Sufoco

São as costas que não param de doer, não param nunca. Toma um remédio, dois, três, alonga, dorme, caminha, descansa, trabalha e não melhora. “Onde dói?”, o médico pergunta. Dói tudo. Cabeça, pescoço, ombros, braços, cotovelos, mãos, dedos, lombar, quadril, pernas, pés. Dói tudo, doutor. “Mas onde é o foco?”, ele pergunta. O foco é o meu corpo, meus músculos, todos retorcidos dentro do meu corpo, pulsando, machucando, incomodando em todas as horas do dia. Ler dói, ver filme dói, trabalhar dói, ficar deitada olhando pro teto dói.

Não quero ir na baladinha, fico triste de ter que sair da cama, fico com o estômago revirado de tantos remédios, me sinto culpada de não ter lavado a louça, de não ter estendido a roupa. Nessas horas eu queria chamar minha mãe, mas pra isso eu precisaria de um médium muito empenhado em contatá-la em outro plano, e eu não quero incomodar a minha mãe, que repousa em outro plano, com esses problemas do cotidiano. “E seu pai, Mariana?” hahahahahah

E tem gente pior que eu, é claro que tem, nunca a gente tá no fundo do poço porque nunca vai existir a pessoa que seja a-mais-fodida-do-mundo. Mesmo que a pessoa se sinta assim, ela vai olhar pro lado e encontrar alguém pior. E essa pessoa pior vai olhar pro lado e encontrar outra pior ainda. Somos todos fodidos.

Mesmo sabendo disso, surge aquela vontade de entrar embaixo do cobertor e mandar todo mundo embora, pedir silêncio e esquecer por alguns vários momentos que as contas estão acumulando, que o cabelo tá uma desgraça, que precisa lavar o banheiro, que a tia avó vai operar, que o boy da amiga ainda tá tratando ela igual lixo e você não sabe o que fazer pra ficar tudo bem, pra ficar tudo em paz.

E mesmo lá, deitada, longe de tudo, as costas doem. Puta que pariu, como doem.

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Aconteceu ontem

Uma filosofia que sempre ajuda quando passamos por uma situação difícil é o mantra “vai passar”. E passa, né? Pé na bunda, desemprego, brigas, dívidas e aquela sensação de “o que eu estou fazendo da minha vida?”. Passa porque, assim como os ferimentos físicos, os ferimentos emocionais cicatrizam, vão curando aos poucos até que, de repente, não está mais lá. É só buscar ajuda, tratar o ferimento e se empenhar em mudar a situação. O máximo que sobra é uma cicatriz, que vai se apagando com o passar dos anos. Vai passar.

Nos últimos anos, no entanto, eu descobri que existe uma dor que, diferente de todas as outras, não cicatriza. Ela ameniza, mas é mais parecida com uma doença autoimune: é só surgir um momento de fragilidade que reaparece, forte como nunca, como se estivesse lá o tempo todo, só esperando o momento certo de atacar.

Há quase três anos eu estou de luto pela minha mãe e quando eu digo isso não é porque todos esses dias eu estava de preto, chorando e sofrendo. Nesse período eu troquei de emprego, saí de casa, mudei amizades e cresci. Tive dias bons, dias ótimos, mas em alguns dias parece que aconteceu ontem. A dor surge na mesma intensidade do dia em que eu tive que me despedir dela no cemitério.

E é difícil, muito difícil, explicar para alguém porque eu estava chorando loucamente como se eu tivesse acabado de perder a minha mãe sendo que poxa, já faz quase três anos. O mundo espera que as pessoas que perderam pessoas agissem como se fosse qualquer outro tipo de dor, quando não é. Ela não acaba, não tem data de validade.

A maior parte dos dias a dor está lá, enfiada no fundo do armário e parece que a vida que eu vivia com a minha mãe era uma vida passada, que outra pessoa viveu. Em outros, parece que nada que eu tenho agora faz sentido se ela não está aqui. A tristeza toma conta de mim e eu me pergunto como já se passaram todos esses dias e como eu consegui dormir e acordar em todos eles num mundo em que ela não existe mais.

