O Brasil virou um estádio de futebol

E o jogo em questão não é um amistoso. Se você não estava em coma, vive no terceiro planeta do Sistema Solar, Hemisfério Sul da Terra, nesse grande país chamado de Brasil-il-il, você sabe que a situação política por aqui não está nada boa. Com isso quero dizer que você tem, pelo menos uma noção, que vivemos, em terras tupiniquins, uma crise política de proporções para lá de assustadoras.

Em algum momento da sua vida, você percebeu que tem tendências políticas que pendem mais para a direita ou esquerda, dentro do sistema, certo? Eu, por exemplo, sempre tendi mais para políticas de esquerda. Você leu bem o “mais” escrito ali, né? Isso, ortograficamente, implica que eu concordo mais com políticas governamentais de esquerda, mas que não acho tudo certo, lindo e maravilhoso. Não estou aqui duvidando da sua capacidade de interpretação de texto, mas é que eu eu ando, literalmente, com medo de expor meus ideais sociopolíticos.

Acontece que o cenário político atingiu tamanhas proporções por aqui, que as pessoas começaram, de repente, a sentir uma necessidade incrível em assumir cegamente um partido e demonizar o da oposição. E pior do que isso, a população passou a agir como torcedores enlouquecidos de torcidas organizadas ou até mesmo membros de grupos religiosos que tentam, a todo custo, evangelizar todo mundo – e muito mais grave do que isso, as pessoas estão agindo de forma violenta, com discurso de ódio dos dois lados.

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O brasileiro, em sua grande maioria, parece viver em um momento de histeria coletiva e isso é de dar medo. Durante a evolução da humanidade, alguém muito inteligente afirmou que futebol, religião e política, não se discute. Claro, se debate, conversa sobre, mas não tem cabimento ficar questionando as escolhas, sejam elas qual forem, do amiguinho.

Quando eu disse no começo desse texto que sempre fui mais de esquerda, não quis dizer que sou PT ou que concordo com tudo que acontece no atual governo – eu sou apartidária, com muito orgulho. Quer dizer, única e exclusivamente, que eu tendo mais para movimentos de esquerda. E eu tenho, democraticamente, esse direito. Mas quando eu comento algo desse gênero hoje, alguém olha para mim e começa uma discussão irracional sobre como eu sou “pró-Dilma”.

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Em pleno 2016 fala-se em impeachment (e, felizmente, mais se fala do que se escreve, porque ô vergonha desses erros ortográficos) e, me desculpe, se você acredita mesmo que essa é a grande solução para o nosso país, que isso vai salvar a pátria, você precisa voltar para a escola e assistir a aulas de História do Brasil. De novo, eu não sou petista e com certeza não sou “tucana”, mas eu sou a favor de uma democracia. Infelizmente, o Brasil é um país corrupto desde a sua colonização e o povo brasileiro foi criado para sempre dar aquele “jeitinho”.

Não adianta muito bater no peito e pedir justiça e ética e não agir da mesma forma nas pequenas coisas do dia-a-dia. Não adianta baixar filmes e músicas ilegalmente, estacionar em vaga preferencial, ser um babaca com as pessoas ao redor e ficar clamando por justiça enquanto veste uma roupa verde e amarela.

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A política brasileira é um jogo e nós todos fazemos parte dele, como cúmplices. Quem assume o poder muda as regras, mas sempre em benefício próprio, sempre em busca de dar o seu “jeitinho”. As pessoas perderam a capacidade de argumentação racional e apenas afirmam que tem que tirar fulano do poder ou colocar alguém para governar. Eu concordo, o que tem acontecido tem sido bem decepcionante, sem dúvidas. Mas e vai colocar quem lá? Outro peão do jogo que em uma ou duas rodadas vai deixar tudo igual ou pior? Uma peça tão corrupta quanto todas as outras?

