Feminismo e empoderamento

Hoje em dia é comum ver feministas falarem de empoderamento no sentindo estético: “se empoderar é usar uma roupa e se sentir bela”, “passo uma maquiagem e saio me sentindo o máximo na rua”, “vou colocar prótese nos seios mas é para mim mesma, não para a sociedade: quero me sentir bonita e empoderada” e por aí vai e isso me entristece muito.

Entristece pois condiciona a felicidade e o empoderamento à aparência, entristece pois tem meninas que não tem dinheiro ou tempo para se emperequitarem, entristece pois o papel da maquiagem, do salto e das plásticas na alienação feminina passam a serem proibidos de se questionar, entristece pois o individualismo passa a ser mais importante do que o coletivo.

Muitas vezes esquecemos de pensar que para que um tipo de beleza se torne padrão é necessário que outro tipo seja considerado como feio, como incorreto: não há como padronizar gordas como belas sem que as magras passem a ser vistas como indesejáveis: se todos os tipos físicos forem aceitos, a necessidade de adquirir artifícios para se adequar passa a ser nula e a indústria da beleza passa a não ter por que existir.

Já pensaram que se você condiciona a tua felicidade e satisfação a estar se sentindo bonita toda vez que você estiver por algum motivo “feia” (aquele inchaço da TPM, as espinhas depois de comer algo fora, aqueles quilos a mais depois da semana Natal/Ano Novo, quando a base acaba e você tá sem grana, quando o cabelo não tá num bom dia, quando não deu tempo de passar na manicure, e a lista aqui pode ser infinita) não importa quem você seja, tua trajetória, o quão querida, inteligente, competente ou generosa você é pois você estará se sentindo um lixo? Você vai evitar sair de casa esses dias, evitar conhecer pessoas novas e no fundo no fundo, você inclusive acha que não merece ser feliz como punição por ser esse monstro horrível.

Sempre que há um papo sobre “se amar como você é”, ele gira em torno de maneiras de se vestir, maquiar ou portar para “evidenciar suas qualidades e esconder os defeitos. E aquela menina que realmente é fora de um padrão e que não há maquiagem que a torne bonita, como fica no teu conceito de empoderamento? Sei que vão perguntar: “ui, credo, agora não posso nem me maquiar nem me sentir bonita?”. Pode, claro que pode. Ninguém aqui é criança que precisa bater o pé simplesmente porque foi questionada.

Também sempre me questionam, já que é muito difícil sair da caixinha do pensamento comum: “ué, e o que seria empoderamento pra você?”. Bem, pra mim uma mulher empoderada é aquela que sempre busca conhecimento sobre o que defende: aquela que procura livros sobre o assunto, que respeita o que a coleguinha que pensa diferente diz, que abre a mente e não fica nos clichês dos textos e frases prontas de militância frívola de redes sociais. Empoderada é a mulher que depois de muito tempo de desconstrução sabe que não é menos porque não passou um rímel (ou porque passou), é a mulher que sabe reconhecer um relacionamento abusivo e que se oferece para ajudar aquela amiga que está numa situação difícil. Empoderada é a mulher que sabe responder quando um cara fala bosta para ela ou pra outra mulher, empoderada é a mulher que não fica presa numa argumentação pobre e que não tem medo de discordar de pontos de vistas de suas “musas” militantes.

Antes que venham com o clichê do elitismo: há muito material tão acessível e fácil de ler quanto um textão de facebook por aí. Peça indicações de livros e textos pra mulherada que tá na luta faz tempo. Você mesma agradece.

Antes do meu filho, eu era a mãe perfeita

Às vezes eu paro para pensar: como é difícil ser a mãe que eu era antes de ter filho. Para começar, meu filho não ia precisar de chupeta. O ambiente em casa é tranquilo, logo ele seria um bebê tranquilo, mas não contava com a cólica. Quando ele chorou a primeira vez desesperado de dor, não tive dúvidas, ainda na maternidade pedi para que meu marido passasse numa farmácia e comprasse uma chupeta. Foram três modelos diferentes, até achar a que ele gostou. Uffa! Hoje ele está com 2 anos e 1 mês, continua com a chupeta (me condenem) e tenho planos de tirar depois do desfralde (siiim, ele ainda usa fraldas).

