Você merece mais

O cenário era uma pista de dança, mas poderia muito bem ser uma feira ou uma praça, porque o contexto não fazia muita diferença na minha aflição. Eu olhava o celular em intervalos de 5 minutos, quase que cronometrados. O aparelho parecia pesar uma tonelada nas mãos e eu não conseguia relaxar nem com um exorcismo.

– Tati, você merece coisa melhor, meu bem.

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Era uma das minhas melhores amigas que segurava delicadamente o meu pulso. Eu me senti mal demais e a preocupação dela era real demais também. E eu desabei ali mesmo. Acho que já perdi as contas de quantas vezes ouvi meu amigos falarem essa mesma frase pra mim. Faltariam dedos, das mãos e dos pés, para contar o tanto de vezes que vi neles uma expressão que já me é muito familiar – o olhar de “se eu pudesse, sofreria tudo isso por você”.

Se você já me leu por aqui antes, já deve imaginar do que se trata, não é? Se você é novo eu explico, mas para isso vou ter que voltar um pouquinho no tempo. Eu sofro de algo conhecido como “síndrome do dedo podre” – que nada mais é do que ter o dom incrível de gostar exatamente de quem não gosta de mim. Eu não faço ideia se essa condição médica existe na vida real, mas deveria porque eu vivo isso na pele desde que tenho 14 anos.

Verdade seja dita: eu não relaxo com a minha vida amorosa tem bem uns 15 anos e isso me deixa quase maluca. Eu não tenho do que reclamar, minha vida é boa. Tive a chance de estudar em bons colégios, estou na minha terceira graduação e até mesmo com a tal da crise, não passei muito tempo desempregada. Mais do que isso, eu tive a sorte incrível de ter na minha vida os amigos mais maravilhosos que existem. E quando pessoas tão boas assim fazem parte da sua vida, elas se preocupam com você e sofrem junto com o seu sofrimento. Ninguém quer ver amigo algum na pior.

No dia eu sofria um absurdo por um quase-amor, desses que tinha todas as chances possíveis para funcionar, mas que por um trauma aqui, um desinteresse ali, não saiu de longas e gostosas conversas – das quais sinto uma falta que nem cabe direito no peito. Você pode até rir do outro lado da tela, mas eu sinto como se tivesse terminado um namoro. E foi nesse exato momento que essa amiga perdeu a paciência e fez isso por não aguentar mais me ver daquele jeito sofrido ano após ano.

– Você gosta de sofrer, não é possível!

Conversamos muito depois disso porque desabamos juntas. Se não é fácil ouvir isso, imagina ter que falar essa frase pra alguém que você ama. Não vou dizer que ela tem razão porque a coisa toda é mais complicada do que isso, mas percebi que daria para ter diminuído consideravelmente o tamanho desse sofrimento todo.

Claro, nesse caso em especial, era uma série de coisas que doía, mas acredito que a maior delas seria o trauma de sempre viver histórias tristes de amor. Mas seja como for, no dia seguinte eu tive uma epifania (nunca imaginei que escreveria isso, socorro) às 3h37 da madrugada. Fui juntando traços da minha personalidade aqui e ali e entendi que, justamente por ser uma área tão complicada da minha vida, eu crio expectativas altas em alguns caras. E venho fazendo isso desde a minha primeira decepção amorosa. Sofri passionalmente por pessoas que, honestamente, não estão ou estavam nem aí pra mim.  E foi aí que criei uma teoria que envolve alguns passos e itens.


Primeiramente, Fora Temer.

Em segundo lugar, é importante entender alguns sinais que a pessoa passa para você, que podem demonstrar um certo desinteresse. Às vezes é difícil demais diferenciar, mas entenda: se a pessoa quiser mesmo, ela vai demonstrar isso. Não importa o quão tímida e introvertida a pessoa possa ser.

Depois: trate as pessoas exatamente do jeito que elas te tratam – claro, se a pessoa for babaca, não seja babaca também, se imponha e se defenda sempre, mas nada nunca justifica babaquice. O que eu quero dizer é que você deve ter o mesmo esforço pela pessoa que a mesma tem por você. Isso ajuda a manter as expectativas no cantinho da vergonha.

Eu não estou, de forma alguma, tentando diminuir o que você sente, mas sim colocar em uma perspectiva real a pessoa por quem você sente.

Por último, não espere nada de ninguém. É um exercício e como tal precisa de muita prática, mas é possível. Crie um gaveta mental aí dentro que seja exatamente do tamanho daquilo que a pessoa te entrega e tem para oferecer. O espaço pode aumentar ou diminuir com o tempo, mas o que importa disso tudo é que não depende só de você. Eu muito bem sei o quanto é difícil e doloroso esse processo todo de se frustrar no amor, mas pelo menos assim você consegue diminuir um pouco o que tanto dói aí. E seguimos no modo AA, um dia de cada vez porque isso sempre passa – é como dor de tatuagem, se a gente lembrasse o quanto dói, não faríamos a segunda, a terceira, a décima primeira.

Se quando o Grupo Revelação disse para você “deixar acontecer naturalmente” e você não quis ouvir porque era cafona, escute o que o Tame Impala tem a te dizer então:

Brincadeiras de tio à parte, eu espero que você, seja lá quem for, seja muito feliz e que isso tudo te ajude a enfrentar momentos de coração espremido.

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