O Brasil sofre de amnésia coletiva, e o jogo vira, mas as peças continuam as mesmas. E a torcida se atraca como se isso fosse resolver o problema.

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A insustentável boa imagem

Não tem muito tempo eu estava na praia, sentada de frente para o mar em dia cinzento e frio – tão frio que cheguei a me enrolar na canga, que até aquele momento era apenas figurativa, pois claramente ninguém ia tomar sol porque o mesmo estava escondido no céu nublado ou ainda entrar no mar com aquele vento gelado. Uma amiga, que dividia a paisagem quase digna de inverno europeu, perguntou, sem o menor aviso:

– Você já traiu alguém?

Ainda sem tirar os olhos do mar, equilibrei a garrafa de cerveja meio torta na areia e balancei negativamente a cabeça. Ela, um pouco perplexa, questionou como isso era possível e eu, que já imaginava o motivo da pergunta, fiquei sem jeito de dizer. Mas é claro que ela insistiu.

– Olha, eu nunca traí ninguém, mas já fui traída.

Senti que ela ficou desconfortável, mas expliquei que eu não julgo isso, apenas nunca fiz e nem vou justamente porque eu sei como é estar do outro lado. Ela então me perguntou como foi que eu me senti. Essa pergunta me desconcerta um pouco porque, honestamente, detesto falar sobre isso. O problema em lembrar é que isso traz à tona várias lembranças que estavam quietas no canto do peito. Mas, expliquei que é um misto de raiva, com mágoa e insegurança. Acontece que o cerne da questão não é o que você sente na hora, mas que algo assim muda você para o resto da vida. Mesmo que o relacionamento não termine, mesmo que continuem juntos, vai ser diferente porque isso acarreta traumas e inseguranças que antes nem existiam ali.

– Preferia nem ter ficado sabendo, então?

O mar ressaqueado agora parecia se encaixar em sincronia perfeita com o embolo que senti dentro de mim. Tomei mais um pouco da cerveja e levei alguns muitos segundos a mais do que o necessário para responder:

– Acho que sim.

A perplexidade dela aumentava de acordo com o meu pânico em falar desse assunto. Eu sei que é uma resposta um pouco inesperada, mas a verdade é que eu preferia que a imagem que tinha da pessoa em questão, que na época era um namorado, não tivesse mudado. Isso é algo que vai muito além de traições e até mesmo de relacionamentos amorosos. Quando a gente conhece alguém novo (seja amigo, namorado, conhecido, o que for) você cria uma imagem da pessoa. Às vezes a imagem não é das melhores, mas aí a pessoa te surpreende e é só alegria. O problema é quando a situação é oposta.

Pode ser um(a) namorado(a) (ou do que quer que vocês se chamem) que traiu ou que passou a te tratar de um jeito completamente inesperado; pode ser um(a) amigo(a) que faça algo tão grave quanto uma traição ou, ainda, passe a ser grosseiro e impaciente sem o menor motivo com você. Podem ser tantas coisas e ao mesmo tempo pode ser apenas uma. Um detalhe que muda tudo. E a partir disso, por mais que você queira, por mais que seja a sua pessoa favorita no mundo inteiro, as coisas mudam e nada nunca mais volta a ser como era. Por esse motivo eu respondi que preferia não ter ficado sabendo (alías, se fosse mesmo pra escolher, eu diria que preferia que nunca nem tivesse acontecido), porque além de ter que lidar com essa mágoa pelo ocorrido, o que por si só já é horrível, eu ainda precisei lidar com o fato de que aquilo que a gente tinha, nunca mais ia voltar a ser. Estragou, azedou. Isso, talvez, cause mais dor do que todo o resto.

Com isso não quero dizer que você não deva contar o que fez, aliás, se existe um conselho nesse texto é de que você deve evitar, o máximo que der, fazer algo que possa machucar outra pessoa e, talvez, estragar tudo. Porque olha, se quando o chato do colégio fazia bullying com você, já machucava, tomar uma dessas de alguém querido, de alguém que você confia, é 110 vezes pior.

