Crítica social foda

Você com certeza ouviu falar de ’13 Reasons Why’ se você faz parte do maravilhoso mundo das redes sociais. E não é pra menos, acho que todo mundo devia assistir a essa série porque ela é um mal necessário – porque acredite em mim, vai te fazer muito mais mal do que bem.

De forma bem resumida, a série fala sobre uma garota que se matou e deixou 13 fitas K7 contando quem foram os responsáveis por isso. Sim, é uma série sobre bullying, machismo e desrespeito e ela é difícil demais de assistir.

Ouvi muita gente dizer que essa é uma série muito adolescente, que é bobagem e acho que só é capaz de dizer algo assim quem praticou muito bullying e não tem coragem de admitir ou que não tem sensibilidade pra entender a importância disso tudo. E pra mim isso é um problema de proporções assustadoras.

O cenário pode ser o ensino médio de uma escola americana e os personagens principais são sim todos adolescentes. Mas, na verdade, a série fala sobre a forma como tratamos uns aos outros e como isso pode afetar as vidas de todo mundo. Muita gente fala que é besteira, que todo mundo passa por isso.

As pessoas são naturalmente maldosas, isso vale para todo mundo. Se você entrar em uma sala de jardim de infância vai perceber o quanto as crianças são más e é para isso, em teoria, que existe a educação.  Só que o bullying, o desrespeito, o preconceito não terminam quando o colégio acaba. E não terminam porque as pessoas saem quase sempre impunes de situações assim.

“Tudo bem você chamar alguém de gordo, tudo bem você chamar alguém de puta, de vagabunda. Tudo bem você chamar alguém com descendência asiática de japa, dizer que tem o pinto pequeno. Tudo bem você chamar alguém negro de macaco, tudo bem chamar alguém com descendência árabe de terrorista”. Tudo bem?! Não! Não pode ser que isso seja normal, mas as pessoas agem como se isso fosse só uma brincadeira, como se isso não tivesse efeito algum nas pessoas.

Ninguém sabe e nem nunca vai saber como é estar na pele de outra pessoa. Não tem como saber pelo que o outro passa, como é a vida da pessoa, os problemas dela, as delícias e os medos. Mas sabe, existe empatia, tem que existir sempre. Tá todo mundo junto nesse mundo de merda e ninguém tá preparado pra nada, o mínimo que a gente tinha que fazer é se respeitar. Não é nem questão de ser uma boa pessoa, é questão de ser humano mesmo.

Na série, a personagem principal passa por vários episódios de assédio e machismo. Ela é tratada feito lixo por vários caras – e essa é a realidade da maioria das minha amigas e inclusive minha. Quando ela encontra um moço legal, o trauma é tão grande, tão dolorido, que ela não consegue deixar de ver ele como todos os outros caras. Isso é um exemplo de como esse tipo de coisa não acontece e simplesmente passa. Esse sentimento fica, pesa, muda a forma como vemos a nós mesmos.

E pode ser que você seja uma pessoa ótima e sensata, que não julga ninguém e nem tem preconceitos (inclusive me adiciona se você for). Mas ver alguma coisa errada acontecendo e não fazer nada, é tão parte do problema quanto. É uma questão de ser próximo das pessoas também, próximo a ponto de conseguir entender quando alguém não está bem. Você pode até não entender o que ela está passando, mas você pode sempre ajudar.

Minha mãe, maravilhosa que é, tem uma regra de ouro e eu acho que talvez seja uma das coisas mais importantes que ela me ensinou: nunca faça para ou outros o que você não gostaria que fizessem para você.

Tudo que a gente fala para os outros afeta de alguma forma, seja ela positiva ou negativa. Então se tiver que falar algo, que seja um elogio – não custa nada e pode mudar o dia de alguém. Eu acho que gentileza é a coisa mais atraente que alguém pode ter.

Amores anônimos

Eu não entendo muito o amor, não sei do que vive, de onde vem e muito menos para onde vai. Sei que ocupa espaço, que mexe com todas as células do corpo. E se a falta dele nos deixa com cores menos humanas, o entendimento de que o bicho está ali deixa tudo com um colorido diferente, mais intenso. Mas como eu disse antes, nunca sei de onde vem.