O segundo baque foi quando percebi que não tinha toda paciência do mundo para a exausta rotina de uma mãe-bebê recém-nascidos.  Gente, é surreal a carga de emoções e obrigações que surgem ao mesmo tempo. Me senti a pior mãe do mundo quando, depois de amamentar, fazer arrotar, trocar fralda, colocar para dormir, lavar louça, varrer o chão, passar pano, lavar roupa, entre outros afazeres da casa, eu sentava para comer, ver meu celular ou qualquer outra coisa e ele acordava. Sentia um gelo na barriga do tipo, não pode ser, não acredito que já acordou e eu nem fiz xixi, não tirei o pijama e do trajeto de onde eu estava até ele eu ia pensando “que saco, poxa só queria um minuto em paz”. Mas aí, era só chegar e ver aqueles olhinhos implorando um colinho, um chamego e ao mesmo que tudo passava, a culpa invadia a alma. Como é que pude pensar isso de um bebê? Isso acontece até hoje por inúmeros motivos.

Eu sempre gostei de cozinhar, nada gourmet, coisa simples mesmo. Mas isso, até a introdução alimentar. Como é difícil dar papinhas variadas (porque não pode repetir os legumes). Perdi o gosto pela cozinha em dois meses, haha. Me esforço ao máximo, mesmo, para que o Vitor tenha a melhor alimentação possível, mas tem dias que chega da escola e come pão, que ele adora, que o lanche da tarde é um bolo de chocolate, que ele não tá afim de comer e o almoço é um mamá. E mais uma vez, a danada da culpa invade a alma.

Mas aí a campeã de todas é a TV. Imagina que antes de engravidar meu filho iria assistir televisão antes dos dois anos. Nossa, eu pesquisava brincadeiras e atividades para passar o tempo com ele. Podem dar gargalhada. Com seis meses, quando voltei a trabalhar, e precisava trabalhar um tempo em casa, ele assistia TV porque eu precisava que ele se distraísse. E assim estamos até hoje. Ele assiste quando pede, assiste quando preciso fazer algo, assiste quando estou cansada, assiste porque assiste e pronto. E não, não sou a pior mãe do mundo por causa disso, apesar de me sentir assim às vezes.

Poderia passar horas escrevendo sobre coisas que jamais faria antes de ter filhos, mas com o tempo e conversando com outras mães, a gente começa a lembrar que é humana. Precisamos nos permitir mais, acreditar mais nas nossas escolhas e decisões como mães e mulheres. É insano querer acompanhar tudo que chega para a gente referente a maternidade.  Cada uma tem o seu jeito, sua rotina, suas crenças e hábitos. Você, e SÓ você, sabe o que é melhor para você e seu filho, e isso é o que basta.

Ainda tenho muito a melhorar, mas hoje já me permito deixar a casa bagunçada e ir brincar com ele, deixá-lo em alguma vovó e sair com o pai, deitar no tapete da sala e ver desenho junto (isso dura uns 3 minutos haha) sem me culpar pelo o que eu deveria estar fazendo ou não.

Na foto estou feliz da vida vendo o Vitor comer seu primeiro brigadeiro. Ele estava com 1 ano e 9 meses, mas e daí? Olha a carinha de delícia dele!

Foto: Marina Ferraresi Freiberger

Gato escaldado tem medo de água fria

Terça-feira, 18h20. Enquanto eu esperava minha irmã em frente ao estacionamento onde deixo o carro, um Fox prata foi se aproximando de onde eu estava e diminuindo a velocidade. Parou com o vidro do passageiro aberto e falou algo para mim. Nesse momento eu já tinha virado meu rosto para o lado oposto ao do carro, olhando só de “rabo de olho”*.

Assim que ele falou comigo, foi parando o carro a poucos metros de onde eu estava e, curiosa, olhei. Nisso vi que ele estava com o celular em um suporte desses usados para facilitar a visualização do aparelho. E nesse momento tudo ficou claro: o homem dentro do Fox era um motorista de Uber/Cabify checando se eu era a passageira dele. Por um pequeno momento me senti culpada, afinal, o moço estava apenas procurando a pessoa que fez o pedido. Mas nós mulheres temos que suportar tanta coisa na rua vinda de homens machistas que é totalmente compreensível desenvolvermos estratégias para evitar ao máximo que sejamos abordadas com cantadas, na “melhor” das hipóteses, e desconfiarmos de tudo e de todos.