Eu nunca fui uma pessoa rancorosa, alias, perdoo as pessoas com uma facilidade meio assustadora. E mesmo sendo desse jeito meio desapegado, quando alguém que eu gosto muito faz algo tão grave a ponto de mudar a imagem que eu tinha da pessoa, posso até perdoar, mas não consigo mais vê-la do mesmo jeito e isso dói de jeitos que eu nem imaginava ser possível. Eu sei que é meio ridículo, mas além da mágoa com a pessoa, eu também fico triste comigo mesma porque, por mais que eu tente evitar ao máximo, preciso admitir para mim mesma que aquilo tudo mudou para mim em um instante.

E é o tipo de coisa que não adianta sofrer por antecipação ou desenvolver uma fobia de decepções, pois, ainda que já exista tecnologia suficiente para um absurdo de coisas, ninguém ainda inventou como controlar isso. Então o máximo que dá para fazer é aproveitar cada segundinho das pessoas com o melhor que elas são para você e se apegar a isso, a esse sentimento bom. E se deixar de ser bom? Você junta os seus pedaços e segue em frente, colecionando boas imagens das pessoas enquanto durar, num ciclo um tanto delicioso e outro tanto assustador de possibilidades.

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A Quadrilha de Carlos é para dois

O amor funciona um pouco como uma dança, tem seu ritmo próprio e é feito a dois – ou deveria ser. Por outro lado, tem sempre os Billy Idols dessa vida, que dançam melhor mesmo sozinhos. A verdade é que entrar na dança de alguém amolece um pouco as pernas da gente e parece que sem nenhum aviso, um ventilador passou a funcionar na velocidade III dentro da nossa barriga.

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É incrível como aquela dança parece irresistível e ao mesmo tempo insustentável. No começo é de se estranhar aquilo tudo, que diabo de passo é esse? Mas depois você decora e ensina também seus próprios movimentos e se você tiver sorte, vira uma verdadeira coreografia muito bem ensaiada. Como é feita a dois, depende do par não deixar a pista cair em monotonia, embalada por uma música que já não faz o menor sentido – mas isso é outra história.

Se tem um cara que entenderia a coreografia solitária de Billy Idol, talvez seria Carlos Drummond de Andrade porque enquanto todo mundo dizia de peito aberto que dançar junto era muito mais negócio, ele sabia muito bem que a balada não era de tudo simples. Não que Drummond achasse a vida a dois errada, pelo contrário, tem muito amor nas entrelinhas de seus poemas. Mas ele compreendia que se fosse fácil, não existiria dor de amor, ou especificamente, de cotovelo.

.A Quadrilha

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história. | Carlos Drummond de Andrade

Se Drummond, que com certeza não escreve verso sem saber do que fala, não for o suficiente pra te convencer, Chico Buarque de Hollanda se inspirou no mesmo poema, que desce como um soco na boca do estômago, em um trecho da sua “A Flor da Idade”. Se ainda assim tudo parecer um mar de flores, tem mais um punhado de músicos, escritores, roteiristas, artistas e sei lá mais o que prontos para mandar um aviso amigo de quem já entrou na dança incontáveis vezes.

Não que isso seja um prelúdio dramático para você começar ter fobia de pistas de dança com música lenta e luz baixa – não, quem fez isso foi o Billy Idol e cá entre nós, ele não poderia ter sido mais covarde nessa colocação. Tem sim que ter muita coragem para entrar nessa dança e deixar claro que é uma dança a dois, mas que é preciso ter seu espaço para rodar, senão vem o problema da tal monotonia e aí já sabe.

Então talvez seja justo entender que tanto o roqueiro quanto o poeta tenham razão, mas não cada um do seu lado do salão, em verdadeiros solos de dança e sim juntos. Não é que você precise entrar sozinho na dança do outro – você, com todos os movimentos que são só seus, tem que achar alguém que queria aprendê-los e que te ensine também como é que se mexe nessa dança.