Em algum desses sábados gelados achei que era uma boa ideia levantar, deixar que o dia começasse de uma vez. Levanto, abro a porta e volto correndo para a cama, decidida de que a camiseta de banda que eu chamo de pijama não era páreo para o frio de um dia cinza. Agora sim, enrolada no cobertor, decido que um café só iria ajudar naquele momento. Água fervida, filtro, pó de café e aquele cheiro gostoso do meu vício recém passado. Foi aí, com a caneca em uma mão e a outra que segurava a coberta em volta de mim mesma que percebi o elefante branco parado no meio da minha sala. No dia anterior ele não estava ali, nem na semana passada.

Achei que poderia ser só impressão, quem sabe se eu voltasse a dormir ele desaparecesse por conta própria. Deixei a caneca no criado mudo e me cobri por inteiro com as cobertas como a criança que se esconde do fantasma do corredor. Mas de nada adiantou, o elefante continuava na minha sala e eu sabia muito bem porque ele estava lá. Acontece que elefantes não passam pela porta de entrada, muito menos cabem em elevadores. O jeito era aceitar que ele estava lá, que já era tarde demais para fugir dele. Isso não quer dizer que não poderia (tentar) ignorá-lo.

Continuo o dia como se nada tivesse acontecido, como se eu não soubesse. Recebo uma mensagem no telefone e me pego sorrindo sozinha no meio da rua. Frio na barriga, coração que não sossega no peito. Mas que droga de elefante. Respondo a mensagem com um “te vejo mais tarde então”, e sinto as asas das borboletas que carrego no estômago fazerem cócegas.

Me peguei sorrindo de novo e pensei que talvez fosse algo realmente bom, como nos filmes. Sigo carregando esse sorriso e penso até em te contar. Contar que sinto tudo isso por você e me sinto leve. Passo o resto do dia perdida entre muitos pensamentos bons sobre eu e você e acho mesmo que devo falar a plenos pulmões.

Subo as escadas e você está na porta, me esperando. O frio na barriga agora parece glacial, sorrio feito boba, sei que sim. Mas paro quieta, muda. Você, sempre educado, me pergunta se estou bem e respondo que sim. Mas acontece que não tem elefante algum na sua sala, só tem na minha.

Então engulo o que queria tanto falar e vemos um filme.

Veja o trailer do documentário inspirado no projeto “Chega de Fiu Fiu”

As meninas da ONG Think Olga criaram, em 2013, uma campanha para relatar os assédios sofridos diariamente pelas mulheres na rua. Agora, o projeto ganhou mais uma etapa em forma de documentário.

O filme é focado na apresentação de relatos de assédios contados por diversas brasileiras, que confessam quais são as adversidades enfrentadas devido ao medo constante e diário.

Assista ao trailer:

O documentário “Chega de Fiu Fiu” foi produzido com a ajuda da ferramenta de financiamento coletivo “Catarse” e deve servir de material educativo para ser exibido em escolas e órgãos públicos.

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Instagram: natalie.rosa

Precisamos falar sobre 2016

Eu ando com dó da pessoa que vai ter que editar a retrospectiva do ano 2016. Mas também não sei o que a gente esperava de um ano que mal começou e já morreu ninguém menos do que o David Bowie. Depois disso a coisa toda foi meio que ladeira abaixo.

Eu também imagino que vai ser uma loucura ensinar História Contemporânea do Brasil daqui alguns anos, especialmente no que diz respeito à política. Em 2016 a gente viveu um golpe de Estado e, se por algum motivo você ainda acha que não foi, é preciso ler mais sobre esse assunto. E eu digo ler de verdade e não se informar por páginas tendenciosas do Facebook e nem acreditar em tudo que mandam para você no grupo da família no Whatsapp. Mas tudo bem, quem não está confuso esse ano, não está mesmo bem informado.

Nesse ano também senti que a intolerância das pessoas se agravou, parece que ao invés de evoluirmos, estamos em marcha ré com destino para 1964 – e me refiro não apenas ao cenário político do Brasil e do mundo, mas também a questões sociais e econômicas. Parece que, em 2016, o mundo inteiro pendeu mais para o lado direito e não consigo ressaltar o quanto isso me preocupa. Mas chega de política, tenho certeza que todo mundo vai ter um final de ano agitado nas discussões familiares no meio da ceia.