E isso só confirma o que tem se falado nos últimos tempos: é complicado demais ser mulher em um mundo machista. Somos impedidas de viver sem preocupações, porque nunca se sabe se durante nosso trajeto vamos ouvir cantadas vindas de alguém passando de carro na rua ou se o cara que está andando atrás de nós é um estuprador ou apenas alguém indo para o mesmo lado que nós.

Na dúvida, melhor colocar todos no mesmo balaio: só quem já perdeu o número de quantos assédios já sofreu na vida sabe como é difícil tentar dar votos de confiança a um desconhecido.

 



*Se tem algo que fui obrigada a praticar, isso foi prever o que pode vir a seguir nessas situações, e desviar meu olhar pra outro lugar é uma das coisas que faço quando suspeito que alguém dentro de um carro ou na rua vai me assediar verbalmente. Não que surta muito resultado, mas é uma forma de me sentir menos “invadida”.

Seria mesmo Sophia Amoruso um exemplo de “girlboss”?

Ano passado tive a oportunidade de passar pela frente da Nasty Gal, que fica em uma região luxuosa de Los Angeles. Já conhecia a marca e por isso nunca me atrevi a entrar, já sabendo dos preços nada acessíveis para uma #girlquebrada. Isso não agrega nada no post, só queria contar mesmo.

Na mesma época, descobri o livro #GIRLBOSS e já comecei a ler. Gostei da história de Sophia, mas tudo o que eu pude pensar é que eu jamais serei como ela. Primeiro porque a personalidade dela é e sempre foi a de muitas pessoas que estão no poder: egoísta, prepotente, subestima os outros, abusiva, erra e nunca assume os erros. Aí eu me pergunto? Esse é o perfil de um chefe ou de uma #girlboss?


Não é novidade de que poder e dinheiro corrompem, por isso a política é tão zoada. No caso de Sophia, ela já nasceu “corrompida”.

A personalidade dela era perfeita para o sucesso, mas muitos só chegam lá com muito privilégio, algo que ela teve mas recusou a vida toda por achar que nada é o suficiente para ela, nem mesmo o sistema. Mas apesar da personalidade forte, com todas as escolhas que ela fez, ela tinha tudo para ser uma mendiga e não uma empresária de sucesso.

Para mim, o que aconteceu com Sophia foi o mesmo que aconteceu com todas as pessoas que cresceram profissionalmente no mundo da internet na década passada: timing. Foi a pessoa certa, do jeito certo, na época certa.

Quando as pessoas começaram a descobrir a internet como base de uma carreira, não muito tempo atrás, quem acreditou neste futuro deu certo. Sophia já se via sem saída, até que no colo dela estavam a ascensão do eBay, a popularidade do MySpace e uma vocação. Ou seja, não tinha nada a perder e de fato só ganhou. Nos tempos de hoje, em que qualquer pessoa pode ter um blog, uma loja online ou criar um aplicativo para celular, todo mundo quer viver disso, mas o diferencial é crucial.

Série

Estava empolgada para assistir a série Girlboss adaptada pela Netflix. De cara gostei do trailer, mas ao ver pela segunda vez achei a interpretação de Sophia um pouco forçada. Mas se a própria estava ali para guiar e aprovar a interpretação dos fatos, aceitei.

A série estreou em uma sexta-feira e terminei de assistir menos de 24 horas depois do lançamento. Não foi o que eu esperava antes de ver o trailer, mas superou ninhas expectativas de depois de ver o trailer. O começo foi difícil pois senti falta de vários fatos destacados no livro que precediam ao que foi escolhido para a televisão. Com o tempo, a série acabou prendendo a minha atenção e gostei bastante.

Sophia, a escrota?

No mesmo fim de semana de estreia eu vi garotas revoltadíssimas com a personalidade e as atitudes de Sophia durante o seu crescimento profissional. Sim, eu concordo con elas, mas não acredito que seja um fato para odiar como tudo aconteceu.

A história foi criada em cima de fatos verdadeiros, então não faz sentido a gente assistir esperando a protagonista perfeita, com problemas reais, injustiçada e que depois de muita batalha recebe o que merece, acompanhado de um príncipe encantado. Steve Jobs (RIP) e Apple tão aí para provar que mau caratismo também vence e ninguém odeia ele e a marca (alô, machismo).