Acontece que é um pouco raro achar o bailarino(a) que vai te querer parte de uma coreografia a dois, que não vai ser nem dele(a), nem sua – e sim um duo. Na maioria das vezes, a dança morre sem nem ter tido a chance do primeiro passo, porque eu gosto de fulano, que gosta de sicrana, que por sua vez não gosta de ninguém. E assim o jogo segue, numa verdadeira ciranda um pouco incômoda, um tanto deliciosa. Até a hora que você acerta o ritmo, o par, a música e o resto, é amor.

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E aí, quer dançar?

Fala na cara

Assim como “festas do pijama” (com direito a guerra de travesseiros só de calcinha), os motivos pelos quais meninas vão sempre juntas ao banheiro são combustível para a imaginação de muitos garotos. Sobre as batalhas com lingerie não vou revelar a verdade porque isso é sigilo. Mas a parte do banheiro, desculpem, vou ter que falar.

Acontece que nós vamos juntas porque queremos: 1) dar uma ajeitada no visual 2) a opinião das amigas sobre o mesmo e 3) fofocar. Sim. Nada além disso meninos, peço desculpas pelo balde de água fria. Em uma dessas idas em conjunto ao banheiro, ouvi uma moça desabafando a vida inteira dela para uma amiga.

– Meu bem, ele só quer sexo.

– Mas por que diabos não fala isso de uma vez?!

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É uma excelente pergunta. Assim como a moça, que agora se acabava em lágrimas do meu lado no espelho, eu também não entendo qual é a grande dificuldade em dizer as verdadeiras intenções – e não só em relacionamentos – em tudo. Claro, existem jeitos de dizer certas coisas que, normalmente, não são boas de escutar. Mas nem por isso devemos enganar os outros. Joguei essa pergunta na roda de amigas e:

– Homem é assim mesmo, não sabem dizer que não querem mais ou que só querem sexo e ficam levando as meninas nesse papo.

De novo, esse questionamento não é apenas sobre essa questão polêmica de ser “só sexo” e sim para todo o resto. Se for parar para pensar bem, a gente mente sobre muita coisa e pior, fazemos isso com a desculpa horrível de que é para não magoar o outro. Olha, essa é a maior balela de todos os tempos, porque, eventualmente, os verdadeiros motivos da sua mentirinha vão aparecer e a mágoa vai ser muito maior do que se você tivesse sido honesto(a) desde o começo.

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Gostaria de dizer que, com isso, não me refiro à humanidade inteira (e muito menos ao universo masculino exclusivamente), mas haters gonna hate de qualquer jeito, eu sei. Acontece que eu sei bem que sou honesta até demais e isso nem sempre é algo tranquilo ou legal. Mas pelo menos eu não engano ninguém.

Tá namorando e não curte mais a pessoa? Fale. Sua (seu) amiga(o) anda fazendo algo que te incomoda muito? Fale. Seus pais/família estão te controlando além do necessário? Fale também. Tá começando algo novo e percebeu que ainda gosta do (a) ex? Com certeza, fale. Você está saindo com alguém que, claramente gosta muito de você e, do seu lado da história é apenas sexo? Pelo amor de Deus, fale.

Claro, fale com jeitinho, com calma e entenda que o outro merece a chance de escolher sabendo de todos os fatos. Medo de perder pessoas, seja qual o papel que elas representem na sua vida, todo mundo tem. Covardia, por outro lado, devia nem existir.

Numa dessas a pessoa tem a mesma visão da coisa que você e só estava com esse mesmo medo de botar tudo a perder e você nem sabia! Corre o risco dela também discordar e escolher outro caminho. Mas, seja como for, essa confissão que tanto pesa aí vai deixar tudo mais leve, mais livre e, principalmente, mais justo.

