Talvez você não seja tão legal assim

Pode até ser que você seja, mas se você tem tanta certeza assim de que é a pessoa mais legal, correta e decente que você mesmo conhece, tenha mais certeza ainda de que algo está bem errado. Calma, não tenho a intenção de ofender ninguém, mas esse é um questionamento que todo mundo deveria fazer o tempo todo.

É muito fácil ser desconstruído, descolado, jovem da geração Y (ou qualquer que seja a letra do alfabeto), especialmente se você é privilegiado em algum sentido. Sua vida é mais fácil do que a de muita gente e se te dói ouvir isso, eu sinto muito, mas privilégio é isso meu bem.

Acontece que a gente sempre precisa ser humilde o suficiente pra entender que talvez possa estar fazendo algo de errado e então mudar isso da forma como for preciso. Poucas pessoas têm a sorte de ter uma criação livre de preconceitos e estereótipos, mas isso também não pode ser usado como desculpa.

Crianças crescem com a certeza de que rosa é cor de menina e azul é cor de menino. Futebol? Coisa de moleque. Boneca? Guria. Menino chorar? Não pode. Falar sobre os seus sentimentos? Coisa de mulherzinha. Magro? Bom. Gordo? Ruim. Negro? Pobre. Asiático? Japa. Mulher? Frágil. Homem? Macho. Gay? Errado. Essa lista de absurdos infelizmente é muito mais extensa do que isso.

A coisa toda se repete tantas vezes e ao longo de vários anos, que se torna uma verdade para algumas pessoas. E é realmente um processo longo para desconstruir esse monte de mentira que passaram uma vida inteira contando para as pessoas.

Mas a pessoa que se considera o melhor e mais evoluído ser humano do planeta pode estar sendo preconceituosa e ruim com os outros, sem nem perceber e pelo simples fato de alguns valores estarem incrustados nela a ponto de passar batido. E todo mundo pode errar, até a pessoa mais livre de preconceitos e julgamentos que você conhece.

Às vezes o cara pode se considerar super ~desconstruído~ mas sem pensar muito faz uma comentário completamente sexista. A menina pode ser incrível, mas chamou outra mulher de vagabunda – pense, uma mulher fazendo comentário machista é de querer deitar no meio da rua e chorar. Tem gente que teve uma educação super privilegiada, fez intercâmbio, foi pra Disney mais vezes do eu fui à praia, mas na hora de se referir a alguém negro chamou de ‘moreninho’. O cara pode ser uma pessoa gente boa, mas falou que moda era coisa de ‘viadinho’.  A pessoa pode ser ótima, mas falou que todo asiático é igual. O moço pode ser muito culto, mas postou meme na Internet sobre todo árabe ser terrorista.

Se essa lista, que convenhamos foi apenas um pequeno exemplo de quão horroroso o ser humano consegue ser, soou como brincadeira ou bobagem para você, com certeza você não é tão sem preconceitos assim e nem tão legal.

Vou repetir, todo mundo está sujeito a isso e justamente por esse motivo, a gente precisa sempre olhar pro próprio umbigo e perguntar: Em que eu poderia ser melhor como pessoa? Isso é preconceito? Tá certo isso que eu penso? Essas dúvidas são bem importantes nesse processo de evolução como ser humano. Ficou com dúvida? Chega e pergunta com educação, que além de não ofender, contribui para deixar a sociedade menos horrível.

Crítica social foda

Você com certeza ouviu falar de ’13 Reasons Why’ se você faz parte do maravilhoso mundo das redes sociais. E não é pra menos, acho que todo mundo devia assistir a essa série porque ela é um mal necessário – porque acredite em mim, vai te fazer muito mais mal do que bem.

De forma bem resumida, a série fala sobre uma garota que se matou e deixou 13 fitas K7 contando quem foram os responsáveis por isso. Sim, é uma série sobre bullying, machismo e desrespeito e ela é difícil demais de assistir.

Ouvi muita gente dizer que essa é uma série muito adolescente, que é bobagem e acho que só é capaz de dizer algo assim quem praticou muito bullying e não tem coragem de admitir ou que não tem sensibilidade pra entender a importância disso tudo. E pra mim isso é um problema de proporções assustadoras.

O cenário pode ser o ensino médio de uma escola americana e os personagens principais são sim todos adolescentes. Mas, na verdade, a série fala sobre a forma como tratamos uns aos outros e como isso pode afetar as vidas de todo mundo. Muita gente fala que é besteira, que todo mundo passa por isso.

As pessoas são naturalmente maldosas, isso vale para todo mundo. Se você entrar em uma sala de jardim de infância vai perceber o quanto as crianças são más e é para isso, em teoria, que existe a educação.  Só que o bullying, o desrespeito, o preconceito não terminam quando o colégio acaba. E não terminam porque as pessoas saem quase sempre impunes de situações assim.

“Tudo bem você chamar alguém de gordo, tudo bem você chamar alguém de puta, de vagabunda. Tudo bem você chamar alguém com descendência asiática de japa, dizer que tem o pinto pequeno. Tudo bem você chamar alguém negro de macaco, tudo bem chamar alguém com descendência árabe de terrorista”. Tudo bem?! Não! Não pode ser que isso seja normal, mas as pessoas agem como se isso fosse só uma brincadeira, como se isso não tivesse efeito algum nas pessoas.