E, diferente de um ferimento físico, o luto não é perceptível. As pessoas ficam ao redor logo que acontece, mas passam uma, duas semanas e todos voltam a viver a vida normalmente, sendo que existe uma pessoa faltando, uma peça essencial que sumiu e não vai voltar. Eu tenho que ter uma força sobre-humana para lidar, dia após dia, com esse fato. Mas às vezes parece que aconteceu ontem.

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Para quem, assim como eu, passou por isso, saibam que podem entrar em contato comigo em qualquer momento, juntos somos mais fortes. Aproveito também para compartilhar um site que tem me ajudado muito a entender que eu não estou sozinha. 

Sim, eu li um livro de youtuber

Desculpa, mundo, eu li um livro de youtuber. E sim, eu tenho mais de 15 anos. E gostei. Foi mal, sociedade, mas todo mundo tem uns detalhes de personalidade que são reprováveis! Quem tem o gosto impecável pra todo tá mentindo e eu é que não caio nessa áurea cult hipster diferentão que só consome livros e filmes aplaudidos pela crítica especializada.

Em minha defesa, a youtuber em questão fala com o meu público, sabe? Nós, classe média de vinte e poucos, na faculdade ou recém formados, essas coisas. Além disso, até onde todo mundo sabe a Julia Tolezano não pagou um ghost writer, ela sentou a bunda na cadeira e escreveu. Agora vamos deixar de justificativas, né? Li Tá Todo Mundo Mal, lançado mês passado pela Companhia das Letras, e foi uma delícia!

Todas as páginas tem aquele jeitinho Jout Jout, então se você curte o canal, a chance de gostar do livro é bem grande. Cada capítulo é uma crise dela (já adianto que tem um capítulo chamado “crise do pum quentinho”, melhor título de capítulo) e é impossível não se identificar ao menos com um dos pequenos grandes dramas que são abordados.

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O começo foi um flashback para a minha pré adolescência! Nessa época da vida, eu juro pra vocês, a coisa MAIS importante do mundo é ter um namoradinho. Tudo que a gente faz é pra ser mais bonita, mais legal e mais apaixonante aos olhos dos meninos. Se a gente foge do padrão de beleza, somos renegadas, quando muito, ao posto de amiga. E isso é o fim do mundo. Ou a gente achava que era, até perceber que o futuro tava reservando coisas muito melhores do que rapazes de 13 anos com bigodinho fino.

A Jout Jout resume muito bem essa sensação boba e é incrível perceber como as grandes crises do presente se tornam bobagens no passado. Então, se você está meio desesperada(o) com a vida, o livro é uma ótima pedida. Ela também fala da crise de escolher o que quer fazer da vida, de quando ela desistiu de um emprego porque simplesmente viu que não era o que ela queria (sabemos que nem todos tem esse privilégio, afinal CONTAS, BOLETOS BANCÁRIOS INFINITOS) e várias histórias interessantes do namoro com o Caio.

Caio, aliás, é um ponto altíssimo do livro. A introdução feita por ele é de chorar de amores e é mágico ver o quanto os dois aprendem juntos na relação – é um exemplo de relação boa, construtiva, saudável. Vale olhar com atenção para a forma com que as pessoas crescem quando o namoro é bom.

Como nem tudo é perfeito, alguns momentos me causaram um pouco de incomodo porque ela passou a impressão de ser muito mimada, sabe? Mas assim, ela é um ser humano, tem defeitos e teve uma vivência diferente da minha, então tá tudo certo porque no fim das contas ela ajuda milhares de pessoas em crise e isso já torna Jout Jout maravilhosa.