Você não namora, você pisa em ovos

Não existe um almoço de família em que alguma tia (às vezes é tio também) pergunte, assim na frente de todo mundo:

– E os namoradinhos?!

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Sabe, me pergunta sobre a as teorias de conspiração do assassinato do presidente Kennedy ou, quem sabe, a minha opinião sobre a redução da maioridade penal, mas não me venha com esse questionamento infame sobre namorados. Não tenho nada contra namoros, de forma alguma, inclusive gosto muito, mas, em 2015, me parece que a forma de se relacionar ganhou um novo padrão. Sim, as definições de namoro foram atualizadas e o update não foi bom.

Ninguém falou que hoje em dia as pessoas não namoram mais, algumas mantém relacionamentos na forma mais tradicional da palavra. Mas hoje eu não vou falar sobre elas, hoje vou comentar sobre relacionamentos que não são assumidos como namoros, mas que parecem um. Confuso? É exatamente por isso que eu tenho uma síncope nervosa toda vez que alguém me pergunta sobre namoros.

Eu namorei boa parte da minha vida, que nem é tão longa assim. Depois que voltei a ser solteira, ou como minha avó gostava de dizer, “avulsa”, reparei que as regras do jogo mudaram um pouco. Aliás, é uma infinidade de regras veladas, sobre as quais ninguém nunca fala, e não existe um edital sobre isso, não está na Wikipedia e o Google também parece não ter muita certeza sobre como relacionamentos funcionam hoje.

O que eu pude perceber é que se demonstramos interesse é bom, mas esse interesse tem que ser uma coisa meio “tô querendo, mas nem tanto assim”. Mas cuidado, se ficar desapegado demais, aí você é frio, impessoal. Por outro lado, se você toma a iniciativa, aí você é fácil demais e perde a graça. Nem tente ser honesto sobre os seus sentimentos, ao que tudo indica, isso também deixa você menos interessante. Vamos supor que é sexta-feira e você está com uma vontade de simplesmente abrir um vinho e assistir a um filme com determinada pessoa. Não! Largue esse telefone, se você chamar, você está entregando o jogo. Mas não deixa essa peteca cair, seja indisponível, mas também seja presente. Entendeu?! Nem eu.

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No meio disso tudo, você está em um relacionamento, acho. Não é um namoro, mas é como se alguém estivesse segurando a vaga na rua ou a mesa no restaurante. Não é oficial, mas é (quase) real.

Exageros literários à parte (e brincadeiras também), é nesse constante pisar em ovos que me sinto no que diz respeito a relacionamentos. E acho isso absurdamente chato e desnecessário. Eu não quero casar com a pessoa, eu nem mesmo sei se quero namorar com ele (a), eu só queria ver um filme. E, se, querer algo mais sério fosse mesmo o caso, eu não poderia nem pensar em dizer isso a plenos pulmões, porque a primeira regra do relacionamento moderno é que você não fala sobre isso.

A segunda regra do relacionamento moderno é: você não fala sobre isso.

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Repita comigo: não

Não tem muito tempo eu havia saído com uma amiga dessas que a gente sabe que é irmã de mãe diferente, sabe? Não que a pista de dança não estivesse excelente, mas o calor nos fez sair um pouco para “respirar” no fumódromo – que na verdade é um quintal.

Esse jardim dos fundos é um labirinto de pessoas muito diferentes e em cada canto eu conseguia ver uma história pronta para se tornar algum texto meu.

O problema é que nem sempre a gente escolhe sobre o que vai escrever. Às vezes é um assunto difícil demais, que a gente guarda lá nos confins do peito, à sete chaves, três cadeados e um leitor biométrico – que é pra ninguém saber o quanto isso (ainda) te assombra. E lógico, que naquela noite gostosa de verão, era bem nesse cantinho doloroso da memória que alguém ia mexer.