O mundo presenciou também tragédias que mudaram o curso da história, mas que tragédia também não muda tudo? Mesmo os pequenos desastres pessoais são capazes de mudar o presente e o futuro. A única coisa que a gente não consegue mudar mesmo é o tal do passado. Seja como for, não foi um ano fácil pra ninguém. Lidamos com metade do globo em crise econômica, política, social ou, em alguns muitos casos, todas as alternativas juntas. A crise dos refugiados na Europa mostrou que a humanidade sabe ser muito cruel, mesmo com quem já vive um verdadeiro terror em seus países de origem. Claro, nem sempre é tudo horrível, mesmo com esse cenário tenebroso, muita gente foi capaz de mostrar que dá pra manter um pouquinho de fé na humanidade.

No quesito amor, senti que esse ano acumulou mais um tanto de decepções e não digo isso apenas de mim mesma, eu escutei muita gente contar não tem sido fácil amar. Como é que pode ser difícil amar, não é? Um dos sentimentos mais primitivos do ser humano e ainda assim, em 2016, amar foi sofrido. Uma geração inteira de pessoas com traumas, dificuldades em demonstrar sentimentos e um talento em não conseguir dizer a verdade. Ouvi, vezes por demais, pessoas reclamando que tem muita gente por aí que não tem o menor respeito pelo sentimento alheio.

Aprendi que nem sempre que alguém diz que gosta de você e até mesmo que gostaria de estar contigo, quer mesmo dizer isso – muitas vezes essa pessoa em questão só precisa de você ali porque sabe o quanto você gosta dela e precisa que você fique por perto, mas não muito, apenas para inflar o ego dela. E isso é triste demais.

Pessoalmente, eu senti que esse foi um ano em que todo mundo se permitiu ser mais egoísta e egocêntrico, em todo tipo de situação. Na política, especialmente do Brasil e dos Estados Unidos, a maioria tomou decisões pensando apenas no próprio umbigo, pensando somente naquilo que traria benefícios próprios. Na Europa, as pessoas que se opuseram a receber refugiados também foram muito egoístas e, ironicamente, o continente deles foi historicamente o que mais enviou refugiados pós-guerra para países do mundo todo.

Quando o assunto foi a descriminalização do aborto colocaram uma bancada evangélica, composta por homens, para decidir. E quando ficou decidido que abortar até os primeiros 3 meses de gestação não seria crime, um pessoal lá do Facebook lançou a campanha “hoje tenho x anos, mas já tive 3 meses #movimentoprovida” e esqueceu que descriminalizar o aborto não é sobre eles ou o que eles acham e sim sobre a vida de milhares de mulheres que correm risco de morrer todos os dias em clínicas e métodos clandestinos e que essa decisão pertence a elas e somente a elas.

A questão toda de pensar apenas em você mesmo afeta todo e qualquer tipo de relação humana, muda completamente a forma como sentimos e nos permitimos sentir. Seja entre amigos, em um relacionamento amoroso, na família e com pessoas que você nem conhece, se você não consegue pensar nas suas atitudes e no que elas podem resultar, tanto para você quanto para o resto do mundo, a coisa toda complica. A minha retrospectiva desse ano que pesou muito é de que as coisas seriam muito melhores se a gente não olhasse somente pro nosso umbigo, não importa o quão bonitinho ele possa ser.

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O ano da saudade

A gente sempre brinca que o ano tá péssimo porque, convenhamos, é mais fácil sofrer coletivamente e chega a ficar engraçado o tanto de postagem sobre. Mas confesso que 2016 foi um ano denso, pesado e difícil demais. Tão difícil que me senti obrigada a colocar isso para fora.

É tão estranho porque eu mal vi o ano passar, mas ao mesmo tempo me peguei chocada ao perceber que já estamos em novembro. É isso, menos de dois meses da data de hoje e já vai ser 2017. E ao mesmo tempo que dá um alívio que esse ano vai terminar, bate um desespero de que o próximo seja ainda mais complicado.

Assim como eu gosto muito de montar a playlist com as melhores músicas do ano e também criar listas e mais listas contendo os melhores filmes e livros, também gosto de pensar que cada ano que passa meio que tem um tema, que ninguém definiu, apenas que se repetiu ao longo de 365 dias. 2015, por exemplo, foi um ano em que eu precisei ser absurdamente forte por uma série de razões, mas especialmente de saúde. E eu fui, cara, como eu fui. Mas eu fui tão forte que parece que esgotei a barrinha de energia e agora me sinto desmontando, aos poucos.

