Gato escaldado tem medo de água fria

Terça-feira, 18h20. Enquanto eu esperava minha irmã em frente ao estacionamento onde deixo o carro, um Fox prata foi se aproximando de onde eu estava e diminuindo a velocidade. Parou com o vidro do passageiro aberto e falou algo para mim. Nesse momento eu já tinha virado meu rosto para o lado oposto ao do carro, olhando só de “rabo de olho”*.

Assim que ele falou comigo, foi parando o carro a poucos metros de onde eu estava e, curiosa, olhei. Nisso vi que ele estava com o celular em um suporte desses usados para facilitar a visualização do aparelho. E nesse momento tudo ficou claro: o homem dentro do Fox era um motorista de Uber/Cabify checando se eu era a passageira dele. Por um pequeno momento me senti culpada, afinal, o moço estava apenas procurando a pessoa que fez o pedido. Mas nós mulheres temos que suportar tanta coisa na rua vinda de homens machistas que é totalmente compreensível desenvolvermos estratégias para evitar ao máximo que sejamos abordadas com cantadas, na “melhor” das hipóteses, e desconfiarmos de tudo e de todos.

E isso só confirma o que tem se falado nos últimos tempos: é complicado demais ser mulher em um mundo machista. Somos impedidas de viver sem preocupações, porque nunca se sabe se durante nosso trajeto vamos ouvir cantadas vindas de alguém passando de carro na rua ou se o cara que está andando atrás de nós é um estuprador ou apenas alguém indo para o mesmo lado que nós.

Na dúvida, melhor colocar todos no mesmo balaio: só quem já perdeu o número de quantos assédios já sofreu na vida sabe como é difícil tentar dar votos de confiança a um desconhecido.

 



*Se tem algo que fui obrigada a praticar, isso foi prever o que pode vir a seguir nessas situações, e desviar meu olhar pra outro lugar é uma das coisas que faço quando suspeito que alguém dentro de um carro ou na rua vai me assediar verbalmente. Não que surta muito resultado, mas é uma forma de me sentir menos “invadida”.

“E se fosse a sua irmã?”

Recentemente, a irmã de um amigo fez um post no Facebook comentando sobre um assédio. Apesar de ter apenas 13 anos, o acontecimento não deve ser o primeiro da sua ainda curta vida, mas provavelmente o primeiro que ela vai se lembrar.

No relato, ela conta que um homem a estava encarando “pelo fato de estar de shorts”. Você pode pensar que é um caso à parte, visto que pedófilos (sim, estou dizendo que ele é pedófilo) não são tão descarados assim para assediar em público, não é? Bom, sinto dizer, mas eles são e isso acontece o tempo todo. Basta lembrar do caso da Valentina, do MasterChef Jr.

Essa história também me fez lembrar das inúmeras vezes em que eu voltava da escola, com menos de 17 anos, e já tinha que ouvir frases nojentas de homens adultos e velhos. Era um assédio cometido com uma garota que não tinha corpo de mulher e ainda usava uniforme da escola. A culpa era da minha roupa? Do meu corpo? Que eu não aparentava a minha idade? Claro que não. Essa sempre é a desculpa dada por eles para cometerem seus crimes por aí e saírem inocentes. Aliás, acredito que toda mulher já ouviu, enquanto passeava com a sua mãe, que o cara “pegava a mãe e a filha”. Pois então.

Por sorte, a garota da história estava com um de seus irmãos, que não hesitou em tirar satisfações com o ser, que não deveria ser chamado de humano, que desejava uma criança de shorts. Em mais um ato muito maduro, a reação do homem foi mostrar o dedo do meio, sair de perto e depois voltar e mostrar o dedo novamente.

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Quando pedi autorização ao meu amigo para comentar a história, ele ainda me contou que, já em casa, a família fez uma reunião com a garota para deixar claro que ela não tem culpa de nada. Eles ressaltaram que ela pode usar o que ela quiser, que ninguém tem direito nenhum sobre o seu corpo e que, infelizmente, existem pessoas muito ruins por aí e o importante é seguir em frente. Eu ainda complemento aconselhando que ela nunca se deixe calar. Não foi a primeira e não vai ser a última, mas ela tem o apoio da família e de irmãos que aprenderam que mulheres devem ser tratadas com respeito. E que ela nunca deixe um homem dizer o que ela deve ou não fazer ou como deve se portar ou vestir.

Se você é homem, acha um absurdo ouvir casos de assédio mas quando vê um não faz nada, não diz ao amigo que ele está errado ou, até mesmo, age dessa forma, se pergunte se você gostaria que isso acontecesse com a sua irmã, mãe, tia, melhor amiga ou namorada. Mais do que isso, imagine as mulheres da sua vida nessa situação, crie o cenário na sua cabeça.

Eu fico muito triste em saber que ela e outras garotas passam por situações como essa todos os dias, mas ao mesmo tempo fico feliz por saber que ela tem tudo para se tornar uma mulher empoderada que vai usar esse caso para se tornar ainda mais forte.

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