Li o livro rapidinho, foi necessário apenas o horário de almoço durante uma semana. Recomendo fortemente que você reserve algumas horinhas da sua vida para ler Tá Todo Mundo Mal, especialmente se você está na bad e tá precisando colocar as coisas em perspectiva! Perca esse preconceito com livro de youtuber, pelo menos com esse. Tá bem? Então tá bem!

5 razões para comprar um e-reader

Antes de começar a lista, gostaria de deixar bem claro que até pouco tempo atrás não existia alguém mais avessa aos e-readers do que eu. Nunca tive vontade de comprar, minha irmã tinha um e eu sempre torci o nariz pra ele. Adoro estantes bonitas cheias de livros, adoro as capas, o cheiro de livro novo, a textura das folhas, os detalhes da diagramação… O conteúdo é o mais importante, claro, mas todos os detalhes dos livros impressos são mágicos para quem curte ler.

Comecei a considerar um e-reader depois que me mudei para um apartamento muito pequeno, já que deixei boa parte do meu acervo com a minha irmã e aqui os poucos livros que eu tenho já estão começando a ocupar espaço demais. Para me informar, fui  conversar com pessoas que possuem e-readers e percebi que mesmo as que são apaixonadas por livros viraram apaixonadas pelos seus kindles, kobos e afins.

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Na última semana, peguei emprestado o Kindle de uma amiga minha e, em poucos dias, já consegui amar todas as vantagens! Vou listá-las aqui para quem, assim como eu, não coloca muita fé em ler numa tela:

Dá pra ler com uma só mão

Isso faz muita diferença quando você tá com vontade de ler um livro durante o almoço, tomando um café ou realizando qualquer outra atividade que ocupe uma das mãos. Com a outra, é completamente possível segurar o e-reader e mudar de página.

É muito leve

E isso faz toda a diferença para quem viaja com frequência ou simplesmente gosta de sempre ter um livro na bolsa ou mochila. Já aconteceu muitas vezes de eu ler menos porque não queria carregar o peso do livro na bolsa e agora os problemas acabaram!

Você vai ler mais!

A mesma amiga que me emprestou o Kindle comentou de uma pesquisa que fala que leitores de e-readers leem mais. Não consegui encontrar a pesquisa para deixar o link aqui, mas percebi na prática que estou lendo bastante! Afinal, posso carregar ele para qualquer lugar e ler ao invés de ficar vendo o que vocês estão fazendo no Instagram.

Ocupa pouco espaço

Quando eu for muito rica, quero ter uma biblioteca enorme cheia de livros. Enquanto isso não acontece, preciso ser realista e admitir que no meu apartamento de um quarto é difícil guardar o acervo que eu gostaria de ter. Poderia até comprar os livros e doar logo depois de ler, mas isso exige uma organização que eu não tenho.

Acervo infinito e instantâneo

Gente, pirataria é feio, mas enquanto eu não tenho um Kindle Unlimited pra chamar de meu eu estou baixando livros e é muito fácil, sério! No site lelivros.online tem um acervo gigantesco e é possível baixar e colocar no e-reader em menos de cinco minutos! Para quem não curte pirataria, uma ótima opção é o Kindle Unlimited, que custa R$19,90 por mês. Fiz as contas e dá pra ter Netflix, Spotify e Kindle Unlimited gastando uns 60 reais por mês… Considerando que todos os serviços são ilimitados, acho bem justo.

Contem pra mim nos comentários sobre a experiência de vocês com e-readers e vamos trocar informações sobre o assunto! 🙂

 

 

3 passos para ser um homem melhor

O caso da menina de 13 anos que foi estuprada no RJ me fez passar dias pensando sobre o assunto e percebi que aconteceu o mesmo com muitas pessoas que eu conheço. Aconteceu o mesmo, inclusive, com muitos homens que eram avessos ao feminismo, mas aos poucos estão percebendo que sim, o sistema é muito cruel com as mulheres.
E sim, o sistema é formado por homens como os que estupraram a menina, mas também por homens que não cometem crimes horrendos, mas que de alguma forma contribuem para a manutenção desse sistema tão desumano, tão injusto. E é com esses homens que eu quero conversar hoje! Os bem intencionados, que entendem que existe um problema, mas que estão buscando formas de não ser mais parte do problema.