Se ano passado foi o ano da força, 2016 é o ano da saudade, definitivamente. Acho que nos meus 28 anos eu nunca senti tanta saudade de tanta gente ao mesmo tempo.

Eu odeio sentir saudade porque, em alguns casos, simplesmente não tem o que possa ser feito a respeito – tem vezes que a pessoa foi embora pra sempre e você nem teve a chance de se despedir. É uma saudade que não vai passar porque não existe forma de resolver isso.

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Tem outras em que a pessoa sumiu, desapareceu da sua vida depois de fazer parte da sua rotina diária, mas não está a muitos quilômetros de distância de você e o coração aperta porque parece tão fácil de se resolver, mas, ao mesmo tempo, não depende só de você.

Em 2016 eu perdi muito e muita gente que, honestamente, deixou um vazio dentro do peito. Teve dias em que me peguei chorando de desespero no chão do quarto, pensando comigo mesma que era isso, não tinha mais como sofrer porque tudo de ruim já havia acontecido e eu estava: errada. É claro que eu estava errada.

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E hoje eu percebi que tinha outra saudade dentro de mim. Acordei mas não senti vontade de levantar da cama. Olhei para as sombras da luz do dia que dançavam soltas no teto do quarto e senti uma saudade enorme. Tentei entender de quem eu estava sentindo falta assim. Não era da minha avó que foi embora antes que eu pudesse dar um abraço apertado – e disso vou me arrepender pro resto da vida. Não era do cara que ocupou o meu coração esse ano quase inteiro e que havia sumido do dia pra noite da minha vida. Não era do amigo que tá do outro lado do mundo, incomunicável e sabe-se lá até quando. Não, dessas pessoas e de mais um monte de gente, sinto falta 24 horas por dia. Dessa vez, eu estava sentindo falta de mim mesma.

Parece completamente ilógico sentir falta de você mesmo, eu sei. Mas foram tantas perdas e desencontros em tão pouco tempo que acabei me perdendo também. Sinto que ando uma companhia difícil de lidar porque parece que apagaram a luz aqui dentro, mas quem me conhece sabe: eu vou sair dessa. Enquanto isso sigo sentindo uma saudade que mal cabe dentro de mim.

Pela paciência e compreensão, eu agradeço e muito.

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You should go and love yourself

Eu não lembro da primeira vez que alguém me disse que eu era feia. Não lembro também da primeira vez em que me senti feia. Desde que me entendo por gente eu tive essa sensação de me sentir inadequada, inferior.  E ter sido uma criança gorda, claro, contribuiu muito para que isso acontecesse.

Antes dos dez anos eu já tinha conhecido o Vigilantes do Peso. Lembro nitidamente de quando minha mãe me levou para o nutricionista e ele usou a expressão obesidade infantil para descrever meu caso. Em uma sociedade que considera gordos repugnantes, eu voltei para casa e só conseguia sentir ódio de tudo aquilo que eu era.

Desde muito pequena fiz dieta. Ouvia insultos das meninas mais velhas na aula de jazz e me perguntava o que tinha de tão errado comigo para ter nascido nesse corpo tão nojento. Queria ser como a menina magra, branca, de olhos azuis que todos os alunos e professores elogiavam. A mim restavam duas opções: ser odiada ou ser ignorada. Comecei a me esforçar para estar sempre na segunda categoria.

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Já tentei passar o dia inteiro sem comer e me odiei quando não consegui. Já tentei forçar o vomito depois de comer o que as pessoas chamam de “gordice”, afinal a palavra gorda está sempre associada a coisas ruins, nojentas, repugnantes. Já tomei laxante pra tentar emagrecer. Já tomei água até quase vomitar para tentar enganar a fome. Já dormi rezando para que minha alma fosse magicamente parar em um corpo que fosse amado.

Quando eu tirei o siso e passei alguns dias em uma dieta líquida, emagreci. “Como você tá linda!’, me falaram no colégio. “Tirar o siso te fez bem”, elogiaram meus familiares. E assim eu entendi que eu poderia continuar comendo pouco até ficar mais e mais magra. Era ano de vestibular, eu tinha terminado um namoro e acordava triste todos os dias.

A cada quilo a menos eu me tornava mais interessante para as pessoas ao meu redor. Meninos que nunca olharam para mim começaram a me notar, as meninas populares passaram a me tratar com respeito. Eu passei a viver de sopa de pacote, alface e peito de frango. Se algum dia me descontrolava, tentava vomitar mesmo sem conseguir. Me odiava por não conseguir. Fazia abdominais até a exaustão, ocupando o tempo em que deveria estar estudando.