Ninguém sabe e nem nunca vai saber como é estar na pele de outra pessoa. Não tem como saber pelo que o outro passa, como é a vida da pessoa, os problemas dela, as delícias e os medos. Mas sabe, existe empatia, tem que existir sempre. Tá todo mundo junto nesse mundo de merda e ninguém tá preparado pra nada, o mínimo que a gente tinha que fazer é se respeitar. Não é nem questão de ser uma boa pessoa, é questão de ser humano mesmo.

Na série, a personagem principal passa por vários episódios de assédio e machismo. Ela é tratada feito lixo por vários caras – e essa é a realidade da maioria das minha amigas e inclusive minha. Quando ela encontra um moço legal, o trauma é tão grande, tão dolorido, que ela não consegue deixar de ver ele como todos os outros caras. Isso é um exemplo de como esse tipo de coisa não acontece e simplesmente passa. Esse sentimento fica, pesa, muda a forma como vemos a nós mesmos.

E pode ser que você seja uma pessoa ótima e sensata, que não julga ninguém e nem tem preconceitos (inclusive me adiciona se você for). Mas ver alguma coisa errada acontecendo e não fazer nada, é tão parte do problema quanto. É uma questão de ser próximo das pessoas também, próximo a ponto de conseguir entender quando alguém não está bem. Você pode até não entender o que ela está passando, mas você pode sempre ajudar.

Minha mãe, maravilhosa que é, tem uma regra de ouro e eu acho que talvez seja uma das coisas mais importantes que ela me ensinou: nunca faça para ou outros o que você não gostaria que fizessem para você.

Tudo que a gente fala para os outros afeta de alguma forma, seja ela positiva ou negativa. Então se tiver que falar algo, que seja um elogio – não custa nada e pode mudar o dia de alguém. Eu acho que gentileza é a coisa mais atraente que alguém pode ter.

Amores anônimos

Eu não entendo muito o amor, não sei do que vive, de onde vem e muito menos para onde vai. Sei que ocupa espaço, que mexe com todas as células do corpo. E se a falta dele nos deixa com cores menos humanas, o entendimento de que o bicho está ali deixa tudo com um colorido diferente, mais intenso. Mas como eu disse antes, nunca sei de onde vem.

Em algum desses sábados gelados achei que era uma boa ideia levantar, deixar que o dia começasse de uma vez. Levanto, abro a porta e volto correndo para a cama, decidida de que a camiseta de banda que eu chamo de pijama não era páreo para o frio de um dia cinza. Agora sim, enrolada no cobertor, decido que um café só iria ajudar naquele momento. Água fervida, filtro, pó de café e aquele cheiro gostoso do meu vício recém passado. Foi aí, com a caneca em uma mão e a outra que segurava a coberta em volta de mim mesma que percebi o elefante branco parado no meio da minha sala. No dia anterior ele não estava ali, nem na semana passada.

Achei que poderia ser só impressão, quem sabe se eu voltasse a dormir ele desaparecesse por conta própria. Deixei a caneca no criado mudo e me cobri por inteiro com as cobertas como a criança que se esconde do fantasma do corredor. Mas de nada adiantou, o elefante continuava na minha sala e eu sabia muito bem porque ele estava lá. Acontece que elefantes não passam pela porta de entrada, muito menos cabem em elevadores. O jeito era aceitar que ele estava lá, que já era tarde demais para fugir dele. Isso não quer dizer que não poderia (tentar) ignorá-lo.

Continuo o dia como se nada tivesse acontecido, como se eu não soubesse. Recebo uma mensagem no telefone e me pego sorrindo sozinha no meio da rua. Frio na barriga, coração que não sossega no peito. Mas que droga de elefante. Respondo a mensagem com um “te vejo mais tarde então”, e sinto as asas das borboletas que carrego no estômago fazerem cócegas.

Me peguei sorrindo de novo e pensei que talvez fosse algo realmente bom, como nos filmes. Sigo carregando esse sorriso e penso até em te contar. Contar que sinto tudo isso por você e me sinto leve. Passo o resto do dia perdida entre muitos pensamentos bons sobre eu e você e acho mesmo que devo falar a plenos pulmões.

Subo as escadas e você está na porta, me esperando. O frio na barriga agora parece glacial, sorrio feito boba, sei que sim. Mas paro quieta, muda. Você, sempre educado, me pergunta se estou bem e respondo que sim. Mas acontece que não tem elefante algum na sua sala, só tem na minha.

Então engulo o que queria tanto falar e vemos um filme.

Precisamos falar sobre 2016

Eu ando com dó da pessoa que vai ter que editar a retrospectiva do ano 2016. Mas também não sei o que a gente esperava de um ano que mal começou e já morreu ninguém menos do que o David Bowie. Depois disso a coisa toda foi meio que ladeira abaixo.

Eu também imagino que vai ser uma loucura ensinar História Contemporânea do Brasil daqui alguns anos, especialmente no que diz respeito à política. Em 2016 a gente viveu um golpe de Estado e, se por algum motivo você ainda acha que não foi, é preciso ler mais sobre esse assunto. E eu digo ler de verdade e não se informar por páginas tendenciosas do Facebook e nem acreditar em tudo que mandam para você no grupo da família no Whatsapp. Mas tudo bem, quem não está confuso esse ano, não está mesmo bem informado.