A vida real não é assim. Mais do que isso, o mundo corporativo não é feito de pessoas de caráter exemplar. Elas existem, claro, mas deixar de falar sobre uma marca que conquistou milhões de meninas, que cresceu de forma estrondosa e que é sim um case de sucesso para empreendedoras, só porque não está de acordo com nossos princípios, é bobagem.

Esta forma de entretenimento informativo e educativo não significa que seja um exemplo e que é forma certa. Temos cérebro, temos capacidade suficiente para extrair as partes boas e ruins de cada história e absorver para uma experiência própria.

Se você acha que Girlboss não agregou nada em sua vida pessoal ou profissional, eu discordo de você. Use os defeitos de Sophia como uma lição sobre como não ser e não fazer. Quando você estiver em uma posição de poder, não seja Sophia, não seja o seu chefe que te fez chorar antes de dormir ou que te gerou uma gastrite. Não pense e não faça com que o sucesso só aconteça nessas condições e faça a diferença.

 

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Uma história de amor

:::Você levará, em média, 4 minutos para conhecer esta história:::

Há muito tempo atrás, eu tinha um amigo. Daqueles com quem você passa horas a conversar, sem cansar, sem bocejar. Geralmente nossos encontros eram em em cafés e, quando o estabelecimento fechava, seguíamos a noite em passeios de carro, que mais tarde ele me confessou, era apenas um jeito de prolongar o momento. Bonito, não? Falávamos de tudo, em especial, literatura. Saia de cada conversa com uma lista de autores para conhecer. Era incrível. Porque ele lia coisas que eu jamais teria conhecido se não fossem por aqueles encontros. Era fã de Wood Allen como ninguém e me fez redescobrir a paixão no cinema, já que eu estava sempre enfiada nos livros. Enfim. Essa pessoa, um dia, se declarou para mim, aquelas declarações de cinema mesmo, e vivemos 3 meses maravilhosos. Para mim. Para ele, nem tanto, acredito eu. Pois essa pessoa, tão maravilhosa, sumiu numa sexta-feira e nunca mais voltou. Todo esse blá-blá-blá, é só pra dizer que essa amizade e relação me deixaram muitas feridas, mas o melhor, deixaram autores e filmes incríveis.

 

 

E por que é que eu estou contando tudo isso? Bom, é só para dizer que esse “babaca” me contou certa vez que tinha uma pessoa, que eu não me lembro quem, pois minha memória é péssima, que comprava vários livros do Salinger, O apanhador no campo de centeio, deixava na sua casa e presenteava a todos que o visitavam. Vocês já entenderão onde quero chegar, ainda que essa introdução seja totalmente desnecessária. Eis que em 2011, eu me encontrei com Carta a D., um livro fininho, pouco mais de 70 páginas, que me tocou pro.fun.da.men.te. E, como ele é um livro de valor acessível, comecei a comprar em certa quantidade e a presentear algumas pessoas por aí. Quando eu o recomendo eu já alerto: Por favor, leia sem buscar nada, apenas leia. Pule a orelha, ignore a quarta capa e respeite o posfácio e notas. Se você quer saber do amor, leia Carta a D.

 

Foto de Daniel Mordziski – Editora Galillée

Ele começa assim:

“Você está para fazer oitenta e dois anos. Encolheu seis centímetros, não pesa mais do que quarenta e cinco quilos e continua bela, graciosa e desejável. Já faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. De novo, carrego no fundo do meu peito um vazio devorador que somente o calor do seu corpo contra o meu é capaz de preencher.”

Alguma dúvida do porque eu sigo a presentear as pessoas com Carta a D.? Ele tem um dos inícios de livro mais memoráveis de tudo que já li. Em um mundo repleto de relações líquidas, encontrar um Gorz ou uma Dorine é um puta-ato-de-amor e sorte. Espero que Dorine tenha recebido essa carta e que ela não tenha sido daqueles nossos escritos que morrem na gaveta. Pois percebemos no livro um desejo de redenção de Gorz, por muito ter negligenciado o papel de sua mulher em sua vida, é quase que um pedido de desculpa o livro. Aquela coisa, a dor da falta só faz falta quando já não há mais volta.

E por que é que eu lembrei do babaca lá de cima? Primeiro pela história de comprar diversos livros e, porque ao reler trechos de grifos hoje, encontrei esse, ao lado do nome dele e de mais uma pessoas doce aí:

“Antes de conhecê-la, eu nunca tinha passado mais de duas horas com uma moça sem ficar entediado e sem deixá-la saber que eu me sentia assim. O que me cativava é que você me dava acesso a outro mundo.”