1. Ouça mulheres. De verdade!
Tem muito homem que fala que ama mulheres, respeita todas elas, mas adoram apontar o dedo para falar que elas estão erradas – mesmo quando o assunto em questão é pautado principalmente pela vivência das mulheres. Você não está na pele de uma mulher, não sabe o que nós vivenciamos diariamente, então tenha a humildade de parar e nos escutar de verdade, de peito aberto, sem julgamentos.
Converse mais com as suas amigas, namoradas, mães e parentes. Quando alguma mulher disser para você que determinada atitude é ofensiva, leve a sério. Respeite. Claro que nós não somos todas iguais e temos opiniões divergentes, mas com conversa você vai perceber que algumas coisas são ofensivas para quase todas nós, como por exemplo o assédio na rua.
Além disso, é importante você consumir obras de mulheres. Ouça músicas feitas por mulheres, leia livros escritos por mulheres, assista séries e filmes criadas e dirigidas por mulheres. Percebo que os meus amigos que fazem isso desenvolvem a empatia e se tornam pessoas melhores ao enxergar a realidade que eles não vivem. Aprenda conosco.

2. Coloque em prática o aprendizado
Não adianta ouvir as mulheres, fazer textão bonito no Facebook e continuar agindo da mesma forma que o patriarcado te ensinou. Corte expressões ofensivas do seu vocabulário, corrija os comportamentos que você perceber que são errados e faça o necessário para não ser parte do problema.
Algumas dicas bem práticas envolvem ações que você provavelmente nunca parou para pensar. Lembre-se, por exemplo, de quando você estava andando sozinho na rua à noite e ouviu passos. Você torceu para ser um homem ou uma mulher? Você rezou para não ser assaltado ou para não ser estuprado? Pois é. Você pode ser um anjo, mas para uma mulher desconhecida você sempre será percebido como uma ameaça. Para amenizar isso, atravesse a rua, fique no campo de visão dela, distancie-se para que ela fique mais tranquila. No transporte público a lógica também vale.
Claro que esse é só um dos exemplos, mas existem uma série de coisas que os homens não vivem e vocês só vão perceber que o problema existe quando ouvirem mulheres. Ouçam, aprendam, coloquem em prática.

3. Torne-se parte da solução
Ok, agora você já está ouvindo mulheres, levando em consideração o que elas falam e agindo de uma forma respeitosa. Legal, fez a sua obrigação. Agora, que tal deixar de ser omisso e começar a quebrar a corrente de machismo que existe entre os homens?
Sabe aquele seu grupo do Whatsapp que você deixou de ver porque é cheio de fotos de mulheres nuas que não foram autorizadas por elas? Aqueles seus amigos de infância que ficam fazendo piada machista toda vez que vocês se encontram? Não abaixe a cabeça com medo que eles pensarão que você é menos homem por não compactuar com isso. Abra a boca, aproveite que eles levam homens mais a sério do que mulheres para se posicionar contra esse tipo de comportamento.
Sua masculinidade não é tão frágil a ponto de você ser omisso por medo que os seus amigos pensem que você é menos homem por se incomodar com slut shaming, não é mesmo? Prove isso diariamente. Não seja amigo de caras que maltratam as namoradas, que abusam de mulheres, que fazem vídeos íntimos e divulgam sem o consentimento da mulher. Posicionar-se para outras mulheres é fácil, agora é hora de peitar os homens que contribuem para a cultura do estupro se perpetuar. Quebre a corrente.

Foto: Leo Correa/AP
Foto: Leo Correa/AP

Sabe bem o que está fazendo?