Nesse ano também senti que a intolerância das pessoas se agravou, parece que ao invés de evoluirmos, estamos em marcha ré com destino para 1964 – e me refiro não apenas ao cenário político do Brasil e do mundo, mas também a questões sociais e econômicas. Parece que, em 2016, o mundo inteiro pendeu mais para o lado direito e não consigo ressaltar o quanto isso me preocupa. Mas chega de política, tenho certeza que todo mundo vai ter um final de ano agitado nas discussões familiares no meio da ceia.

O mundo presenciou também tragédias que mudaram o curso da história, mas que tragédia também não muda tudo? Mesmo os pequenos desastres pessoais são capazes de mudar o presente e o futuro. A única coisa que a gente não consegue mudar mesmo é o tal do passado. Seja como for, não foi um ano fácil pra ninguém. Lidamos com metade do globo em crise econômica, política, social ou, em alguns muitos casos, todas as alternativas juntas. A crise dos refugiados na Europa mostrou que a humanidade sabe ser muito cruel, mesmo com quem já vive um verdadeiro terror em seus países de origem. Claro, nem sempre é tudo horrível, mesmo com esse cenário tenebroso, muita gente foi capaz de mostrar que dá pra manter um pouquinho de fé na humanidade.

No quesito amor, senti que esse ano acumulou mais um tanto de decepções e não digo isso apenas de mim mesma, eu escutei muita gente contar não tem sido fácil amar. Como é que pode ser difícil amar, não é? Um dos sentimentos mais primitivos do ser humano e ainda assim, em 2016, amar foi sofrido. Uma geração inteira de pessoas com traumas, dificuldades em demonstrar sentimentos e um talento em não conseguir dizer a verdade. Ouvi, vezes por demais, pessoas reclamando que tem muita gente por aí que não tem o menor respeito pelo sentimento alheio.

Aprendi que nem sempre que alguém diz que gosta de você e até mesmo que gostaria de estar contigo, quer mesmo dizer isso – muitas vezes essa pessoa em questão só precisa de você ali porque sabe o quanto você gosta dela e precisa que você fique por perto, mas não muito, apenas para inflar o ego dela. E isso é triste demais.

Pessoalmente, eu senti que esse foi um ano em que todo mundo se permitiu ser mais egoísta e egocêntrico, em todo tipo de situação. Na política, especialmente do Brasil e dos Estados Unidos, a maioria tomou decisões pensando apenas no próprio umbigo, pensando somente naquilo que traria benefícios próprios. Na Europa, as pessoas que se opuseram a receber refugiados também foram muito egoístas e, ironicamente, o continente deles foi historicamente o que mais enviou refugiados pós-guerra para países do mundo todo.

Quando o assunto foi a descriminalização do aborto colocaram uma bancada evangélica, composta por homens, para decidir. E quando ficou decidido que abortar até os primeiros 3 meses de gestação não seria crime, um pessoal lá do Facebook lançou a campanha “hoje tenho x anos, mas já tive 3 meses #movimentoprovida” e esqueceu que descriminalizar o aborto não é sobre eles ou o que eles acham e sim sobre a vida de milhares de mulheres que correm risco de morrer todos os dias em clínicas e métodos clandestinos e que essa decisão pertence a elas e somente a elas.

A questão toda de pensar apenas em você mesmo afeta todo e qualquer tipo de relação humana, muda completamente a forma como sentimos e nos permitimos sentir. Seja entre amigos, em um relacionamento amoroso, na família e com pessoas que você nem conhece, se você não consegue pensar nas suas atitudes e no que elas podem resultar, tanto para você quanto para o resto do mundo, a coisa toda complica. A minha retrospectiva desse ano que pesou muito é de que as coisas seriam muito melhores se a gente não olhasse somente pro nosso umbigo, não importa o quão bonitinho ele possa ser.

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O ano da saudade

A gente sempre brinca que o ano tá péssimo porque, convenhamos, é mais fácil sofrer coletivamente e chega a ficar engraçado o tanto de postagem sobre. Mas confesso que 2016 foi um ano denso, pesado e difícil demais. Tão difícil que me senti obrigada a colocar isso para fora.

É tão estranho porque eu mal vi o ano passar, mas ao mesmo tempo me peguei chocada ao perceber que já estamos em novembro. É isso, menos de dois meses da data de hoje e já vai ser 2017. E ao mesmo tempo que dá um alívio que esse ano vai terminar, bate um desespero de que o próximo seja ainda mais complicado.

Assim como eu gosto muito de montar a playlist com as melhores músicas do ano e também criar listas e mais listas contendo os melhores filmes e livros, também gosto de pensar que cada ano que passa meio que tem um tema, que ninguém definiu, apenas que se repetiu ao longo de 365 dias. 2015, por exemplo, foi um ano em que eu precisei ser absurdamente forte por uma série de razões, mas especialmente de saúde. E eu fui, cara, como eu fui. Mas eu fui tão forte que parece que esgotei a barrinha de energia e agora me sinto desmontando, aos poucos.

Se ano passado foi o ano da força, 2016 é o ano da saudade, definitivamente. Acho que nos meus 28 anos eu nunca senti tanta saudade de tanta gente ao mesmo tempo.