Cheguei aos 48kg me sentindo gorda. A barriga ainda estava lá, os meus peitos viraram duas azeitonas, mas meus ossos apareciam cada vez mais e todo mundo me elogiava. Era assim que eu iria conseguir ser aceita? Então valia o sacrifício.

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Um dia eu estava saindo do banho e minha mãe me viu nua. Ela viu minhas costelas aparecendo entre os meus seios e começou a chorar. Tinha algo de errado comigo, ela me disse, mas eu tinha certeza que ela estava louca. Afinal de contas, não era o que ela e todo mundo queria? Desde a primeira vez que eu fui pro Vigilantes do Peso, desde a minha primeira dieta dos pontos, o objetivo não era ser o mais magra possível?

Cheguei à conclusão que todo mundo estava contra mim, eram todos invejosos que fingiam que queriam o meu bem, mas na verdade queriam ter a minha magreza. No dia seguinte, minha mãe chegou do trabalho com uma pizza, um bolo e um brownie e insistiu para que eu comesse. Eu chorei imaginando que eu iria perder tudo aquilo que tinha conquistado a duras penas. Era 2009.

No ano seguinte, eu comecei a cursar Jornalismo. Entre festas, baladas e churrascos, eu fui redescobrindo a minha paixão por comida. Sentia ânsias incontroláveis de comer tudo que houvesse na minha frente (escondida, é claro): leite condensado, pacotes de bolacha, o que tivesse na frente eu comia escondida no quarto. Me sentia culpada, tentava vomitar, não conseguia. Me odiava. Engordei tudo o que tinha emagrecido e mais um pouco em dois ou três meses.

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Pula para 2016. Eu nunca vi um número tão alto na balança. Minha mãe não está viva, cozinhar virou uma das minhas paixões e eu não sei mais o que é me privar de fazer algo que eu amo para ver um número diferente em um aparelho. Eu ainda me incomodo quando minhas amigas magras falam que elas estão gordas e, portanto, feias, porque eu sei que elas devem me achar feia por ser gorda.

E depois de muito sofrer por causa do meu peso, depois me odiar todos os dias, eu estou, aos poucos, encontrando paz com quem eu sou. Sou mais consciente do meu corpo, consigo valorizar os detalhes que fazem com que eu seja única, aprendi que o meu valor não está em peso, em comidas, em dietas. Está em camadas mais profundas, que nem todo mundo consegue perceber. Mas eu percebo.

Aprendi que comida não é inimiga, não é a solução dos meus problemas, não é companhia para afogar as mágoas. É algo que deve fazer bem para o meu corpo, me dar prazer, mas de uma maneira saudável. Comida não pode ser recompensa ou punição. 

Claro que nem todo dia é uma maravilha, nem todos os dias eu me sinto bem. Mas cada segundo que eu me sinto bonita é um passo a mais para me desvencilhar de uma doença que me causou muito sofrimento e para combater esse controle doentio que a sociedade exerce sobre os nossos corpos.

Crise de pânico não é amadorismo

Na última terça-feira (4 de outubro) estreou a primeira edição do Masterchef: Profissionais. Diferente dos programas anteriores, a produção só aceitou competidores que já estudaram ou trabalharam na área e isso refletiu logo nas primeiras provas: desafios mais complexos, provas com mais pressão.

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Durante uma das eliminatórias, a chef Paola Carosella percebeu que os competidores não dariam conta de fazer os dois menus a tempo e, então, chamou os melhores avaliados das provas anteriores (Ivo e Dário) para descer do mezanino e ajudar. Tudo naquele clima de correria, bagunça e gritaria que quem assiste o programa já conhece. A postura do Ivo acabou irritando a Izadora, uma das competidoras, a ponto de ela começar a chorar e perder completamente o ritmo da prova. Ela paralisou, não lembrava mais o que estava fazendo e teve dificuldade pra conseguir raciocinar.

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“Que amadorismo, todo mundo sabe que a pressão em cozinha de restaurante é assim”, muita gente disse no Twitter. Chamaram ela de amadora, incompetente, sensível demais, fraca, mimada. Já eu fiquei assistindo aquilo tudo com um sentimento familiar demais de quem já passou por isso. E isso não é amadorismo, não é frescura. É uma crise de pânico. E já aconteceu comigo no trabalho, no meio de um shopping lotado, em casa, no meio da rua vazia. Por muito menos, ou até mesmo por motivos que nem eu mesma conseguia compreender.