 

André Gorz e Dorine Keir, Primeira dança.

Poderia ser uma história de amor, contudo a minha foi só decepção.

Muitas vezes eu fico a pensar, se essas pessoas pensam em mim, como lembro delas: com um suave aperto no peito, por tudo que acabou. Porque amar alguém, a mim, é além do físico, é um encontro intelectual. É abrir esse novo mundo, de que Gorz nos fala.

Bom, Carta a D. é uma declaração de amor, sabemos. Todavia é também um livro que fala da atividade da escrita na vida de Gorz, passando pela tarefa de escrever, esse momento de reclusão, que eu, particularmente, já vi acabar com inúmeros relacionamentos e, Dorine, traz a seguinte frase, dita a Beauvoir: “amar um escritor é amar que ele escreva”. Engana-se quem pensa que o livro fala apenas de “amor”. Ele fala de vida, de relações e da velhice. Um livro que traz a ficção da vida e a prolixidade do real.

Ao terminar a leitura, fiquei com aquela vontade de ligar para Álvaro de Campos e dizer:

– Oh, amigo, tu não falou que todas as cartas de amor eram ridículas? Leia essa aí.

Então, desejo a você, que agora me lê, não um grande amor, mas a experiência desse encontro. Que talvez, não seja com ninguém, seja em solitude e consigo mesmo.

André Gorz e Dorine Keir, em 1985 dans leur jardin à Vosnon (Aube). Cédric Philibert. Fonds André Gorz. Imec

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Vale dizer que Gorz era filósofo austríaco, foi seguidor e amigo de Sartre, trabalhou como jornalista em Le Temps Modernes e Le Nouvel Observateur. E foi considerado um dos principais inspiradores do movimento de Maio de 68 na França, tendo diversos livros censurados pela Ditadura brasileira, por considerar sua obra um material de conteúdo subversivo. Gorz é considerado um grande pensador e contribuiu no desenvolvimento de teorias para o marxismo-existencialista. Além de ter diversas publicações na área da filosofia e sociologia, dedicou-se também ao estudo ecologia.

André Gorz. Carta a D. História de um amor. Cosac Naify, 2006

 

A pessoa mais volúvel do mundo. Complexa e sem manual. Vivo de hipérboles, escrevo para aliviar a alma, ser lida é consequência e um prazer superficial.

Cinco ilustradoras para seguir no Instagram (parte 1)

Aqui no Quase Famosas a gente gosta de enaltecer o trabalho das garotas. Pois bem, como também gostamos muito de arte e ilustrações, decidi listar algumas das minhas ilustradoras preferidas que descobri no Instagram e por indicações de outras amigas artistas. Vamos começar?

 

1 – Nath Araújo

A Nath já divulga o seu trabalho há um tempo, não só no Instagram mas também em seu canal no YouTube. Nos últimos meses, vem ficando a cada dia mais conhecida pelas suas ilustrações retratando signos e com a série “Quem é você no Instagram”.

 

2 – Sirlanney

Ilustradora e quadrinista, Sirlanney ganhou popularidade com o seu livro Magra de Ruim, que hoje já conta até com uma parte 2. O trabalho dela pode ser encontrado nas redes sociais, com quadrinhos que fazem a gente se identificar (e muito!) e em sua lojinha!

 

3 – Sublinhando

Patricia Ieda faz os desenhos mais fofos que você vai ver hoje. Seus desenhos são compostos também de lettering em frases de motivação. O seu trabalho já é possível ser encontrado também em produtos com parceria com algumas marcas. Tem tudo lá na página dela!

 

4 – Luiza Alcântara

Luiza é supercaprichosa e seus trabalhos têm um estilo único. Em suas últimas publicações no Instagram e Facebook, ela vem mostrando o seu trabalho registrando famílias e casais através de pinturas fofíssimas. Seus desenhos podem ser encontrados também à venda em diversos produtos, clica aqui.

 

5 – Sibylline

Sibylline é francesa e tem o estilo um pouco parecido com o da Luiza, mas ela gosta de incluir muitos detalhes e cores variadas em suas pinturas. Como inspiração, ela foca bastante no tema “galáxia”. Ela tem um canal no YouTube e também comercializa produtos com a sua arte.