Eu odeio sentir saudade porque, em alguns casos, simplesmente não tem o que possa ser feito a respeito – tem vezes que a pessoa foi embora pra sempre e você nem teve a chance de se despedir. É uma saudade que não vai passar porque não existe forma de resolver isso.

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Tem outras em que a pessoa sumiu, desapareceu da sua vida depois de fazer parte da sua rotina diária, mas não está a muitos quilômetros de distância de você e o coração aperta porque parece tão fácil de se resolver, mas, ao mesmo tempo, não depende só de você.

Em 2016 eu perdi muito e muita gente que, honestamente, deixou um vazio dentro do peito. Teve dias em que me peguei chorando de desespero no chão do quarto, pensando comigo mesma que era isso, não tinha mais como sofrer porque tudo de ruim já havia acontecido e eu estava: errada. É claro que eu estava errada.

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E hoje eu percebi que tinha outra saudade dentro de mim. Acordei mas não senti vontade de levantar da cama. Olhei para as sombras da luz do dia que dançavam soltas no teto do quarto e senti uma saudade enorme. Tentei entender de quem eu estava sentindo falta assim. Não era da minha avó que foi embora antes que eu pudesse dar um abraço apertado – e disso vou me arrepender pro resto da vida. Não era do cara que ocupou o meu coração esse ano quase inteiro e que havia sumido do dia pra noite da minha vida. Não era do amigo que tá do outro lado do mundo, incomunicável e sabe-se lá até quando. Não, dessas pessoas e de mais um monte de gente, sinto falta 24 horas por dia. Dessa vez, eu estava sentindo falta de mim mesma.

Parece completamente ilógico sentir falta de você mesmo, eu sei. Mas foram tantas perdas e desencontros em tão pouco tempo que acabei me perdendo também. Sinto que ando uma companhia difícil de lidar porque parece que apagaram a luz aqui dentro, mas quem me conhece sabe: eu vou sair dessa. Enquanto isso sigo sentindo uma saudade que mal cabe dentro de mim.

Pela paciência e compreensão, eu agradeço e muito.

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Você merece mais

O cenário era uma pista de dança, mas poderia muito bem ser uma feira ou uma praça, porque o contexto não fazia muita diferença na minha aflição. Eu olhava o celular em intervalos de 5 minutos, quase que cronometrados. O aparelho parecia pesar uma tonelada nas mãos e eu não conseguia relaxar nem com um exorcismo.

– Tati, você merece coisa melhor, meu bem.

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Era uma das minhas melhores amigas que segurava delicadamente o meu pulso. Eu me senti mal demais e a preocupação dela era real demais também. E eu desabei ali mesmo. Acho que já perdi as contas de quantas vezes ouvi meu amigos falarem essa mesma frase pra mim. Faltariam dedos, das mãos e dos pés, para contar o tanto de vezes que vi neles uma expressão que já me é muito familiar – o olhar de “se eu pudesse, sofreria tudo isso por você”.

Se você já me leu por aqui antes, já deve imaginar do que se trata, não é? Se você é novo eu explico, mas para isso vou ter que voltar um pouquinho no tempo. Eu sofro de algo conhecido como “síndrome do dedo podre” – que nada mais é do que ter o dom incrível de gostar exatamente de quem não gosta de mim. Eu não faço ideia se essa condição médica existe na vida real, mas deveria porque eu vivo isso na pele desde que tenho 14 anos.

Verdade seja dita: eu não relaxo com a minha vida amorosa tem bem uns 15 anos e isso me deixa quase maluca. Eu não tenho do que reclamar, minha vida é boa. Tive a chance de estudar em bons colégios, estou na minha terceira graduação e até mesmo com a tal da crise, não passei muito tempo desempregada. Mais do que isso, eu tive a sorte incrível de ter na minha vida os amigos mais maravilhosos que existem. E quando pessoas tão boas assim fazem parte da sua vida, elas se preocupam com você e sofrem junto com o seu sofrimento. Ninguém quer ver amigo algum na pior.

No dia eu sofria um absurdo por um quase-amor, desses que tinha todas as chances possíveis para funcionar, mas que por um trauma aqui, um desinteresse ali, não saiu de longas e gostosas conversas – das quais sinto uma falta que nem cabe direito no peito. Você pode até rir do outro lado da tela, mas eu sinto como se tivesse terminado um namoro. E foi nesse exato momento que essa amiga perdeu a paciência e fez isso por não aguentar mais me ver daquele jeito sofrido ano após ano.

– Você gosta de sofrer, não é possível!

Conversamos muito depois disso porque desabamos juntas. Se não é fácil ouvir isso, imagina ter que falar essa frase pra alguém que você ama. Não vou dizer que ela tem razão porque a coisa toda é mais complicada do que isso, mas percebi que daria para ter diminuído consideravelmente o tamanho desse sofrimento todo.

Claro, nesse caso em especial, era uma série de coisas que doía, mas acredito que a maior delas seria o trauma de sempre viver histórias tristes de amor. Mas seja como for, no dia seguinte eu tive uma epifania (nunca imaginei que escreveria isso, socorro) às 3h37 da madrugada. Fui juntando traços da minha personalidade aqui e ali e entendi que, justamente por ser uma área tão complicada da minha vida, eu crio expectativas altas em alguns caras. E venho fazendo isso desde a minha primeira decepção amorosa. Sofri passionalmente por pessoas que, honestamente, não estão ou estavam nem aí pra mim.  E foi aí que criei uma teoria que envolve alguns passos e itens.