Engraçado que a internet que ficou jogando pedras na Izadora é a mesma que até alguns dias atrás estava postando textão sobre Setembro Amarelo e disponibilizando inbox para os amigos deprimidos desabafarem (tenho muitas críticas a esse tipo de “ajuda”, inclusive, mas isso é assunto para outro dia).

No fim das contas, a Izadora foi eliminada. Com razão, claro, ela não conseguiu ajudar a equipe durante a prova. Mas isso, de forma alguma, significa que ela seja fraca ou que ela não seja capaz.

Você merece mais

O cenário era uma pista de dança, mas poderia muito bem ser uma feira ou uma praça, porque o contexto não fazia muita diferença na minha aflição. Eu olhava o celular em intervalos de 5 minutos, quase que cronometrados. O aparelho parecia pesar uma tonelada nas mãos e eu não conseguia relaxar nem com um exorcismo.

– Tati, você merece coisa melhor, meu bem.

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Era uma das minhas melhores amigas que segurava delicadamente o meu pulso. Eu me senti mal demais e a preocupação dela era real demais também. E eu desabei ali mesmo. Acho que já perdi as contas de quantas vezes ouvi meu amigos falarem essa mesma frase pra mim. Faltariam dedos, das mãos e dos pés, para contar o tanto de vezes que vi neles uma expressão que já me é muito familiar – o olhar de “se eu pudesse, sofreria tudo isso por você”.

Se você já me leu por aqui antes, já deve imaginar do que se trata, não é? Se você é novo eu explico, mas para isso vou ter que voltar um pouquinho no tempo. Eu sofro de algo conhecido como “síndrome do dedo podre” – que nada mais é do que ter o dom incrível de gostar exatamente de quem não gosta de mim. Eu não faço ideia se essa condição médica existe na vida real, mas deveria porque eu vivo isso na pele desde que tenho 14 anos.

Verdade seja dita: eu não relaxo com a minha vida amorosa tem bem uns 15 anos e isso me deixa quase maluca. Eu não tenho do que reclamar, minha vida é boa. Tive a chance de estudar em bons colégios, estou na minha terceira graduação e até mesmo com a tal da crise, não passei muito tempo desempregada. Mais do que isso, eu tive a sorte incrível de ter na minha vida os amigos mais maravilhosos que existem. E quando pessoas tão boas assim fazem parte da sua vida, elas se preocupam com você e sofrem junto com o seu sofrimento. Ninguém quer ver amigo algum na pior.

No dia eu sofria um absurdo por um quase-amor, desses que tinha todas as chances possíveis para funcionar, mas que por um trauma aqui, um desinteresse ali, não saiu de longas e gostosas conversas – das quais sinto uma falta que nem cabe direito no peito. Você pode até rir do outro lado da tela, mas eu sinto como se tivesse terminado um namoro. E foi nesse exato momento que essa amiga perdeu a paciência e fez isso por não aguentar mais me ver daquele jeito sofrido ano após ano.

– Você gosta de sofrer, não é possível!

Conversamos muito depois disso porque desabamos juntas. Se não é fácil ouvir isso, imagina ter que falar essa frase pra alguém que você ama. Não vou dizer que ela tem razão porque a coisa toda é mais complicada do que isso, mas percebi que daria para ter diminuído consideravelmente o tamanho desse sofrimento todo.

Claro, nesse caso em especial, era uma série de coisas que doía, mas acredito que a maior delas seria o trauma de sempre viver histórias tristes de amor. Mas seja como for, no dia seguinte eu tive uma epifania (nunca imaginei que escreveria isso, socorro) às 3h37 da madrugada. Fui juntando traços da minha personalidade aqui e ali e entendi que, justamente por ser uma área tão complicada da minha vida, eu crio expectativas altas em alguns caras. E venho fazendo isso desde a minha primeira decepção amorosa. Sofri passionalmente por pessoas que, honestamente, não estão ou estavam nem aí pra mim.  E foi aí que criei uma teoria que envolve alguns passos e itens.


Primeiramente, Fora Temer.

