Sufoco

São as costas que não param de doer, não param nunca. Toma um remédio, dois, três, alonga, dorme, caminha, descansa, trabalha e não melhora. “Onde dói?”, o médico pergunta. Dói tudo. Cabeça, pescoço, ombros, braços, cotovelos, mãos, dedos, lombar, quadril, pernas, pés. Dói tudo, doutor. “Mas onde é o foco?”, ele pergunta. O foco é o meu corpo, meus músculos, todos retorcidos dentro do meu corpo, pulsando, machucando, incomodando em todas as horas do dia. Ler dói, ver filme dói, trabalhar dói, ficar deitada olhando pro teto dói.

Não quero ir na baladinha, fico triste de ter que sair da cama, fico com o estômago revirado de tantos remédios, me sinto culpada de não ter lavado a louça, de não ter estendido a roupa. Nessas horas eu queria chamar minha mãe, mas pra isso eu precisaria de um médium muito empenhado em contatá-la em outro plano, e eu não quero incomodar a minha mãe, que repousa em outro plano, com esses problemas do cotidiano. “E seu pai, Mariana?” hahahahahah

E tem gente pior que eu, é claro que tem, nunca a gente tá no fundo do poço porque nunca vai existir a pessoa que seja a-mais-fodida-do-mundo. Mesmo que a pessoa se sinta assim, ela vai olhar pro lado e encontrar alguém pior. E essa pessoa pior vai olhar pro lado e encontrar outra pior ainda. Somos todos fodidos.

Mesmo sabendo disso, surge aquela vontade de entrar embaixo do cobertor e mandar todo mundo embora, pedir silêncio e esquecer por alguns vários momentos que as contas estão acumulando, que o cabelo tá uma desgraça, que precisa lavar o banheiro, que a tia avó vai operar, que o boy da amiga ainda tá tratando ela igual lixo e você não sabe o que fazer pra ficar tudo bem, pra ficar tudo em paz.

E mesmo lá, deitada, longe de tudo, as costas doem. Puta que pariu, como doem.

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