Quando eu tinha 13 anos, o maior objetivo de todas as meninas da minha idade era ter um namorado. Nos considerávamos adolescentes, crescemos assistindo filmes de princesa e achávamos que o nosso status aumentaria com a existência de um namorado. Na época eu me sentia feia, gorda e simplesmente odiável. Já tinha sofrido muito bullying e acreditava piamente que o fato de um menino gostar de mim me validaria. Acho que todas as meninas devem ter memórias parecidas com as minhas, não?

Se fosse um menino bonito e popular, ganharia pontos a mais. Se fosse mais velho, então, nem se fale: era normal que as meninas de 13 gostassem dos meninos de 15 ou 16, afinal os rapazes da nossa idade tinham aqueles bigodinhos estranhos e ainda estavam cheios de acne. Além disso, nas novelas a mocinha sempre ficava com um cara mais velho, não? Deborah Secco com o Zé Mayer era um dos casais que fizeram sucesso na minha época.

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Buscando a imagem do casal, lembrei que tinha violência doméstica também. Que bons exemplos, não?

Por isso, eu fiquei nas nuvens quando um menino mais velho, de 16 anos, veio conversar comigo num show. Nessa época eu ia bastante no 92 graus com a minha irmã e a minha prima (que são mais velhas que eu) e achei o máximo quando um piá de uma banda deu mole pra mim. Eu era absurdamente ingênua nessa época e acreditava que o menino poderia namorar comigo e, enfim, eu seria alguém.

Por sorte, o menino se afastou quando soube a minha idade. Por sorte, eu tinha uma irmã e uma prima ao meu lado que eram mais velhas e saberiam cuidar de mim mas do que eu. Por sorte, eu pude viver minhas paixonites sem maiores riscos durante a minha adolescência. Por sorte, não por juízo. Mesmo com uma boa educação, as pessoas de 13 anos não são lá muito espertas.

Por isso, hoje doeu na minha alma ler os comentários nos portais que noticiaram que o ex-BBB Laercio foi preso por estupro de vulnerável. A menina dava atenção pra ele? Dava, sim. Ela sabia o que estava fazendo? Até sabia. Ela tinha maturidade para entender as intenções dele e as extensões daqueles atos? De forma alguma. Se um menino de 16 anos teve a decência de não se relacionar com uma menina de 13, por que um cara de 50 anos não teve? E, pior, por que a sociedade acha isso normal e aceitável?

Só quem já esteve na pele de uma criança burra e insegura que faria de tudo pra ter um namoradinho e se relacionar com um cara mais velho sabe que qualquer pessoa de 13 anos é, sim, vulnerável. Se existe um adulto e uma criança, quem se responsabiliza é sempre um adulto. Sempre. Porque foi ela, mas poderia ter sido eu, uma amiga, alguém da sua família. E a culpa não seria nossa.

Tão bom o artista, tão ruim a pessoa

O que antes pra mim era um orgulho, se tornou uma vergonha: eu gosto dos filmes do Woody Allen. Gosto pra caramba, mesmo daqueles que a crítica fala que é mais do mesmo. Eu gosto do “mesmo” do Woody Allen, gosto dos diálogos, gosto da trilha sonora e dos dramas amorosos dos personagens. Até a escolha dos atores me encanta! Ele é um diretor incrível que influenciou muito o gênero de romance/comédia e assistir aos filmes dele foi, por muito tempo, um programa que eu gostava de fazer ao lado da minha mãe.

“Mas o que tem de vergonha nisso, Mariana?”, você deve estar se perguntando. Não é como se eu tivesse gritado na cara de um cinéfilo que eu amo as comédias do Adam Sandler, mas me envergonho como se fosse. Não pelos filmes, mas pelo Woody Allen. Quanto eu soube sobre a vida pessoal dele, mais eu me enojei. Pra quem não sabe, ele basicamente traiu a Mia Farrow com a filha adotiva dela. A filha de apenas 21 anos. Hoje eles são casados, e recentemente ele deu uma entrevista dizendo que ela “foi uma órfã vivendo nas ruas, morando em latas de lixo e passando fome aos 6 anos de idade até ser levada a um orfanato. Eu forneci a ela oportunidades incríveis e ela retribuiu todas elas”, como se tivesse sido ele, não a Mia, que salvou a Soon-Yi.

