Amores anônimos

Eu não entendo muito o amor, não sei do que vive, de onde vem e muito menos para onde vai. Sei que ocupa espaço, que mexe com todas as células do corpo. E se a falta dele nos deixa com cores menos humanas, o entendimento de que o bicho está ali deixa tudo com um colorido diferente, mais intenso. Mas como eu disse antes, nunca sei de onde vem.

Em algum desses sábados gelados achei que era uma boa ideia levantar, deixar que o dia começasse de uma vez. Levanto, abro a porta e volto correndo para a cama, decidida de que a camiseta de banda que eu chamo de pijama não era páreo para o frio de um dia cinza. Agora sim, enrolada no cobertor, decido que um café só iria ajudar naquele momento. Água fervida, filtro, pó de café e aquele cheiro gostoso do meu vício recém passado. Foi aí, com a caneca em uma mão e a outra que segurava a coberta em volta de mim mesma que percebi o elefante branco parado no meio da minha sala. No dia anterior ele não estava ali, nem na semana passada.

Achei que poderia ser só impressão, quem sabe se eu voltasse a dormir ele desaparecesse por conta própria. Deixei a caneca no criado mudo e me cobri por inteiro com as cobertas como a criança que se esconde do fantasma do corredor. Mas de nada adiantou, o elefante continuava na minha sala e eu sabia muito bem porque ele estava lá. Acontece que elefantes não passam pela porta de entrada, muito menos cabem em elevadores. O jeito era aceitar que ele estava lá, que já era tarde demais para fugir dele. Isso não quer dizer que não poderia (tentar) ignorá-lo.

Continuo o dia como se nada tivesse acontecido, como se eu não soubesse. Recebo uma mensagem no telefone e me pego sorrindo sozinha no meio da rua. Frio na barriga, coração que não sossega no peito. Mas que droga de elefante. Respondo a mensagem com um “te vejo mais tarde então”, e sinto as asas das borboletas que carrego no estômago fazerem cócegas.

Me peguei sorrindo de novo e pensei que talvez fosse algo realmente bom, como nos filmes. Sigo carregando esse sorriso e penso até em te contar. Contar que sinto tudo isso por você e me sinto leve. Passo o resto do dia perdida entre muitos pensamentos bons sobre eu e você e acho mesmo que devo falar a plenos pulmões.

Subo as escadas e você está na porta, me esperando. O frio na barriga agora parece glacial, sorrio feito boba, sei que sim. Mas paro quieta, muda. Você, sempre educado, me pergunta se estou bem e respondo que sim. Mas acontece que não tem elefante algum na sua sala, só tem na minha.

Então engulo o que queria tanto falar e vemos um filme.

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