Precisamos falar sobre 2016

Eu ando com dó da pessoa que vai ter que editar a retrospectiva do ano 2016. Mas também não sei o que a gente esperava de um ano que mal começou e já morreu ninguém menos do que o David Bowie. Depois disso a coisa toda foi meio que ladeira abaixo.

Eu também imagino que vai ser uma loucura ensinar História Contemporânea do Brasil daqui alguns anos, especialmente no que diz respeito à política. Em 2016 a gente viveu um golpe de Estado e, se por algum motivo você ainda acha que não foi, é preciso ler mais sobre esse assunto. E eu digo ler de verdade e não se informar por páginas tendenciosas do Facebook e nem acreditar em tudo que mandam para você no grupo da família no Whatsapp. Mas tudo bem, quem não está confuso esse ano, não está mesmo bem informado.

Nesse ano também senti que a intolerância das pessoas se agravou, parece que ao invés de evoluirmos, estamos em marcha ré com destino para 1964 – e me refiro não apenas ao cenário político do Brasil e do mundo, mas também a questões sociais e econômicas. Parece que, em 2016, o mundo inteiro pendeu mais para o lado direito e não consigo ressaltar o quanto isso me preocupa. Mas chega de política, tenho certeza que todo mundo vai ter um final de ano agitado nas discussões familiares no meio da ceia.

O mundo presenciou também tragédias que mudaram o curso da história, mas que tragédia também não muda tudo? Mesmo os pequenos desastres pessoais são capazes de mudar o presente e o futuro. A única coisa que a gente não consegue mudar mesmo é o tal do passado. Seja como for, não foi um ano fácil pra ninguém. Lidamos com metade do globo em crise econômica, política, social ou, em alguns muitos casos, todas as alternativas juntas. A crise dos refugiados na Europa mostrou que a humanidade sabe ser muito cruel, mesmo com quem já vive um verdadeiro terror em seus países de origem. Claro, nem sempre é tudo horrível, mesmo com esse cenário tenebroso, muita gente foi capaz de mostrar que dá pra manter um pouquinho de fé na humanidade.

No quesito amor, senti que esse ano acumulou mais um tanto de decepções e não digo isso apenas de mim mesma, eu escutei muita gente contar não tem sido fácil amar. Como é que pode ser difícil amar, não é? Um dos sentimentos mais primitivos do ser humano e ainda assim, em 2016, amar foi sofrido. Uma geração inteira de pessoas com traumas, dificuldades em demonstrar sentimentos e um talento em não conseguir dizer a verdade. Ouvi, vezes por demais, pessoas reclamando que tem muita gente por aí que não tem o menor respeito pelo sentimento alheio.

Aprendi que nem sempre que alguém diz que gosta de você e até mesmo que gostaria de estar contigo, quer mesmo dizer isso – muitas vezes essa pessoa em questão só precisa de você ali porque sabe o quanto você gosta dela e precisa que você fique por perto, mas não muito, apenas para inflar o ego dela. E isso é triste demais.

Pessoalmente, eu senti que esse foi um ano em que todo mundo se permitiu ser mais egoísta e egocêntrico, em todo tipo de situação. Na política, especialmente do Brasil e dos Estados Unidos, a maioria tomou decisões pensando apenas no próprio umbigo, pensando somente naquilo que traria benefícios próprios. Na Europa, as pessoas que se opuseram a receber refugiados também foram muito egoístas e, ironicamente, o continente deles foi historicamente o que mais enviou refugiados pós-guerra para países do mundo todo.

Quando o assunto foi a descriminalização do aborto colocaram uma bancada evangélica, composta por homens, para decidir. E quando ficou decidido que abortar até os primeiros 3 meses de gestação não seria crime, um pessoal lá do Facebook lançou a campanha “hoje tenho x anos, mas já tive 3 meses #movimentoprovida” e esqueceu que descriminalizar o aborto não é sobre eles ou o que eles acham e sim sobre a vida de milhares de mulheres que correm risco de morrer todos os dias em clínicas e métodos clandestinos e que essa decisão pertence a elas e somente a elas.

A questão toda de pensar apenas em você mesmo afeta todo e qualquer tipo de relação humana, muda completamente a forma como sentimos e nos permitimos sentir. Seja entre amigos, em um relacionamento amoroso, na família e com pessoas que você nem conhece, se você não consegue pensar nas suas atitudes e no que elas podem resultar, tanto para você quanto para o resto do mundo, a coisa toda complica. A minha retrospectiva desse ano que pesou muito é de que as coisas seriam muito melhores se a gente não olhasse somente pro nosso umbigo, não importa o quão bonitinho ele possa ser.

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