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Além disso, ele já foi acusado de assédio por uma das filhas da Mia Farrow e, olha, sinceramente, é um caso que é muito difícil desconfiar da vítima. Moral da história: eu tenho vergonha de gostar dos filmes do Woody Allen por ele ser uma pessoa escrota, que tem uma moral muito questionável. Como separar vida e obra?

O mesmo acontece com o Kanye West, cuja última polêmica foi com a música Famous, que basicamente diz que ele fez a Taylor Swift ficar famosas por causa da falta de respeito dele no VMA de 2010. Bom seria se fosse a única prova de que ele é um babaca, mas são tantas as pisadas de bola do Kanye que eu precisaria de um texto exclusivo pra falar sobre o assunto. É machismo, slut shaming e mais uma série de atitudes desprezíveis.

O problema é que, nesses dois casos, acho impossível negar a genialidade dos dois – e de outros artistas com o mesmo problema, como o Polanski. Como apreciar o bom trabalho sem acabar “aplaudindo” uma pessoa sem caráter? Já considero um avanço a gente problematizar a questão, mas é o suficiente? Devemos jogar o trabalho dos caras no lixo por causa da vida pessoal deles? Qual o papel da mídia e do público nesses casos?

(Não, esse texto não tem nenhuma solução. Sou apenas eu, incomodada com essa questão, mas sem saber direito o que fazer com isso. Por favor, continuem o debate nos comentários!).

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O jogo que ninguém vence

Não importa o seu status de relacionamento, você provavelmente vai concordar comigo: nunca foi tão fácil conhecer gente nova, mas também nunca foi tão difícil se relacionar com alguém. Temos em nossas mãos todas as ferramentas possíveis: Tinder, Grindr, Whatsapp e todas as outras redes sociais, mas mesmo com tanta tecnologia é quase impossível esbarrar com alguém que te proporcione bons momentos. Por que será?

Esses dias me mandaram o texto “Será que ela vai escrever de volta? Será que não?”,  do ator Aziz Ansari (de Parks and Recreation e Master of None) com colaboração do sociólogo Eric Klinenberg, e eu não consegui parar de pensar sobre ele. Trocando em miúdos, o estudo sobre relacionamentos na era digital compara a troca de mensagens de textos com uma máquina de caça níquel: a pessoa se torna viciada no imediatismo e surta quando a resposta não é imediata. Parece familiar pra você?

O resultado desse estudo diz, basicamente, que o nosso cérebro tende a se interessar mais por recompensas incertas, ou seja, por aquelas pessoas insuportáveis que respondem na hora e, do nada, somem por algumas horas (ou dias. Ou semanas. O ser humano não tem limites na hora de dar gelo). Novamente, você deve ter se identificado, afinal quem nunca ficou perdidamente interessado(a) em uma pessoa de comportamento instável?

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Deveria ser mais simples. Temos tantas chances de conhecer pessoas legais, mas ao mesmo tempo sabotamos tudo isso com joguinhos mirabolantes que, muito provavelmente, não levam a lugar nenhum. Todo mundo fala pra você ser você mesmo, mas como não jogar se qualquer demonstração de sentimento genuína é encarada como fraqueza e desespero?

Infelizmente, não tenho uma solução mágica para que isso se resolva (se tivesse, estaria riquíssima vendendo livros de autoajuda e passando as férias no Caribe), mas tenho a esperança de que, a partir do momento que a gente se torna consciente dessa cilada que o nosso cérebro apronta conosco, nos tornamos mais fortes para lutar contra o vício de só gostar de relações complicadas, de pessoas que não deixam claro o que sentem por nós.