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A minha amiga acendeu o cigarro habitual dela, quando apareceu uma outra menina pedindo o isqueiro emprestado. Entreguei o meu e ela tentava nervosamente acender o cigarro. Os dedos compridos e magros dela tremiam de um jeito que me deu agonia. Segurei a mão dela, puxei o isqueiro, acendi, com calma, o cigarro e perguntei:

– Quer me contar o que houve?

Não sei dizer se fazia muito tempo que ninguém perguntava isso a ela, mas a moça encheu os olhos de lágrimas, me abraçou em um ato de gratidão e me contou, entre soluços, que o namorado dela havia se tornado um monstro – e não do tipo Franz Kafka, que um dia simplesmente acorda diferente, mas do tipo sociopata, que a tratava de um jeito que nem o pior inimigo dela merecia. E eu concordo, ninguém merece ser tratado de tal forma. Eu relutei muito, mas me senti na obrigação de contar algo que com toda a certeza do mundo ela não queria escutar – mas precisava.

Eu tentei explicar que, por mais problemático que o rapaz pudesse ser, era ela quem deixava que ele a tratasse desse jeito cruel – foi ela quem deixou o “monstro” tomar conta da vida dela. A moça não gostou nada de ouvir isso, mas acontece que eu já senti na pele o que ela estava sentindo. De alguma forma, aquela menina era um espelho em que eu via o meu próprio reflexo.

A gente não gosta de falar sobre isso porque, de certa forma, nos deixa expostos. Por outro lado, acredito que a gente sempre precise tentar tirar o melhor, mesmo das piores situações. Então, como um painel eletrônico com fios exposto, prestes a entrar em curto-circuito, eu abro o cantinho do peito em que escondi, por trás de um sorriso, que: eu já tive relacionamentos abusivos.

Sim, no plural. Vamos esclarecer uma coisa, porque eu sei bem que a palavra “abuso” pesa uma tonelada em ouvidos alheios. Parte disso porque sempre que ouvimos falar nessa palavra terrível na mídia, é referente à abuso sexual. E não foi o meu caso, justamente porque abuso não tem sempre essa conotação. O abuso pode ser também psicológico – e em proporções muito diferentes, também tiram muito da gente, nos deixam traumas que carregamos por muito tempo.

Se nesse ponto você está sentindo que esse texto é também sobre você, respire um pouco, eu sei que não é fácil lembrar. E saiba que a culpa é nossa sim, mas não é tão simples quanto os outros dizem ser. A pessoa abusiva não se mostra assim de início e quando você percebe, já está envolvido demais e sair disso é equivalente a tentar achar o caminho em uma serra coberta por neblina.

Não vou entrar em tantos detalhes, mas olhando para a minha própria história (coisa que normalmente escritores fazem com o nariz torcido), eu deixei que me tirassem o que talvez seja mais valioso que barras de ouro que valem mais que dinheiro: a minha autoestima. Deixei que dissessem que eu era estranha e que desse jeito nunca ninguém ia gostar de mim. Deixei que passassem por cima do meu orgulho e me afirmassem que eu não era mulher o suficiente porque sou um tanto nerd e outro tanto “diferente”. Eu, fui eu quem deixou isso acontecer.

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Foram dez anos da minha vida, que tem pouco mais do que o dobro disso. Foi uma década inteira de incontáveis abusos psicológicos que eu me deixei aguentar. Quando a moça disse que nem o pior inimigo merece passar por isso, ela estava coberta de razão. E muito pior que qualquer vilão cinematográfico: é a gente que deixa que nos tratem assim.

Como eu disse antes, é preciso se afastar um pouco desse maremoto de dramas e enxergar o melhor que isso me trouxe, que foi, antes de tudo, aprender a me amar exatamente como eu sou – processo pelo qual ainda estou passando.