Primeiramente, Fora Temer.

Em segundo lugar, é importante entender alguns sinais que a pessoa passa para você, que podem demonstrar um certo desinteresse. Às vezes é difícil demais diferenciar, mas entenda: se a pessoa quiser mesmo, ela vai demonstrar isso. Não importa o quão tímida e introvertida a pessoa possa ser.

Depois: trate as pessoas exatamente do jeito que elas te tratam – claro, se a pessoa for babaca, não seja babaca também, se imponha e se defenda sempre, mas nada nunca justifica babaquice. O que eu quero dizer é que você deve ter o mesmo esforço pela pessoa que a mesma tem por você. Isso ajuda a manter as expectativas no cantinho da vergonha.

Eu não estou, de forma alguma, tentando diminuir o que você sente, mas sim colocar em uma perspectiva real a pessoa por quem você sente.

Por último, não espere nada de ninguém. É um exercício e como tal precisa de muita prática, mas é possível. Crie um gaveta mental aí dentro que seja exatamente do tamanho daquilo que a pessoa te entrega e tem para oferecer. O espaço pode aumentar ou diminuir com o tempo, mas o que importa disso tudo é que não depende só de você. Eu muito bem sei o quanto é difícil e doloroso esse processo todo de se frustrar no amor, mas pelo menos assim você consegue diminuir um pouco o que tanto dói aí. E seguimos no modo AA, um dia de cada vez porque isso sempre passa – é como dor de tatuagem, se a gente lembrasse o quanto dói, não faríamos a segunda, a terceira, a décima primeira.

Se quando o Grupo Revelação disse para você “deixar acontecer naturalmente” e você não quis ouvir porque era cafona, escute o que o Tame Impala tem a te dizer então:

Brincadeiras de tio à parte, eu espero que você, seja lá quem for, seja muito feliz e que isso tudo te ajude a enfrentar momentos de coração espremido.

Que fique claro, não sou lixo

Esses dia eu compartilhei um texto da VICE (http://goo.gl/ZDFnm2) sobre um fenômeno que mais parece um enredo de filme de terror chamado “esquerdo-macho”. E meu amigo, o que teve homem se doendo com esse meu compartilhamento foi algo fora do normal, recebi até inbox.  Confesso que o texto foi, além de mal traduzido, escrito num contexto bem norte-americano, e por esse motivo o cenário traçado ali não se encaixava na realidade de terras tupiniquins.

Acontece que pouco importa o cenário, os hábitos e os gostos, o que interessa nesse texto é justamente o que esses caras estão fazendo com as meninas. O engraçado foi que todos os meninos que se ofenderam com o meu post e vieram se pronunciar sobre isso de alguma forma, fizeram isso com argumentos bobos, criticando justamente o que menos importava naquele texto. Por isso mesmo decidi escrever sobre esse problema bem como ele é no Brasil, que normalmente tem nome, sobrenome e RG.

Vamos começar pela expressão em si. Ela se refere, especificamente, ao rapazes que se consideram pessoas de cabeça extremamente aberta, apoiam políticas sociais, sem preconceitos ou julgamentos e até aí, tudo bem – até porque o mundo precisa muito de gente assim. Acontece que muitos deles se dizem pró-feministas (alguns até curtem páginas e criam playlists que defendem a causa) e é aí que mora o problema. Entendam, não me refiro a todos os caras nesse texto, de forma alguma, mas a um tipo específico. Esses meninos não sabem ficar sozinhos, mas também não querem um relacionamento sério – eles querem ter alguém ali, para sustentar o ego deles. Se eles deixassem isso muito claro e as duas partes concordassem, não teria problema algum. Mas é lógico que isso não acontece.

O cenário real é um cara que tem os gostos muito próximos dos seus se aproximar e começar a se fazer presente e, sem falar nada, o cara não quer nada com você. Você é um opção para ele enquanto ele gosta de alguma menina inatingível, magra, “famosa”, e que honestamente, não tá nem aí pra ele. Mas você tá, porque não tem a menor ideia de que, na verdade, você não significa nada pra ele – tudo isso porque o cara não deixou claro como as coisas eram para ele. Não, ele te deixa achar que você tem uma espécie de relacionamento com ele e isso é pesadelo. Esse tipo de pessoa te deixa em banho maria porque você é isso, você é uma segunda opção.

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E como se tudo isso já não fosse o suficiente para você sofrer um absurdo, você ainda sai como a “louca do rolê”, porque esse cara é tão legal (pelo menos aparentemente), que ninguém acredita que ele trataria mal alguma menina. Acho que dá até pra incluir aqui um adendo, que são as justificativas dele quando confrontado:

Glossário:

– “Você é legal demais pra mim”. (nossa, desculpa mesmo por ser legal…)

– “Eu tô num momento muito ruim da minha vida”.

– “Eu não tô conseguindo me relacionar com ninguém”. (mas daí ele vai ele lá e fica com outra na sua frente, parabéns)

– “Não gosto de rótulos”. (essa é ótima demais)

Eu mesma tenho uma coleção dessas pérolas. E segue o baile.