Afinal de contas, se um relacionamento tem como base o joguinho amoroso, ele irá sobreviver somente quando as duas pessoas ficarem nessa dança estranha de aproximação e afastamento, porque assim que uma delas passar estabilidade e segurança, a outra está altamente inclinada à perder o interesse. Já as relações que já começam honestas, com as duas pessoas agindo de forma espontânea e sem muito overthinking sobre cada palavra ou gesto, crescem com uma base mais sólida. E aí, o amor vence o jogo.

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O peso do mundo

Sempre considerei uma qualidade a característica de ser uma boa ouvinte. Aliás, modéstia parte, acho que isso é um dos fatores que me torna uma boa amiga. Gosto de saber que eu sou uma das primeiras opções quando alguém precisa de uma ajuda, um conselho, me sinto bem na posição de ombro amigo para todas as horas. No entanto, nos últimos tempos eu sinto que isso já não está mais me fazendo bem.

Por um lado, é ótimo poder ouvir as experiências dos outros, levar alguns aprendizados pra vida e me sentir útil para o meu círculo de amigos. Por outro, eu sinto que existem pessoas que, de forma involuntária, acabam descarregando muita energia negativa pra cima de mim. É como se eu abrisse as portas para receber os problemas, as pessoas fossem lá e deixassem eles comigo. E aí fico eu, sozinha, com uma sala cheia de caixas de problemas profissionais, amorosos, familiares e uma porção de coisas que nem minhas são.

E, ao mesmo tempo que eu sou essa pessoa que ama ouvir, sou incapaz de falar muito. Às vezes pode até parecer que eu falo muito, e eu falo, mas dificilmente eu vou abrir a boca pra soltar uma angústia minha em cima de alguém. A impressão que eu tenho é que, ao levar minha caixinha cheia de problemas para alguém, eu estarei atrapalhando. O caminho oposto, no entanto, é corriqueiro.

No fim do dia, restam eu, minhas caixas e mais uma porção de caixas que foram aparecendo porque eu deixei e achei que seria inconveniente negar isso aos amigos. Fico com as minhas questões, as questões dos outros e não me sinto no direito de dividir esse fardo. E elas pesam, incomodam e eu não sei como me desvencilhar de tudo isso.

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Desapego digital

Esses dias eu decidi divulgar no meu Facebook a minha conta do Snapchat (@meioamarga, sigam lá) e, em pouco tempo, comecei a ver conteúdo de muita gente que eu não via antes. E, diferente de todas as outras redes, o Snapchat é muito mais íntimo, a impressão é que a pessoa está ali no sofá, do seu lado, conversando com você. E no caso de uma pessoa em especial, o meu único pensamento era “meu deus, como você é chato! Não só um pouco chato, mas muuuito chato!”.

E aí fiquei pensando nas tantas vezes que a gente segue alguém nas redes sociais por educação, sabe? Sem estar realmente engajado no conteúdo que aquela pessoa produz ou reproduz. No caso do Facebook é mais fácil deixar de seguir a pessoa sem que ela perceba, mas em outras redes o tal do unfollow por ser encarado como rejeição à pessoa. E às vezes não é isso, são pessoas que até são legais pessoalmente, mas que online são meio bosta.

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Só que se você for parar pra pensar no tempo em que você passa online e na quantidade de informação que passa por você, será que vale a pena mesmo seguir aquela pessoa mala só por educação? Vale a pena seguir aquela blogueira fitness que faz você se sentir mal consigo mesma só porque todo mundo segue e você acha que tem que saber o que ela está fazendo, afinal ela é “relevante”?

A gente já tem que lidar com tanto sentimento ruim na vida real, nas notícias do mundo (alô, política brasileira!), então por que seguir pessoas que, de alguma forma, te deixam com uma energia negativa? Conheço uma galera que segue webcelebridades só para falar mal, sendo que… Se você não seguir, é como se aquela pessoa simplesmente não existisse! E assim, sobra tempo pra gente consumir conteúdo de quem nos traz um sentimento bom, de gente que te ensina algo ou é relevante pra você.

Vamos praticar o desapego digital?