de “menos é mais” se sustenta. É no mínimo desonesto vender uma vida perfeita e acusar todas as pessoas que decidiram traçar um caminho diferente, ou nem mesmo têm a opção de perseguir esse caminho de viagens pelo mundo todo.

Por isso, sempre que você deitar a sua cabeça no travesseiro pensando em como sua vida é patética porque você só é mais uma das peças do sistema, lembre-se que esse caminho não é para todos – alguns demorariam muito tempo para juntar esse dinheiro, outros simplesmente não querem assumir o risco e está tudo bem. Não existe um único formato de vida, um único caminho para a felicidade, ainda bem!

E um recadinho para os influenciadores digitais: vamos ser um pouquinho mais pé no chão, por favor? Vocês surgiram exatamente porque todo mundo estava cansado de propaganda de margarina e agora se tornaram ainda mais artificiais que comercial da novela das 8.

Sufoco

São as costas que não param de doer, não param nunca. Toma um remédio, dois, três, alonga, dorme, caminha, descansa, trabalha e não melhora. “Onde dói?”, o médico pergunta. Dói tudo. Cabeça, pescoço, ombros, braços, cotovelos, mãos, dedos, lombar, quadril, pernas, pés. Dói tudo, doutor. “Mas onde é o foco?”, ele pergunta. O foco é o meu corpo, meus músculos, todos retorcidos dentro do meu corpo, pulsando, machucando, incomodando em todas as horas do dia. Ler dói, ver filme dói, trabalhar dói, ficar deitada olhando pro teto dói.

Não quero ir na baladinha, fico triste de ter que sair da cama, fico com o estômago revirado de tantos remédios, me sinto culpada de não ter lavado a louça, de não ter estendido a roupa. Nessas horas eu queria chamar minha mãe, mas pra isso eu precisaria de um médium muito empenhado em contatá-la em outro plano, e eu não quero incomodar a minha mãe, que repousa em outro plano, com esses problemas do cotidiano. “E seu pai, Mariana?” hahahahahah

E tem gente pior que eu, é claro que tem, nunca a gente tá no fundo do poço porque nunca vai existir a pessoa que seja a-mais-fodida-do-mundo. Mesmo que a pessoa se sinta assim, ela vai olhar pro lado e encontrar alguém pior. E essa pessoa pior vai olhar pro lado e encontrar outra pior ainda. Somos todos fodidos.

Mesmo sabendo disso, surge aquela vontade de entrar embaixo do cobertor e mandar todo mundo embora, pedir silêncio e esquecer por alguns vários momentos que as contas estão acumulando, que o cabelo tá uma desgraça, que precisa lavar o banheiro, que a tia avó vai operar, que o boy da amiga ainda tá tratando ela igual lixo e você não sabe o que fazer pra ficar tudo bem, pra ficar tudo em paz.

E mesmo lá, deitada, longe de tudo, as costas doem. Puta que pariu, como doem.

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Dica de filme: Amizades Improváveis

TPM ou até mesmo uma menstruação desregulada pode nos trazer diversos sentimentos, seja vontade de doce, de chorar sem motivo, de ficar dormindo ou de ver um filme com uma lição de vida no final. No meu caso foi a última opção e o filme “Amizades Improváveis”, versão brasileira para o livro “The Fundamentals of Caring”, foi o escolhido.

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Estrelado por Paul Rudd, Craig Roberts e Seleninha Gomez, a trama se trata da adaptação do livro “The Revised Fundamentals of Caregiving” e conta a história de um homem de meia idade que decide se tornar cuidador de pessoas com necessidades especiais. Com isso, ele conhece Trevor, portador de displasia epifisária hemimélica, uma distrofia rara que atinge 1 a cada 1350 homens.
Trevor tem 20 anos e foi morar nos Estados Unidos com a sua mãe, depois de ela ser transferida da Inglaterra à trabalho. A sua rotina consiste em comer, assistir televisão e ir ao parque uma vez por semana. Mas com a chegada de Benjamin, que ainda sofre com um desastre acontecido em sua família e com a tentativa de divórcio de sua esposa, os simples sonhos de Trevor começam a se realizar.

O filme não conta uma história muito triste e não é pesado de assistir, inclusive, tem algumas cenas leves de comédia. Cada personagem entra na história com um objetivo, sem a necessidade de serem aprofundados. Tudo o que aconteceu ali foi o suficiente para Trevor viver um pouco fora do seu quarto e ver o mundo com os seus próprios olhos.

O filme está disponível na Netflix!

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