Eu percebi isso quando uma menina puxou assunto comigo em um banheiro de balada e, em poucos minutos, muitas garotas se juntaram para reclamar do mesmo problemas: meninos que parecem muito legais, mas que tratam a gente feito lixo. É isso. Vocês podem achar ruim eu estar escrevendo isso e eu espero mesmo que vocês achem, porque é desse jeito que vocês nos fazem sentir: como lixo, descartável e sem valor. Péssimo, né? Então parem.

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This charming heartbreaker

Em algum momento você com certeza já pensou que “fulano de tal me entenderia” – e sim, provavelmente você tem essa referência de alguma comunidade do Orkut, nem adianta disfarçar. E tudo bem, até biscoito da sorte chinês pode ter boas referências, com um pouco de imaginação e bom senso. Veja bem, quem me entenderia nesse momento, seria o Morrissey – sim, o rei da dor de amor.

Smiths tem tanto significado pra mim que só posso começar de fato, pelo começo: não, eu não conheci a banda ao assistir o filme “500 dias Com Ela” – carrego as bonitas letras melancólicas, em um ritmo bom de dançar, desde os meu 14 anos. Eu fazia um curso de inglês há muitos anos, e nessa idade estava próxima de enfim terminar as aulas. Em 2002 a rotina de ter amigos próximos na minha sala havia mudado bruscamente – de uma sala com 12 amigos em 2001, passei para uma turma em que era apenas eu e um menino, o Pedro.

Eu gosto da mudança, mas só gosto mesmo depois que me acostumei – no começo acho péssimo, torço o nariz e às vezes até perco o sono. O Pedro era uma mudança de fazer perder o sono e muitas vezes a razão, ele era impossível de lidar. Os dias iam passando, as estações mudando (todas em um mesmo dia, moro em Curitiba) e o passatempo preferido de Pedro era me irritar – e precisava ser muito talentoso, minha paciência é absurdamente grande. Apesar disso, ele tinha um senso de humor inabalável e ao invés de concretizar a irritação, eu acabava rindo – ria tanto que doía a barriga.

Mudamos para a sala 137 e ali tinha um piano, o que eu nunca cheguei a entender, afinal era uma escola de inglês e não de música. Mas gosto de pianos, meu instrumento preferido de tocar. Lembro de de ter entrado na sala e Pedro tocava suavemente notas que formavam uma melodia gostosa de se ouvir.

– Boa música, Pedro.

– Oi. Fico feliz que tenha gostado.

Naquele mesmo dia, na hora de ir embora, Pedro esbarrou em mim e derrubou um CD no chão que por sorte não quebrou. Era Hatful of Hollow e quando tentei devolver:

– Conhece The Smiths?

– Com certeza já ouvi falar, mas nunca ouvi de verdade.

– Eu te empresto, acho que vai gostar.

– Puxa, obrigada!

– Acho que é o mínimo depois de infernizar sua vida.

Rimos um pouco porque eu concordei categoricamente e depois de elogiar a minha sinceridade (qualidade ou defeito que carrego impreterivelmente até hoje), ele se ofereceu para me acompanhar até em casa. Ele no skate e eu na bicicleta, conversamos sobre tudo – a trajetória de volta que normalmente levaria 15 minutos, levou 2 horas. Fui pensando pelo caminho a respeito da mudança repentina e em como as folhas amarelas dos ipês deixavam as ruas bonitas.

Em casa ouvi o álbum e me surpreendi – com a banda e com o Pedro. Com Smiths porque gostei já logo na primeira música, William, It Was Really Nothing, e depois disso me apaixonei pela banda. E com o Pedro porque… bem, como alguém tão impossível poderia gostar daquelas letras melancolicamente românticas? Eu não estava esperando por isso. Aliás, ainda não sabia (e até hoje não sei) lidar muito bem com essa história de gostar de meninos – até o ano anterior eles eram seres inimigos de outro planeta.

No dia seguinte eu entendi a mudança de comportamento, entendi tudo, menos o amor. Cheguei na sala e ele não estava lá, também não estava na lanchonete e tampouco no pátio. Fiquei sem entender e quando a professora entrou em sala não resisti e perguntei. A resposta veio como uma flecha no peito:

– Você não soube querida? O Pedro se mudou para a Islândia com a família dele. Há mais de um ano eles planejavam isso.

Instantaneamente desenvolvi uma série de analogias que envolviam um coração quebrando na mesma intensidade do frio islandês. Naquele mesmo semestre, já nas provas finais do curso, a explicação veio. No meio de uma das provas, derrubei a caneta que foi parar embaixo da carteira, e quando me abaixei para pegar, bem ali, logo na minha mesa de todo dia, tinha um bilhete grudado com fita adesiva na parte debaixo da mesa. “Para Tati”, dizia o papel, com uma letra que já me era muito familiar. Depois da prova abri o inesperado bilhete que dizia:

“Você deve estar me odiando, penso eu. Tudo bem Tati, não sou a minha pessoa favorita. Mas você é. Não sou bom em despedidas e achei que o CD fosse o melhor jeito. Se não foi, me desculpe. Acho que nunca mais vamos nos ver, nunca mais vou ouvir a sua risada ou me encantar com esse jeito que é só seu. Fui um babaca do começo ao fim, e fui de propósito. Assim você me esquece mais fácil. Mas você jogou sujo e foi a menina mais interessante e inesquecível de todas. Obrigado por isso. Obrigado de verdade, foi bom. Te amo. Beijos, Pedro”

Li o bilhete enquanto ouvia This Charming Man e não fui capaz de conter as muitas lágrimas que estavam por vir. Pedro foi o meu primeiro amor impossível e até hoje, o preferido. Tem tanta poesia no que ele fez que seria errado colocar no papel, não traduziria . Nunca mais vi ou ouvi falar dele, mas muitos outros amores impossíveis vieram. Todos eles levaram um pedaço do coração – gosto de pensar que pra Islândia, por que não?  Achei que catorze anos mais tarde estaria livre da espécie. Errada, não teria como eu estar mais errada.