Gostou? Então se liga que esta é apenas a parte 1! Fique à vontade para indicar suas artistas preferidas pra gente divulgar por aqui!

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Amora: substantivo feminino

:::Você levará, em média, 2 minutos para ler este texto:::

 

Há alguns dias terminei a leitura de Amora, livro de contos da escritora Natalia Polesso.  Confesso que meu encontro com o livro foi de início pelo nome, Amora. Amor no feminino. Uma das minhas frutas preferidas também. Cativada por esse título, fui em busca de algo que me descrevesse o livro, mas sem spoiler.

Em síntese, o livro está dividido em duas partes: “Grandes e Sumarentas” – 22 contos e “Pequenas e Ácidas” – 11 contos, totalizando 33 contos de temática lésbica.  Interessante, mas não por isso.  Até porque o livro não é sobre homoafetividade, esse é apenas um “detalhe”.  O livro fala dos amores, das descobertas, dos encontros, das despedidas… da vida.

Eis que fui até a livraria e lá encontrei o livro, meio ao acaso. Um projeto editorial lindo, com direito a capa dura e tudo.  Não resisti, mesmo com a fila de leituras que me persegue, comprei-o ignorando a ordem de leitura e fui conhecer Amora. Agora estou aqui, escrevendo sobre essa coletânea incrível.

Amora é daqueles livros com os quais você certamente se identificará em algum momento. Seja com alguma história ou personagem. Os contos tem isso, de nos encontrarem. É daquelas leituras em que você se pega rindo sozinha, dá aquela olhadinha para o lado, para ver se ninguém no café percebeu o seu riso, mas quando vê, está novamente gargalhando sozinha. A escritora permeia seus contos com humor, sarcasmo e no meio disso tudo, inúmeros conflitos internos, e, claro, amores. Quem não tem o seu?

São Contos, oras. Concisos, mas nem por isso menores. Natália traz as descobertas, as angústias, as alegrias e os silêncios das relações em suas histórias. Repleto de sensações e sentimentos que atravessam as suas diversas personagens, femininas. Ela traz mulheres que amam mulheres, e isso é muito bacana, termos protagonistas mulheres. Por muito tempo eu escrevi minhas histórias trocando meus casais lésbicos por héteros e, lendo o livro, me senti uma completa idiota. É um livro de amor e não que esse seja romântico, pois muitas vezes a morte pode ser um puta-ato-de-amor. Já pensou nisso? Leia Carta a D., do Gorz e me entenderá. Voltando ao livro, esse é o amor visto por diferentes prismas, desde a doçura e ingenuidade do amor adolescente, a velhice ao lado de quem se ama, e isso não depende de gênero, entende? Ao terminar a leitura, se você é gay, terá a percepção de que a autora conhece bem o universo sobre o qual escreve, o que permite esse encontro mais próximo, para essa parte do público.

A escrita de Natália é delicada e ao mesmo tempo um soco no estômago.

É feminina, porra!

Bom, todas essas palavras, um quanto que confusas, foram apenas uma tentativa em te indicar uma leitura esta semana. Se meu humilde post não te convenceu a ler o livro, fica aqui o registro de que ele levou dois prêmios no Jabuti, o 1º Lugar em Contos e Crônicas e também o troféu de Escolha do Leitor.

 

 

A pessoa mais volúvel do mundo. Complexa e sem manual. Vivo de hipérboles, escrevo para aliviar a alma, ser lida é consequência e um prazer superficial.

[Resenha] A cor púrpura de Alice Walker

Como é que eu não li isso antes? Essa foi a pergunta que ficou martelando na minha cabeça durante toda a leitura de A cor púrpura. Lançado em 1982 e ganhador de um Pulitzer no ano seguinte, o romance da Alice Walker fala de discriminação racial, machismo e sexualidade.

A história se passa entre os anos de 1900 e 1940 no sul dos Estados Unidos e conta a vida de Celie, uma mulher negra, religiosa, que foi cotidianamente estuprada pelo pai e que casa-se para assumir o papel de mãe dos filhos do marido recém viúvo a quem ela chama de senhor. Com uma escrita seca, direta e praticamente sem correção para uma normal culta, a linguagem é bem mais próxima da verbal, como escreveria uma garota que deixou a escola cedo.

