This charming heartbreaker

Em algum momento você com certeza já pensou que “fulano de tal me entenderia” – e sim, provavelmente você tem essa referência de alguma comunidade do Orkut, nem adianta disfarçar. E tudo bem, até biscoito da sorte chinês pode ter boas referências, com um pouco de imaginação e bom senso. Veja bem, quem me entenderia nesse momento, seria o Morrissey – sim, o rei da dor de amor.

Smiths tem tanto significado pra mim que só posso começar de fato, pelo começo: não, eu não conheci a banda ao assistir o filme “500 dias Com Ela” – carrego as bonitas letras melancólicas, em um ritmo bom de dançar, desde os meu 14 anos. Eu fazia um curso de inglês há muitos anos, e nessa idade estava próxima de enfim terminar as aulas. Em 2002 a rotina de ter amigos próximos na minha sala havia mudado bruscamente – de uma sala com 12 amigos em 2001, passei para uma turma em que era apenas eu e um menino, o Pedro.

Eu gosto da mudança, mas só gosto mesmo depois que me acostumei – no começo acho péssimo, torço o nariz e às vezes até perco o sono. O Pedro era uma mudança de fazer perder o sono e muitas vezes a razão, ele era impossível de lidar. Os dias iam passando, as estações mudando (todas em um mesmo dia, moro em Curitiba) e o passatempo preferido de Pedro era me irritar – e precisava ser muito talentoso, minha paciência é absurdamente grande. Apesar disso, ele tinha um senso de humor inabalável e ao invés de concretizar a irritação, eu acabava rindo – ria tanto que doía a barriga.

Mudamos para a sala 137 e ali tinha um piano, o que eu nunca cheguei a entender, afinal era uma escola de inglês e não de música. Mas gosto de pianos, meu instrumento preferido de tocar. Lembro de de ter entrado na sala e Pedro tocava suavemente notas que formavam uma melodia gostosa de se ouvir.

– Boa música, Pedro.

– Oi. Fico feliz que tenha gostado.

Naquele mesmo dia, na hora de ir embora, Pedro esbarrou em mim e derrubou um CD no chão que por sorte não quebrou. Era Hatful of Hollow e quando tentei devolver:

– Conhece The Smiths?

– Com certeza já ouvi falar, mas nunca ouvi de verdade.

– Eu te empresto, acho que vai gostar.

– Puxa, obrigada!

– Acho que é o mínimo depois de infernizar sua vida.

Rimos um pouco porque eu concordei categoricamente e depois de elogiar a minha sinceridade (qualidade ou defeito que carrego impreterivelmente até hoje), ele se ofereceu para me acompanhar até em casa. Ele no skate e eu na bicicleta, conversamos sobre tudo – a trajetória de volta que normalmente levaria 15 minutos, levou 2 horas. Fui pensando pelo caminho a respeito da mudança repentina e em como as folhas amarelas dos ipês deixavam as ruas bonitas.

Em casa ouvi o álbum e me surpreendi – com a banda e com o Pedro. Com Smiths porque gostei já logo na primeira música, William, It Was Really Nothing, e depois disso me apaixonei pela banda. E com o Pedro porque… bem, como alguém tão impossível poderia gostar daquelas letras melancolicamente românticas? Eu não estava esperando por isso. Aliás, ainda não sabia (e até hoje não sei) lidar muito bem com essa história de gostar de meninos – até o ano anterior eles eram seres inimigos de outro planeta.

No dia seguinte eu entendi a mudança de comportamento, entendi tudo, menos o amor. Cheguei na sala e ele não estava lá, também não estava na lanchonete e tampouco no pátio. Fiquei sem entender e quando a professora entrou em sala não resisti e perguntei. A resposta veio como uma flecha no peito:

– Você não soube querida? O Pedro se mudou para a Islândia com a família dele. Há mais de um ano eles planejavam isso.

Instantaneamente desenvolvi uma série de analogias que envolviam um coração quebrando na mesma intensidade do frio islandês. Naquele mesmo semestre, já nas provas finais do curso, a explicação veio. No meio de uma das provas, derrubei a caneta que foi parar embaixo da carteira, e quando me abaixei para pegar, bem ali, logo na minha mesa de todo dia, tinha um bilhete grudado com fita adesiva na parte debaixo da mesa. “Para Tati”, dizia o papel, com uma letra que já me era muito familiar. Depois da prova abri o inesperado bilhete que dizia:

“Você deve estar me odiando, penso eu. Tudo bem Tati, não sou a minha pessoa favorita. Mas você é. Não sou bom em despedidas e achei que o CD fosse o melhor jeito. Se não foi, me desculpe. Acho que nunca mais vamos nos ver, nunca mais vou ouvir a sua risada ou me encantar com esse jeito que é só seu. Fui um babaca do começo ao fim, e fui de propósito. Assim você me esquece mais fácil. Mas você jogou sujo e foi a menina mais interessante e inesquecível de todas. Obrigado por isso. Obrigado de verdade, foi bom. Te amo. Beijos, Pedro”

Li o bilhete enquanto ouvia This Charming Man e não fui capaz de conter as muitas lágrimas que estavam por vir. Pedro foi o meu primeiro amor impossível e até hoje, o preferido. Tem tanta poesia no que ele fez que seria errado colocar no papel, não traduziria . Nunca mais vi ou ouvi falar dele, mas muitos outros amores impossíveis vieram. Todos eles levaram um pedaço do coração – gosto de pensar que pra Islândia, por que não?  Achei que catorze anos mais tarde estaria livre da espécie. Errada, não teria como eu estar mais errada.

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Catorze anos depois e eu aqui, vivendo mais um amor que na verdade, é bem possível, igualmente singular. Acho que a pior parte é o fato de ser absurdamente possível e mesmo assim não acontecer. Daí a coisa toda se torna uma amizade, mesmo com os dois sabendo que poderia ser muito mais do que isso, mas o trauma fala mais alto e aí, meu bem, fica sem grandes chances de acontecer. Sem grandes chances de ter uma chance. Chance, essa palavra que em português significa uma possibilidade dada e que em francês significa sorte, o acaso. Quem sabe com um pouco de sorte e uma possibilidade.

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O acaso, ele que sempre se faz presente para me mostrar tudo aquilo que faz parte de mim de uma forma tão delicada, às vezes não se contém e me traz também esses amores impossíveis. Tudo bem, nunca gostei muito do possível.

Nunca pude agradecer ao Pedro, nem pelo presente, muito menos pelas palavras bonitas e honestas ou ainda pelo quase-amor. Agradeço pela poesia que amores assim carregam e fazem perder o sono e a razão. Quando escuto Smiths – e o faço sempre – lembro não apenas do Pedro, mas da possibilidade de amores impossíveis.

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