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Catorze anos depois e eu aqui, vivendo mais um amor que na verdade, é bem possível, igualmente singular. Acho que a pior parte é o fato de ser absurdamente possível e mesmo assim não acontecer. Daí a coisa toda se torna uma amizade, mesmo com os dois sabendo que poderia ser muito mais do que isso, mas o trauma fala mais alto e aí, meu bem, fica sem grandes chances de acontecer. Sem grandes chances de ter uma chance. Chance, essa palavra que em português significa uma possibilidade dada e que em francês significa sorte, o acaso. Quem sabe com um pouco de sorte e uma possibilidade.

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O acaso, ele que sempre se faz presente para me mostrar tudo aquilo que faz parte de mim de uma forma tão delicada, às vezes não se contém e me traz também esses amores impossíveis. Tudo bem, nunca gostei muito do possível.

Nunca pude agradecer ao Pedro, nem pelo presente, muito menos pelas palavras bonitas e honestas ou ainda pelo quase-amor. Agradeço pela poesia que amores assim carregam e fazem perder o sono e a razão. Quando escuto Smiths – e o faço sempre – lembro não apenas do Pedro, mas da possibilidade de amores impossíveis.

Entre desencontros, um encontro

Eu não tenho certeza de quando foi que eu ouvi o termo “timing” pela primeira vez. Mas eu lembro que um certo dia, quando eu tinha 16 anos, a minha vó me contou como meus pais se conheceram.

Não sei se é genético ou que, mas assim como eu nunca apenas conheço pessoas, a história de como eles se conheceram é um tanto extraordinária e outro tanto bonita. A minha mãe é baiana e meu pai curitibano. Na época da faculdade ela se mudou para São Paulo e um dia veio à Curitiba para algum congresso sobre fisioterapia e por algum motivo ela os amigos estavam em um Inter II, perdidos pela cidade.

Meu pai namorava uma moça chamada Vitória e ele nunca pegava o Inter II, mas por um atraso qualquer e exatamente naquele dia encontrou um grupo de estudantes perdidos na cidade dele. Ele, que gosta de se considerar uma espécie de mapa humano da cidade, decidiu ajudar. Os estudantes seguiram o caminho sugerido por ele, mas a minha mãe não. Eles conversaram por horas e se tornaram amigos. Isso do ponto de vista dele, porque a minha mãe sentiu aquele frio na barriga que normalmente significa encrenca.

– Amor, menina.

Tá bem vó, amor.  Da forma como fosse, eles continuaram a trocar longas cartas por muito tempo. E claro que a minha mãe foi se apegando cada vez mais (isso deve ser genético também). Até que um dia chegou a fatídica carta em que meu pai dizia que estava noivo.

– COMO ASSIM VÓ?

– Calma menina, tudo tem seu tempo.

A minha mãe ficou arrasada, como é de se esperar que alguém fique com uma notícia dessas. A verdade é que temos o péssimo hábito de considerar que pessoas são nossas, quando na verdade elas escolhem estar por perto e um dia deixam essa escolha de lado – ou não. Isso tudo pode mudar sem o menor aviso, sem a menor chance de reverter isso.

Depois de 365 dias da tal notícia, a minha mãe havia seguido com a vida dela, porque é isso que fazemos com o tempo. Ela estava em Salvador, na casa da minha avó, para passar férias de verão. O telefone toca e a minha vó diz que é o meu pai e minha mãe se recusa a atender. Minha vó disse que era para ela parar de ser boba e que atendesse logo.

A verdade é que se ela não tivesse atendido o telefone eu nem estaria aqui, esse texto não existiria e você não me conheceria. Mas não, meu pai havia terminado o noivado porque nunca conseguiu esquecer a minha mãe.

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– Vó, pode ser que seja porque eu ainda não tenha idade pra entender, mas que enrolação!

– Enrolação nada! Acontece que pessoas tem tempos diferentes. E às vezes os tempos não entram em sincronia nunca. Mas tem outras que, mesmo parecendo pouco provável, o tempo passa a caminhar junto.

Tempos diferentes, mesmo em relógios em que as horas são compostas por 60 minutos, que por sua vez são compostos por 60 segundos cada e ainda assim os tais ponteiros que, por muitas vezes, não se encontram direito. Esse é o jeito da minha avó de explicar o que timing errado significa.

Onze anos depois dessa conversa eu aprendi, ao longo de vários ponteiros desencontrados, que as pessoas têm um jeito muito específico de te olhar quando sabem que é uma despedida. E se tem algo que eu não sei lidar bem é com despedidas.