Alice Walker

Há vários assuntos que a autora toca e faz isso com uma maestria impressionante. Além de falar da condição da mulher negra naquele local e naquela data, ela também apresenta, a partir da personagem que deixa claro todo e qualquer pensamento para o leitor, uma espécie de linha de construção de como o amor e a sexualidade se desenvolvem e como nos tornamos quem somos.

Outro ponto que merece destaque é que, nos anos 80, Alice Walker criou uma obra que ilustra perfeitamente o conceito de sororidade, tão discutido atualmente. A relação entre as mulheres nesse livro é digna de observação e admiração: a amizade das irmãs Celie e Nettie, que tem como família apenas uma a outra; a forma como Celie compreende as atitudes da mãe – algo muito sútil (como tudo nessa obra), mas fundamental; a relação de Celie com Sofia – esposa do seu enteado (e melhor pessoa <3) – que mesmo em um momento em que a “sogra” parece agir contra ela, há um entendimento de contextos, estabelecendo assim uma irmandade e por último, a relação que Celie constrói com Shug Avery, a mulher mais linda que Celie já viu e amante do seu marido.

 

 

Separei alguns trechos, sem intenção de dar spoiler, mas para que seja possível sentir a intensidade da obra. (Atenção: possíveis gatilhos). Na segunda página, sim na S-E-G-U-N-D-A ela traz essa bomba, quem fala é o pai:

“ – O que a tua mãe não quer fazer, vais tu fazer. – E encostou-me aquela coisa à anca e começou a mexê-la e agarrou-me a mama e metia-me a coisa por baixo e, quando eu gritei, esganou-me e disse: – O melhor é calares o bico e começares a te acostumar. – Mas nunca me acostumei”.

No próximo trecho ela também fala do pai, mas mais importante que isso, é a percepção que ela tem dos gêneros masculino e feminino:

“Meu Deus. Hoje bateu-me porque diz que pisquei o olho a um rapaz. Pode ser que me entrasse qualquer coisa, porque não pisquei o olho. Nem sequer olho para homens. É verdade. Para as mulheres olho porque não tenho medo delas”.

Em um outro trecho, Celie descreve a aparência do enteado Harpo, que anda triste, sofrendo pelos abusos do pai e pelo amor de Sofia. Ela diz:

“Tem uns olhos tristes e com ar de quem anda a cismar. A cara dele começa a parecer-se com a de uma mulher”.

E aqui ela diz muito com duas frases. Quando ela fala que o rosto de Harpo começa a se parecer com o de uma mulher, não é um rosto com qualquer expressão, é um rosto carregado de dor. Celie, até esse momento da sua vida, jamais havia visto um rosto de homem com uma expressão triste, para ela, até então, um rosto de mulher é sinônimo de um rosto que sofre.

Deu para sentir? Espero não ter dado muito spoiler, e que tenha instigado a vontade de ler essa história tão incrível dessa escritora maravilhosa. #leiamulheres E até a próxima!

Adendo: Em 1985 Steven Spielberg dirigiu uma adaptação da obra para o cinema e embora, na minha opinião, Whoopi Goldberg tenha ficado perfeita como Celie, achei que o filme perde muito do livro, questões que envolvem o que eu mais gostei na obra: sororidade, sexualidade e independência financeira de Celie e uma das relações amorosas mais bonita que eu já acompanhei na literatura.

Amamentação como uma variação do verbo amar

No primeiro post falei da dificuldade em fazer meu filho pegar o peito nos primeiros dias de vida dele e meus como mãe. Logo que me trouxeram ele no quarto e o colocaram no meu peito, ele pegou e mamou gostoso o colostro (líquido que desce antes do leite). Porém, nas mamadas seguintes foi uma dificuldade só.

Nos três dias que passei na maternidade consegui amamentar muito pouco, a pega estava difícil, mas o que mais me incomodava era a pressão dos que estavam em volta. Cada hora era alguém que estava junto e no intuito de nos ajudar acabavam me deixando nervosa e consequentemente meu pequeno também.

No livro A Maternidade e o encontro com a própria sombra, de Laura Gutman (Aliás, muito bom. Estou lendo e será assunto de um post futuro) ela diz que todas as mães podem amamentar seus filhos. Que não é questão de técnicas, posições, etc., mas sim de amor. “Amamentar nosso filho será simples se nos dermos conta de que é semelhante a fazer amor: no princípio precisamos nos conhecer. E isso se consegue melhor sozinhos, sem pressa ”

Aprendi isso na prática. No dia em que tivemos alta da maternidade, a mistura de sentimentos era incrível. Feliz em poder ir para casa com meu pequeno, mas ao mesmo tempo com medo de como seria a vida sem todo o apoio que recebi na maternidade.  Mas é em casa, que de fato as coisas começam a acontecer.