Em segundo lugar, é importante entender alguns sinais que a pessoa passa para você, que podem demonstrar um certo desinteresse. Às vezes é difícil demais diferenciar, mas entenda: se a pessoa quiser mesmo, ela vai demonstrar isso. Não importa o quão tímida e introvertida a pessoa possa ser.

Depois: trate as pessoas exatamente do jeito que elas te tratam – claro, se a pessoa for babaca, não seja babaca também, se imponha e se defenda sempre, mas nada nunca justifica babaquice. O que eu quero dizer é que você deve ter o mesmo esforço pela pessoa que a mesma tem por você. Isso ajuda a manter as expectativas no cantinho da vergonha.

Eu não estou, de forma alguma, tentando diminuir o que você sente, mas sim colocar em uma perspectiva real a pessoa por quem você sente.

Por último, não espere nada de ninguém. É um exercício e como tal precisa de muita prática, mas é possível. Crie um gaveta mental aí dentro que seja exatamente do tamanho daquilo que a pessoa te entrega e tem para oferecer. O espaço pode aumentar ou diminuir com o tempo, mas o que importa disso tudo é que não depende só de você. Eu muito bem sei o quanto é difícil e doloroso esse processo todo de se frustrar no amor, mas pelo menos assim você consegue diminuir um pouco o que tanto dói aí. E seguimos no modo AA, um dia de cada vez porque isso sempre passa – é como dor de tatuagem, se a gente lembrasse o quanto dói, não faríamos a segunda, a terceira, a décima primeira.

Se quando o Grupo Revelação disse para você “deixar acontecer naturalmente” e você não quis ouvir porque era cafona, escute o que o Tame Impala tem a te dizer então:

Brincadeiras de tio à parte, eu espero que você, seja lá quem for, seja muito feliz e que isso tudo te ajude a enfrentar momentos de coração espremido.

Que fique claro, não sou lixo

Esses dia eu compartilhei um texto da VICE (http://goo.gl/ZDFnm2) sobre um fenômeno que mais parece um enredo de filme de terror chamado “esquerdo-macho”. E meu amigo, o que teve homem se doendo com esse meu compartilhamento foi algo fora do normal, recebi até inbox.  Confesso que o texto foi, além de mal traduzido, escrito num contexto bem norte-americano, e por esse motivo o cenário traçado ali não se encaixava na realidade de terras tupiniquins.

Acontece que pouco importa o cenário, os hábitos e os gostos, o que interessa nesse texto é justamente o que esses caras estão fazendo com as meninas. O engraçado foi que todos os meninos que se ofenderam com o meu post e vieram se pronunciar sobre isso de alguma forma, fizeram isso com argumentos bobos, criticando justamente o que menos importava naquele texto. Por isso mesmo decidi escrever sobre esse problema bem como ele é no Brasil, que normalmente tem nome, sobrenome e RG.

Vamos começar pela expressão em si. Ela se refere, especificamente, ao rapazes que se consideram pessoas de cabeça extremamente aberta, apoiam políticas sociais, sem preconceitos ou julgamentos e até aí, tudo bem – até porque o mundo precisa muito de gente assim. Acontece que muitos deles se dizem pró-feministas (alguns até curtem páginas e criam playlists que defendem a causa) e é aí que mora o problema. Entendam, não me refiro a todos os caras nesse texto, de forma alguma, mas a um tipo específico. Esses meninos não sabem ficar sozinhos, mas também não querem um relacionamento sério – eles querem ter alguém ali, para sustentar o ego deles. Se eles deixassem isso muito claro e as duas partes concordassem, não teria problema algum. Mas é lógico que isso não acontece.

O cenário real é um cara que tem os gostos muito próximos dos seus se aproximar e começar a se fazer presente e, sem falar nada, o cara não quer nada com você. Você é um opção para ele enquanto ele gosta de alguma menina inatingível, magra, “famosa”, e que honestamente, não tá nem aí pra ele. Mas você tá, porque não tem a menor ideia de que, na verdade, você não significa nada pra ele – tudo isso porque o cara não deixou claro como as coisas eram para ele. Não, ele te deixa achar que você tem uma espécie de relacionamento com ele e isso é pesadelo. Esse tipo de pessoa te deixa em banho maria porque você é isso, você é uma segunda opção.

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E como se tudo isso já não fosse o suficiente para você sofrer um absurdo, você ainda sai como a “louca do rolê”, porque esse cara é tão legal (pelo menos aparentemente), que ninguém acredita que ele trataria mal alguma menina. Acho que dá até pra incluir aqui um adendo, que são as justificativas dele quando confrontado:

Glossário:

– “Você é legal demais pra mim”. (nossa, desculpa mesmo por ser legal…)

– “Eu tô num momento muito ruim da minha vida”.

