[Resenha] A cor púrpura de Alice Walker

Como é que eu não li isso antes? Essa foi a pergunta que ficou martelando na minha cabeça durante toda a leitura de A cor púrpura. Lançado em 1982 e ganhador de um Pulitzer no ano seguinte, o romance da Alice Walker fala de discriminação racial, machismo e sexualidade.

A história se passa entre os anos de 1900 e 1940 no sul dos Estados Unidos e conta a vida de Celie, uma mulher negra, religiosa, que foi cotidianamente estuprada pelo pai e que casa-se para assumir o papel de mãe dos filhos do marido recém viúvo a quem ela chama de senhor. Com uma escrita seca, direta e praticamente sem correção para uma normal culta, a linguagem é bem mais próxima da verbal, como escreveria uma garota que deixou a escola cedo.

Alice Walker

Há vários assuntos que a autora toca e faz isso com uma maestria impressionante. Além de falar da condição da mulher negra naquele local e naquela data, ela também apresenta, a partir da personagem que deixa claro todo e qualquer pensamento para o leitor, uma espécie de linha de construção de como o amor e a sexualidade se desenvolvem e como nos tornamos quem somos.

Outro ponto que merece destaque é que, nos anos 80, Alice Walker criou uma obra que ilustra perfeitamente o conceito de sororidade, tão discutido atualmente. A relação entre as mulheres nesse livro é digna de observação e admiração: a amizade das irmãs Celie e Nettie, que tem como família apenas uma a outra; a forma como Celie compreende as atitudes da mãe – algo muito sútil (como tudo nessa obra), mas fundamental; a relação de Celie com Sofia – esposa do seu enteado (e melhor pessoa <3) – que mesmo em um momento em que a “sogra” parece agir contra ela, há um entendimento de contextos, estabelecendo assim uma irmandade e por último, a relação que Celie constrói com Shug Avery, a mulher mais linda que Celie já viu e amante do seu marido.

 

 

Separei alguns trechos, sem intenção de dar spoiler, mas para que seja possível sentir a intensidade da obra. (Atenção: possíveis gatilhos). Na segunda página, sim na S-E-G-U-N-D-A ela traz essa bomba, quem fala é o pai:

“ – O que a tua mãe não quer fazer, vais tu fazer. – E encostou-me aquela coisa à anca e começou a mexê-la e agarrou-me a mama e metia-me a coisa por baixo e, quando eu gritei, esganou-me e disse: – O melhor é calares o bico e começares a te acostumar. – Mas nunca me acostumei”.

No próximo trecho ela também fala do pai, mas mais importante que isso, é a percepção que ela tem dos gêneros masculino e feminino:

“Meu Deus. Hoje bateu-me porque diz que pisquei o olho a um rapaz. Pode ser que me entrasse qualquer coisa, porque não pisquei o olho. Nem sequer olho para homens. É verdade. Para as mulheres olho porque não tenho medo delas”.

Em um outro trecho, Celie descreve a aparência do enteado Harpo, que anda triste, sofrendo pelos abusos do pai e pelo amor de Sofia. Ela diz:

“Tem uns olhos tristes e com ar de quem anda a cismar. A cara dele começa a parecer-se com a de uma mulher”.

E aqui ela diz muito com duas frases. Quando ela fala que o rosto de Harpo começa a se parecer com o de uma mulher, não é um rosto com qualquer expressão, é um rosto carregado de dor. Celie, até esse momento da sua vida, jamais havia visto um rosto de homem com uma expressão triste, para ela, até então, um rosto de mulher é sinônimo de um rosto que sofre.

Deu para sentir? Espero não ter dado muito spoiler, e que tenha instigado a vontade de ler essa história tão incrível dessa escritora maravilhosa. #leiamulheres E até a próxima!

Adendo: Em 1985 Steven Spielberg dirigiu uma adaptação da obra para o cinema e embora, na minha opinião, Whoopi Goldberg tenha ficado perfeita como Celie, achei que o filme perde muito do livro, questões que envolvem o que eu mais gostei na obra: sororidade, sexualidade e independência financeira de Celie e uma das relações amorosas mais bonita que eu já acompanhei na literatura.