Na primeira tentativa, no mesmo dia, em que estávamos SÓ eu e ele, no nosso cantinho, silêncio, olho no olho, sem pitacos e dicas, nós nos acertamos. Ele conseguiu pegar, eu consegui segurar ele e o peito, foi lindo! Nos demos tão bem que não tive problema nenhum com bico rachado (usei uma bucha vegetal durante a gestação para engrossar e evitar a rachadura), mastite ou qualquer outro problema.

Minha dica: tenha calma e paciência, você e seu filho (a) estão aprendendo juntos. Tudo que é feito com amor e carinho, flui.

 

 

Talvez você não seja tão legal assim

Pode até ser que você seja, mas se você tem tanta certeza assim de que é a pessoa mais legal, correta e decente que você mesmo conhece, tenha mais certeza ainda de que algo está bem errado. Calma, não tenho a intenção de ofender ninguém, mas esse é um questionamento que todo mundo deveria fazer o tempo todo.

É muito fácil ser desconstruído, descolado, jovem da geração Y (ou qualquer que seja a letra do alfabeto), especialmente se você é privilegiado em algum sentido. Sua vida é mais fácil do que a de muita gente e se te dói ouvir isso, eu sinto muito, mas privilégio é isso meu bem.

Acontece que a gente sempre precisa ser humilde o suficiente pra entender que talvez possa estar fazendo algo de errado e então mudar isso da forma como for preciso. Poucas pessoas têm a sorte de ter uma criação livre de preconceitos e estereótipos, mas isso também não pode ser usado como desculpa.

Crianças crescem com a certeza de que rosa é cor de menina e azul é cor de menino. Futebol? Coisa de moleque. Boneca? Guria. Menino chorar? Não pode. Falar sobre os seus sentimentos? Coisa de mulherzinha. Magro? Bom. Gordo? Ruim. Negro? Pobre. Asiático? Japa. Mulher? Frágil. Homem? Macho. Gay? Errado. Essa lista de absurdos infelizmente é muito mais extensa do que isso.

A coisa toda se repete tantas vezes e ao longo de vários anos, que se torna uma verdade para algumas pessoas. E é realmente um processo longo para desconstruir esse monte de mentira que passaram uma vida inteira contando para as pessoas.

Mas a pessoa que se considera o melhor e mais evoluído ser humano do planeta pode estar sendo preconceituosa e ruim com os outros, sem nem perceber e pelo simples fato de alguns valores estarem incrustados nela a ponto de passar batido. E todo mundo pode errar, até a pessoa mais livre de preconceitos e julgamentos que você conhece.

Às vezes o cara pode se considerar super ~desconstruído~ mas sem pensar muito faz uma comentário completamente sexista. A menina pode ser incrível, mas chamou outra mulher de vagabunda – pense, uma mulher fazendo comentário machista é de querer deitar no meio da rua e chorar. Tem gente que teve uma educação super privilegiada, fez intercâmbio, foi pra Disney mais vezes do eu fui à praia, mas na hora de se referir a alguém negro chamou de ‘moreninho’. O cara pode ser uma pessoa gente boa, mas falou que moda era coisa de ‘viadinho’.  A pessoa pode ser ótima, mas falou que todo asiático é igual. O moço pode ser muito culto, mas postou meme na Internet sobre todo árabe ser terrorista.

Se essa lista, que convenhamos foi apenas um pequeno exemplo de quão horroroso o ser humano consegue ser, soou como brincadeira ou bobagem para você, com certeza você não é tão sem preconceitos assim e nem tão legal.

Vou repetir, todo mundo está sujeito a isso e justamente por esse motivo, a gente precisa sempre olhar pro próprio umbigo e perguntar: Em que eu poderia ser melhor como pessoa? Isso é preconceito? Tá certo isso que eu penso? Essas dúvidas são bem importantes nesse processo de evolução como ser humano. Ficou com dúvida? Chega e pergunta com educação, que além de não ofender, contribui para deixar a sociedade menos horrível.