Entre muito encontros e desencontros, sempre vai ter aquela pessoa em especial que não te olhou daquele jeito que te causa um frio apavorante na nuca. Sempre tem aquela pessoa com quem o timing ainda é errado, mas que te olha de um jeito que não diz “tchau”, mas diz “até logo”.

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E não existe nenhum tipo de desespero entre esse desencontro e o encontro, só algumas muitas borboletas esporádicas no estômago e uma troca de sorrisos que vale por uma conversa inteira.

2016 e ainda precisamos falar sobre igualdade de gênero

Não tem muito tempo, eu precisei fazer o Enade (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes) – que é uma prova longa e trabalhosa pela qual o MEC (Ministério da Educação) classifica as universidades e faculdades do país em A, B, C ou D. Honestamente, ninguém gosta de passar boa parte de um domingo respondendo perguntas de todos os tipos. Eu prefiro começar sempre pelas redações, que nesse caso eram quatro.

O enunciado pedia para discorrer sobre ninguém menos que Malala Yousafzai e a sua conquista de vários prêmios, inclusive o tão cobiçado Prêmio Nobel da Paz. E por que uma garota de 18 anos ganhou tanto destaque na prova do Enade? Porque ela, uma jovem paquistanesa, lutou pela igualdade de gênero e direito à educação em um país completamente machista e intolerante. Sorri ao ler o tema do texto e comecei um rascunho fervoroso naquele domingo de chuva.

Mas poucos minutos depois soltei a caneta e um sentimento de tristeza tomou conta de mim imediatamente. 2014, quando ela muito merecidamente conquistou o Nobel, e a igualdade de gênero ainda era vista como algo extraordinário, quando deveria, na verdade, ser algo absolutamente normal. Dois anos depois da premiação e o mundo continua desigual – tanto socialmente, quanto para a figura da mulher.

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Infelizmente, nós não precisamos ir até o Paquistão vivenciar momentos de verdadeiro terror pelos quais as mulheres passam todos os dias. Acontece aqui mesmo e aí também – não importa onde, acontece em todos os lugares, a qualquer momento, diariamente. Se você não é mulher e está lendo esse texto, pode parecer algo meio exagerado, dramatizado. Mas acredite (e tenha um pouco de empatia, ao menos) a situação é bem mais assustadora que qualquer filme de terror por aí. Se os muitos relatos cotidianos expostos para quem quiser ver/ler não forem suficientes, basta confiar em números. E esses números, são tristes, dão raiva.

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Ano passado, a Gazeta do Povo publicou o Mapa da Violência: http://goo.gl/qeuhU3

Não tem o que negar, ser mulher é viver constantemente momentos de medo e assédio, seja esse físico ou verbal. As pessoas pensam que uma “cantada” é algo tranquilo, normal e que se desgastar com isso é frescura. E esse é só o começo do problema.

A campanha “Chega de Fiu Fiu” (http://thinkolga.com/chega-de-fiu-fiu/) explica direitinho o que é assédio e toma iniciativas reais para lutar contra esse tipo de violência. Sim, chamar alguém de  “gostosa” na rua, alguém que não está entre quatro paredes com você, é uma violência e um desrespeito absurdo.

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Não foi uma ou duas vezes que me peguei escrevendo os famosos “textões” no Facebook sobre isso. Mas é que você não faz ideia o que é passar medo na rua pelo simples fato de ser mulher. E é um medo muito maior e mais intenso do que de um assalto – é ter medo pelo bem mais valioso que a temos nessa vida: nosso corpo.

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Só em 2016 eu passei por três situações horríveis – não me entenda mal, enfrentei muito mais do que essa soma de assédios nesse ano, mas uma entre essas três histórias, de alguma forma, incomodou mais:  

Eu trabalho no Centro, em uma rua bastante movimentada e frequentemente eu desço no meu horário de almoço para esticar um pouco as pernas. Num desses passeios, um senhor que vestia roupas sociais olhou para mim com uma expressão nojenta e disse, em alto em bom som, que queria mamar nos meus seios. Doeu ler isso, né? Imagine escrever ou pior do que isso, imagine ter vivenciado essa cena. Eu não me segurei, fiz um escândalo ali mesmo na rua e, para a minha grande surpresa, várias pessoas que estavam em volta me apoiaram, deixando aquele homem desrespeitoso com uma vergonha sem tamanho. Quem foi que deu o direito de ele falar uma coisa dessas para mim? Como é que isso pode ser considerado uma frescura minha?

Esse, até hoje, foi um dos piores casos de assédio que eu tive o azar de viver – mas entenda, todas as mulheres que você conhece passam por isso todos os dias – e infelizmente, muitas passam por coisa até pior.

Mas nem todos os dias são ruins e nem todas as pessoas são desrespeitosas. Cada vez mais, eu sinto que conhecidos meus, de alguma forma, lutam contra isso, se indignam e apoiam a causa – a nossa causa. É importante lembrar disso, essa é uma causa de todas nós – de todos.

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Em algum momento, uma moça corajosa chamada Babi Souza, criou a página “Vamos Juntas?”, que tem a proposta de mulheres se ajudarem na luta contra o machismo e a violência. Esse tipo de projeto nos dá força, nos empodera e nos dá a chance de sermos ouvidas. Vamos juntas fazer um escândalo e mudar, aos poucos, a sociedade em que vivemos. <3

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