– “Eu não tô conseguindo me relacionar com ninguém”. (mas daí ele vai ele lá e fica com outra na sua frente, parabéns)

– “Não gosto de rótulos”. (essa é ótima demais)

Eu mesma tenho uma coleção dessas pérolas. E segue o baile.

Eu percebi isso quando uma menina puxou assunto comigo em um banheiro de balada e, em poucos minutos, muitas garotas se juntaram para reclamar do mesmo problemas: meninos que parecem muito legais, mas que tratam a gente feito lixo. É isso. Vocês podem achar ruim eu estar escrevendo isso e eu espero mesmo que vocês achem, porque é desse jeito que vocês nos fazem sentir: como lixo, descartável e sem valor. Péssimo, né? Então parem.

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Praça de alimentação

É sempre a mesma coisa: chega 11 horas, 11 e meia e eu começo a pensar na hora do almoço. Tem aquele vegetariano que é aqui perto, mas meio caro. Tem também o indiano que é bom, mas não gosto muito daquela região e o restaurante tem umas vibes estranhas. O shopping tem bastante Pokémon pra caçar enquanto eu como, mas o barulho das cadeiras arranhando no chão me incomodam, sem contar os grupos enormes de galera da firma, galera do colégio, galera do cursinho. Evito galeras, mas lá tem bastante opção: mexicano, pizza, massas, hambúrguer, camarão. Mas tudo engorda. Ou é caro. Ou é ruim. Isso que na maioria dos casos eu descarto o delivery, que abre outro leque de opções.

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Às vezes eu acordo convicta do que eu quero comer no almoço, mas é raro. E às vezes acontece também de eu ir certeira, mas na primeira mordida eu olho pro lado e o almoço da mesa ao lado parece mais gostoso. Nessas horas dá saudades de quando eu almoçava a comida da minha vó em casa. Enjoava comer sempre a mesma coisa, às vezes tinha coisa que eu não gostava, mas no geral eu comia sem me preocupar com as opções. Era ou o que tinha ou o que tinha, fim de papo.

Mas por incrível que pareça, não é sobre comida que eu quero falar hoje. Falei sobre esses meus hábitos alimentares porque o amor, antigamente, era como os meus dias almoçando a comida da vó em casa: o caminho já estava meio traçado para nossos pais, nossos avós. Pode perguntar para eles, a maioria se conheceu na vizinhança, na igreja, no baile. No livro “Romance Moderno”, do Aziz Ansari, existe até uma pesquisa que mostra que as pessoas moravam muito perto de quem elas iriam se casar no futuro. As opções eram poucas, os critérios eram mais objetivos: uma pessoa trabalhadora e honesta era o suficiente.

Já o mundo amoroso de hoje em dia é aquela praça de alimentação que tem tanta opção que você acaba perdendo mais tempo escolhendo o que vai comer do que comendo de fato. Você vai ouvir histórias de pessoas que casaram com alguém de outra cidade, outro país, que começaram um relacionamento à distância, as opções são infinitas! E isso pode ser muito bom, claro, a chance de você encontrar alguém mais compatível com você é maior do que há 50 anos, mas o caminho até você encontrar essa pessoa provavelmente será mais longo e cansativo.

Além disso, quem garante que essa pessoa é o amor da sua vida? Mesmo quando você encontrar alguém legal, vai saber que logo ali no bar da esquina pode ter alguém mais bonito, no Tinder pode ter alguém mais interessante, na faculdade pode ter alguém que fode melhor. Como construir relacionamentos se o mundo virou um enorme cardápio de pessoas que podem parecer mais apetitosas que você?

E é claro que eu não vim trazer a solução, porque se eu tivesse a resposta pra essa questão eu estaria rica, muito rica, e não aqui. O que eu posso fazer é falar pra vocês o que eu faço na hora de almoçar: pondero por um tempo, decido que tá na hora de escolher e escolho – pronto. Se for muito bom (não precisa ser a-melhor-comida-do-mundo, entenda como quiser) eu fico satisfeita, sem tentar comparar com a comida do cara da mesa ao lado.

Na busca pelo melhor do mundo, você pode acabar com o prato vazio.