Outra coisa boa que consigo tirar disso é poder contar para quem se encontra em um relacionamento abusivo que a culpa é nossa, sim, mas a escolha de virar as costas e ir embora, também. Então seja forte, mande um “foda-se” bem mandado para a pessoa abusiva da sua vida e não perca mais o seu tempo, porque olhando para trás, sinto falta do que eu não fiz e não de quem não “me deixou” fazer.

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Essa bagagem é frágil e destrutiva ao mesmo tempo. E a qualquer buraco ou declive na trajetória, essa mala pode se abrir e aí é uma chuva de traumas que nunca deixaram de te assombrar. Mas saiba que nem todo mundo é assim e, quem sabe, um dia você não encontre alguém que além de te amar por esse jeito que é só seu, até ajude a carregar as malas.

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O body-shaming que ninguém pediu

Tem alguns anos eu estava em uma balada no coração da Trajano Reis – um bairro curitibano conhecido por sua característica boêmia. Uma pista de dança minúscula dessas que embaça os óculos em 15 minutos de dança.

Logo eu já estava no fumódromo para tomar um “ar” com um amigo e comentava que eu sentia saudades da minha época vegetariana. Um desconhecido muito rudemente se meteu na conversa, segurou o meu braço com as pontas dos dedos  com cara de nojo e disse:

– Nossa, mas tem certeza que era vegetariana? Não tá meio gordinha pra isso, não?

Eu não preciso dizer que ele acabou com a minha noite e – acho seguro afirmar que eu carrego comigo esse comentário até hoje. Um sinal disso foi que depois dessa noite, passei a usar cada vez menos blusas e vestidos de alça. Parece bobagem, não? Algo tão supérfluo que um estranho babaca me disse certa noite. Acontece que aquele cretino não sabe nada sobre a minha vida, ele não tem ideia do tamanho do problema que eu tenho com isso. Ele não sabe os distúrbios alimentares e complicações que comentários desse tipo podem provocar – em mim e em qualquer menina.

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Acontece que eu fui uma criança magrela, parecia uma personagem de algum mangá, pernas longas, um tronco pequeno e fina de estrutura física. Mas isso mudou um pouco de figura, e mesmo assim nunca tinha me considerado “gordinha”. No entanto, pessoas como esse cara do bar, que sempre deram um jeito de vir com comentários desse tipo, me fizeram acreditar que sim.

Outro dia eu estava com alguns amigos no mesmo bairro, mas era uma festa em plena luz do dia, do jeito que eu gosto. Passou uma moça por nós e ela era linda, de deixar meninas e meninos até meio sem fôlego. Um rapaz que estava próximo comentou:

– Nossa, ela até que é bonita pra uma gorda.

Esse tipo de colocação, assim sem ninguém ter pedido opinião, acontece o tempo todo. Na escola, entre os amigos e até mesmo em casa – em 2014 alguns psicólogos ingleses discutiram os limites dos caprichos estéticos , muitas vezes disfarçados de cuidados com a saúde dos filhos.

Semana passada vi, ao vivo, aquela cena do filme Pequena Miss Sunshine em que o pai implicante da garotinha a reprime na hora de tomar sorvete. A sequência de fatos foi quase a mesma, com a diferença de que o pai dizia que a menina jamais arrumaria um namorado se ficasse gorda.

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Como se já não bastasse toda a insegurança que temos naturalmente, ainda precisamos nos incomodar com uma coleção de opiniões que não foram solicitadas. Tem uma outra questão, muito pertinente que é o fato do termo “gordo (a)” ser constantemente utilizado com o objetivo de desvalorizar o outro. No sentido de que a palavra é apenas uma característica, como ser alto ou baixo. Mas as pessoas insistem ao ver isso com olhos de julgamento, como se fosse algo errado.

Normalmente esse bullying com pessoas acima do peso é feito por gente magra. Você é magro? Consegue comer um pacote de bolacha recheada inteiro e não engordar? Parabéns, faça uma placa e coloque no seu jardim.  Se você se sente bem com o seu corpo, de verdade, não existe a necessidade de fazer alguém se sentir menos bonito (a) pelo seu peso.

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Certo tipo de garota

Em algum momento da minha vida escolar, eu devo ter perdido a aula no colégio em que se ensinou a ser uma “moça para casar”. Se você, assim como eu, já ouviu bem mais vezes de que se é possível contar nos dedos das mãos, que “isso não é coisa de uma menina de valor fazer”, sabe muito bem o que está embutido nesse pacote.

Por algum motivo, que não é muito claro para mim, meninas que falam palavrão feito um marinheiro; expõem suas opiniões político-sociais sem grandes filtros; se vestem como bem entendem (e, desculpa dizer assim, mas sem a menor intenção de agradar macho); são tatuadas; falam sobre sexualidade sem pudor ou  preocupações sobre o que alguém possa achar sobre isso; gostam de lego; de videogames; de rock (vertentes também); comidas da mais baixa gastronomia possível; filmes de terror; gostam de sair para dançar o máximo que der; ou até mesmo uma combinação de alguns desses fatores, não são consideradas meninas sérias, do tipo que namora, casa, tem filhos.

Mas quem foi que determinou isso? Em que momento ficou decidido que fazer uma dessas coisas (ou todas) torna alguém menos mulher? Não tem muito tempo, algum amigo disse que eu era um guri de saias. Olha, da última vez que conferi tudo ali embaixo, eu ainda era bem mulher, com ou sem saia, de calça, de terno, de vestido, de biquíni, com uma camiseta do Star Wars, do que for: continuo sendo menina. E gostaria de ser tratada como tal. Não sou sua “brother”, não sou menos mulher do que ninguém, sou eu, oras.

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Não é porque eu gosto de me acabar de dançar na balada todo final de semana, que eu não sou pra casar. Sou boa moça, sim. Nós todas somos, com ou sem palavrão, com um tempero a mais que, sem dúvidas, é encantador. Na hora de comer pizza, a gente não vai se preocupar com o “corpo de verão”, a gente vai se importar mais em ser feliz, naquele momento. Na hora em a nossa banda preferida estiver destruindo os palcos de algum festival, não vamos deixar de curtir ao máximo porque os nossos cabelos vão ficar bagunçados. E nem por isso somos pouco vaidosas. A diferença é que nos arrumamos para nós mesmas – fazemos tudo para sermos o mais felizes possível. O que tem de errado nisso?

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A pergunta que fica, na verdade, é que fórmula é essa que diz que uma menina é “para casar” ou não? Somos sim para casar, se for isso mesmo que a gente decidir. Também não tem nada que nos obrigue, porque se ainda não ficou bem claro, não fazemos nada para agradar a ninguém, sem antes agradarmos a nós mesmas.

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Iniciando os trabalhos

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Não tem muito tempo a Mia Macedo me perguntou se eu toparia fazer parte de um blog com ela e a Natalie Rosa. Levei exatos três segundos para responder que sim, com certeza queria fazer parte disso. E foi assim que três amigas jornalistas, com muito o que dizer a respeito de tudo, criaram o Quase Famosas.

Esse título é uma homenagem ao icônico filme “Quase Famosos”, dirigido por Cameron Crowe. Muito além do nome, o filme sobre rock’n’roll que ganhou as salas de cinema mundo afora, o longa representa para nós três um interesse e encanto pela cultura no mais amplo sentido da palavra.

Nós todas temos uma porção de coisas em comum, mas uma das muitas coisas que compartilhamos é a liberdade e por isso mesmo criamos esse coletivo, no qual somos livres para escrevermos sobre o que acharmos mais de mais legal, polêmico, interessante, maluco, relevante e, porque não, irrelevante também.

Três tagarelas de plantão que estão loucas para escrever sobre tudo e de tudo um pouco, agora ninguém mais segura a gente.

Seja bem-vindo (a) e fique à vontade!